Diário do front 49 – Quinta – 01/08/2019

Agora, sim, um dia de muitos comentários!

Esqueci de tentar fazer uma barra temporária na calça nova da Tati pra entrevista e aí demos um jeito com fita adesiva, mesmo, e ficamos torcendo pra segurar pelo menos até terminar. Saímos e fomos buscar o carro que eu tinha reservado na noite anterior – uma horinha de ônibus até lá.

Aproveitando, estamos os dois estudando pra fazer a prova pra pegar a carteira de motorista daqui. Tudo bem parecido com o Brasil, então não está dando muito trabalho. Precisamos acertar 32 de 40 questões e estamos errando uma ou duas por teste, de modo geral. Tá ótimo já!

A locadora era bem pequena, e fomos atendidos pelo Kirk, um cara esquisito, mas que parecia bem gente boa. Ele estava meio com cara de saco cheio, até eu comentar sobre a raposa de porcelana que ele tinha na mesa dele, super fofa. Eu adoro raposas, não sei se já falei isso. Enfim, aí ele mudou, começou a sorrir, e me disse que ele mesmo tinha pintado a raposa num lugar chamado Painted Mug Café. Basicamente, é uma oficina de cerâmica aberta, com bar e lanchonete, onde você vai, escolhe uma peça, pinta e eles assam lá, mesmo, por um preço que parece bem legal. E a raposa dele ficou linda, mesmo. Aí ele falou um monte do lugar, perguntou o que íamos fazer, de onde éramos etc. E nós tínhamos marcado pra devolver o carro no mesmo dia, às cinco da tarde, e o Santo Kirk logo sugeriu que devolvêssemos no dia seguinte, porque não pagaríamos nada a mais. Topamos, pra ficarmos tranquilos e podermos ver outras coisas, se quiséssemos (spoiler: quisemos). Ele disse que receberíamos um upgrade, de carro econômico (meus favoritos, inclusive pelo tamanho) pra um sedã mais confortável (e maior) – um Toyota Corolla. Eu disse que preferia ficar com o econômico, mesmo, que gosto de carro pequeno, e ele ficou super sem graça e disse que era porque não tinham o econômico disponível…

Pegamos esse, mesmo, então, e fomos pra London – uns oitenta e poucos quilômetros de Kitchener. Dirigir aqui é bem mais fácil, mesmo, ainda que sempre tenha gente babaca em todo lugar.

London parece cidade pequena, quase vila, mas, na realidade, tem quase quatrocentos mil habitantes e é a quinta maior cidade de Ontario em população.

Resolvemos ir comer antes da entrevista, porque o email dizia que poderia levar de uma a duas horas e já estava na hora do almoço. Tatinha com fome não passa em entrevista, porque morder o entrevistador não é de bom tom. O lugar mais próximo era – de novo – Tim Hortons. Acontece que a porcaria do Google Maps não disse que era só drive-thru e queríamos sentar, inclusive pra não correr risco de se sujar, então acabamos indo no Pizza Hut.

Pedimos e a moça disse que levaria uns quinze minutos – tínhamos vinte pra sair de lá. Pela nossa cara de consternados, ela hesitou e expliquei o tempo e ela, super simpática, disse que ia pedir pra acelerarem. Quando veio, tinha cara bem melhor que a Pizza Hut do Brasil. Comemos super rápido e efetivamente era bem melhor que a do Brasil, que pra mim sempre parece uma esponja cheia de sal e e gordura e mais nada. Essa estava crocantinha, mas ainda macia, com bastante cobertura.

(Fui ao banheiro rapidinho e tinha um garoto lá – de uma festa que estava perto da gente. Ele estava falando sozinho e achei engraçado pelo que disse: “Esse banheiro é nojento! Eles fazem ótima pizza, mas que banheiro nojento. Blergh!”)

Saímos meio correndo do Pizza Hut pra chegar na entrevista, que era numa unidade, tipo uma lojinha de várias em volta de um estacionamento. Tati entrou, a calça descolada (maldita fita), mas deu seu jeito e eu fui pra baixo de uma árvore ler e esperar por ela. Tinha bastante gente com roupa social, então imagino que estavam rolando várias entrevistas ao mesmo tempo.

Estava preparado pra esperar pelo menos uma hora e me surpreendi quando vejo a Tati me procurando quinze minutos depois! Ela me contou que foi tudo ok, mas que já nem iria na próxima, porque perguntaram algumas coisas bem básicas, que não disseram nada sobre o trabalho, mas que aquela entrevista era “só pra se conhecerem”, que ainda teria mais três outras antes de qualquer decisão, todas em London, pra ela aguardar ligação deles caso eles tivessem gostado do perfil dela.

