(aviso de conteúdo: violência sexual, uso de drogas, linguagem de baixo calão, agulhas)
Marcelinho é o rei do crime na região. Mata, esfola, queima, rouba, tortura sem dó. E Rita é sua “namorada”. Sua puta de plantão, passada como recompensa pra quem ele acha que merece. Pra todos e todas que ele acha que merecem.
E Rita é maravilhosa. De corpo, de rosto, de sexo, de aceitação. Sua carne macia e miraculosamente imaculada recebe todos os escolhidos de Marcelinho com o abandono e volúpia que só a necessidade completa pode proporcionar. Rita sabe que Marcelinho também vai recompensá-la com seu veneno. Mas é melhor que estar nas ruas, apanhando, exposta. O final é parecido, mas aqui Rita é alimentada, recebe um cuidado mínimo, e suas pedras, suas doses de sempre (mas controladas e aumentadas periodicamente), estão garantidas. O que a entorpece e impede que ela perceba sua verdadeira situação é o que causa essa mesma situação. Rita queria fugir, mas acabou mais presa ainda no círculo eterno do redemoinho sem misericórdia que é Marcelinho.
Há que ser duro por aqui. Ou você é duro ou é moído.
Mas Rita — Rita é macia.
Minha mãe ainda mora aqui. Ela é dura. Não quis sair. Cresceu aqui. Não se vê em outro lugar. Eu não sou duro, não aguentei, saí. Fugi. Sou um artista e artistas precisam de um pouco de espaço.
Sou tatuador. Sempre desenhei, sempre admirei tatuagem, e logo passei à pele das pessoas. Marcelinho me ajudou, me dando minha primeira máquina. Era uma boa máquina. O preço era só trabalhar pra ele, ocasionalmente. Bem pouco, na realidade. Marcelinho, suspeito, gosta da ideia de deixar marcas permanentes nas pessoas.
Eu tatuo Marcelinho e Rita. Não posso recusar — eu devo isso a ele e minha mãe ainda mora aqui. Marcelinho me chama uma vez a cada dois meses, em média. A maioria dos seus motivos são religiosos. Jesus, Maria. Algumas frases. Mãe, me perdoe. Jesus me julgará. Em Rita eu decido. Ele dá sugestões, às vezes, mas a decisão é minha. Faço tudo que posso pra enfatizar suas curvas, pra adornar seu corpo.
Exceto por uma única tatuagem que Marcelinho exigiu fazer em Rita, todas suas pinturas são minhas.
Marcelinho ordenou que lhe ensinasse a usar a máquina. Fiz o que pude com os dez minutos que tive. Ele tatuou seu nome, com um rabisco de criança que nunca pega na caneta, logo acima do cóccix de Rita. Ele escreveu “Marcelinho”, mas todos lêem “propriedade de Marcelinho”.
Rita não parece se importar. Seu belo corpo, na realidade, é vazio. Marcelinho matou seu espírito, mais eficazmente do que qualquer outra coisa poderia fazer. Rita é como uma estátua viva, de carne quente e cavidades úmidas, mas morta por dentro, uma boneca que satisfaz todos os prazeres que lhe mandam satisfazer.
Estou na casa de Marcelinho. Almoço com eles. Como sempre, Marcelinho usa roupas de grife e muitas jóias. Fala sem parar, de quem matou, de quem morreu, de quem comeu, de quem subornou, de quem corrompeu. Rita usa roupas minúsculas, e sua aparência maravilhosa não consegue me distrair de seu olhar vidrado e vazio.
Marcelinho serve uma mesa farta com uísque importado. A senhora que coloca os pratos na mesa mantém os olhos baixos e anda em silêncio. Sempre quis saber quem seria, mas nunca perguntei. Tenho receio da resposta.
Hoje ele quer uma coisa simples. Suas idéias são sempre terríveis — piegas, clichês, um lixo estético. A seu lado, Rita refulge com o melhor que posso fazer. É como ver um rato de esgoto sifilítico ao lado de um cisne radiante.
Marcelinho ficou sabendo que um raio atingiu a mão direita do Cristo, no Corcovado, e quer a mesma coisa. Quer que eu faça um grande raio azul atingindo a mão direita do Cristo de braços abertos que toma seus ombros e suas costas.
Separo as tintas, um azul elétrico, um azul turquesa, um azul claro e um branco, pra dar destaque. Me esforço pra fazer o possível. Não é de suas piores idéias. É realmente simples, não demoro.
Rita é como uma borboleta. Linda, mas sem peso. Imaterial por si só, uma de uma infinidade de borboletas lindas e vazias.
Ela não tem borboletas no corpo. Li que algumas culturas vêem as borboletas como as almas dos mortos, vagando e procurando um corpo pra habitar. Quem sabe não lhe dou uma alma nova?
Preparo o desenho e as tintas. Marcelinho observa. Fala sem parar. Explico que vou fazer uma borboleta, e ele quer que eu faça no púbis depilado de Rita. Uma borboleta em cima da perereca, ele diz, e ri. Como o odeio.
Limpo a agulha. Tento evitar a contaminação a todo custo. Mas Marcelinho não permite que eu troque as agulhas. Trabalho de luvas, de máscara, tento deixar tudo esterilizado — menos as agulhas, porque não tenho sua permissão.
Separo azul, preto, amarelo, branco. Rita tira o short, totalmente sem pudor, deita-se. Limpo a área e sinto seu perfume. Coloco o transfer em seu corpo e começo. Rita não reclama, não esboça reação. Tem o rosto virado pra TV com os olhos desfocados. Trabalho com cuidado, com capricho. Rita é uma tela viva, a pele perfeita pra meus melhores trabalhos. Marcelinho já não está conosco — atende alguém em outro cômodo. Não tento conversar com Rita — já sei que ela não responde de forma conexa. De outras vezes que tentei, já sei.
Marcelinho volta, olha, sai de novo. O tempo passa e Rita em nenhum momento demonstra dor. Continuo meu trabalho e, logo que começa a escurecer, termino. A borboleta em cima da perereca parece querer bater as asas. Está inchada, vermelha, e já é linda. Limpo e higienizo como posso. Alguém vai cuidar dela, talvez a senhora que faz a comida. Rita não é capaz de cuidar de si mesma.
Marcelinho olha o trabalho feito em sua propriedade e sorri. Elogia, comenta, ri. Me dá os parabéns e tapinhas nas costas. Puxa Rita e tira o resto de suas roupas. Diz que hoje ela está extra safada, que só dois homens podem satisfazê-la. Rita sorri, parecendo não entender bem. Mas se entrega ao roteiro.
Olho pra Rita, nua na nossa frente, olho pra Marcelinho. Tiramos a roupa e vamos pro chão, sobre o tapete. A carne de Rita se abre pra nós, seus peitos suculentos recebem nossas carícias, suas entranhas nossa luxúria. Seu corpo parece nos aceitar com a voracidade do vazio.
Sei que Rita não é nada — pra Marcelinho, pro bairro, pra cidade. Rita não deveria ser nada. Mas tenho um problema.
Não sou um calhorda.