Empresa que explora os funcionários e foda-se a vida deles, claramente. Ainda bem que ela já decidiu que não quer. Esse tipo de comportamento é extremamente desrespeitoso e indica como as coisas funcionam na companhia. Felizmente isso não parece ser tão comum aqui quanto é no Brasil. Lembro bem do longo processo pra Cultura Inglesa – vinte dias de “treinamento” pra selecionar só algumas pessoas pra dar aulas, prometendo mundos e fundos, mesmo que não pagando nem passagem dos vinte dias, pra depois ser um salário MUITO abaixo do mercado, com exigências loucas e um banco de horas mutreteiro. Esse tipo de empresa não compensa, sinceramente.

Aproveitando que ela saiu cedo, fomos pra uma loja de usados – a Value Village, famosa – procurar roupas pra ela. Já tínhamos dado uma olhada nas roupas em outras lojas só por curiosidade e tudo sempre parecia em bom estado ou melhor. E fomos em London, já que estávamos de carro e não dá pra ir até lá com facilidade.

A loja era ENORME, uma coisa assustadora. Resolvemos passar por quase todas as sessões, inclusive móveis, e tinha várias coisas que queríamos, tudo mais barato que nas lojas de Kitchener. Pegamos dois cálices pra licor, que só tínhamos um, muitos potes pra tempero (2,99 por sete potes, com lacre de borracha!), um conjunto de pratos regulares, pra sobremesa e cumbucas, um escorredor pra louça (que o que estava aqui era de plástico que mais ocupava espaço que outra coisa), pote pra açúcar, um difusor de essências e mais um monte de coisas (que vou colocar no post sobre essas compras logo). Enquanto eu olhava os livros, Tati foi olhar as roupas.

Os livros também estavam bem baratos e tinha uma promoção especial: levando cinco, um era de graça. Escolhi cinco livros sobre trabalhos com madeira e ainda deixei dois pra trás, que eram menos interessantes! Ainda dei mais uma olhada, mas logo parei, porque ia acabar pegando mais livros e estou muito tentando segurar o vício.

Quando fui procurar a Tati, não encontrei. Mandei mensagem e estava no provador. Quando saiu, ela já tinha uma braça de roupas provadas, separadas em rejeitadas e talvez. Ajudei a escolher e aí voltamos pras araras, que ela ainda não tinha visto nem um quarto das roupas disponíveis! No fim, saímos de lá com nove blusas e duas calças. Com a outra blusa e a outra calça, já tem roupa pra trabalhar um tempo. Pelo menos até o frio chegar, claro…

Aí passamos numa loja de coisas de costura pra ver se encontrávamos umas peças que ainda faltavam, e conseguimos tudo, felizmente, inclusive o óleo com aplicador comprido pra facilitar a vida. Preciso fazer as bainhas de duas calças e umas coisas pra casa, agora.

De lá, voltamos pra Kitchener e fomos na Perfect Find, outra loja de usados, pra ver se achávamos criados-mudos, que ainda estamos usando uma das cadeiras pretas que encontramos no lixo e uma das mesas que pegamos na rua (as novas, bem bonitas). Por sorte toda quinta fica aberta até oito da noite, nem ideia do motivo, porque fecha umas cinco nos outros dias.

Acabamos comprando mais vários móveis e nos disseram que entregariam sábado. Compramos duas poltronas do tipo que reclina, uma meio bordô, mais velha, e uma rosa queimado, em muito melhor estado, uma mesa de TV com vários espaços pra guardar coisas, uma estante de pinho em ótimo estado, uma de aglomerado com fórmica e dois criados-mudos em estilo absolutamente nada a ver com nenhum dos outros, mas que vai servir mesmo assim. Combinamos a entrega pra sábado e perguntamos se poderiam levar uns móveis que não queríamos (as mesas, já explico), pagamos e voltamos pra casa, onde ficamos – adivinha – arrumando o apartamento pra poderem levar as mesas no sábado.

As mesas que pegamos foram úteis por um tempinho, mas elas são muito grandes, sem espaço real que não seja o tampo. Como o apartamento é pequeno, precisamos otimizar os espaços ao máximo e essas mesas, que além de tudo são baixas, não estão ajudando muito. Vamos trocar as mesas por esses móveis que compramos, cheios de prateleiras.