Diário do front 41 – Quarta – 24/07/2019

Recebi um email avisando que hoje viria mais gente no apartamento, então combinamos que eu ficaria em casa esperando. Além disso, a entrega das panelas estava marcada pra hoje e o cara da máquina – surpresa total – disse que me daria a máquina. Perguntou se me interessava, mesmo ela não estando “muito boa” e o braço estando “um pouco preso”, se eu tinha como buscar. Falei que podia tentar alugar alguma coisa, porque não temos carro, ele perguntou onde era e se ofereceu pra trazer aqui! Maneiro demais. Claro que eu aceitei.

Tati foi pra Toronto buscar o papel que vai permitir que a gente faça a prova pra pegar a carteira de motorista aqui. Ela foi de trem e foi tudo tranquilo – ficou menos de dez minutos pra pegar tudo, de novo. Só pra constar: email, gente, internet, não precisar fazer tudo presencial…

Fiz feijão hoje pela primeira vez, na panela da explosão de vapor, com medo de fazer errado. Consegui, mas demorei mais que o normal – mantive o calor baixo demais, acho. E o sal daqui não salga, ficou bem sem graça nesse sentido. Mas sal é só colocar mais, sem grandes problemas.

 

Primeiro feijão!

 

Eu estava fazendo brigadeiro pra dar pra pessoa da máquina, em agradecimento, quando a campainha tocou. Subi as escadas e abri a porta e já achei que tinha feito merda – um carro de polícia com um policial me esperavam. Aí reparei que tinha a máquina de costura na parte de trás e fiquei um pouco mais tranquilo. Ele fez uma cara meio estranha quando me viu – acho que me imaginou na máquina de costura e achou esquisito. Ele saiu super rápido, dispensou o brigadeiro (que eu ainda nem tinha terminado, verdade seja dita) e eu desci as escadas com a máquina, que tem uma mesinha em que ela fica embutida. Terminei o brigadeiro (ia fazer dois – um pra ele, um pra Tati – acabei fazendo um só) e fui ver a máquina.

A máquina é muito bonita e parecia em ótimo estado, apesar da quantidade gigantesca de sujeira. Os pés da mesa estão todos bambos, mas não parecem podres. O sistema de armazenamento é bem interessante – tem duas dobradiças presas na máquina que permitem que se gire a máquina inteira pra cima, fechando uma portinha no tampo e apoiando a base dela ali. Pra fechar, é só fazer o contrário e fechar o tampo maior. Mas a máquina não mexe. Nada nela mexe. Está inteira travada, coberta de sujeira e óleo seco – isso tudo por dentro, que claro que tirei todas as coberturas possíveis pra olhar o mecanismo. Não sei se consigo fazer a máquina voltar a funcionar, sinceramente. Espero que consiga, porque ela é claramente ótima, inteira de aço, meio lilás/lavanda.

Uma pesquisa rápida me disse que é uma máquina Kenmore-Sears da década de 1950, mesmo, da época em que rolou uma espécie de guerra das máquinas de costura – dezenas de modelos eram lançados por ano, cada um com pequenos avanços em relação aos anteriores, e muitos clones – MUITOS clones! A maioria das marcas desapareceu. A vantagem dessas máquinas é que costumam ser de aço e latão e as peças eram feitas quase todas pra servirem umas nas outras, assim as empresas não precisavam ficar renovando também as peças. Tipo o que a Apple faz hoje, só que o contrário. Ainda hoje se fabricam peças pra essas máquinas.

 

Chegou assim, mas a poeira não aparece na foto…

 

Nisso, tirei o feijão da panela e coloquei em potes, porque precisava fazer almoço ainda. Como só tem uma panela realmente funcional (a de pressão), fiz prato único pro meu almoço de hoje (e o nosso de amanhã): refogado de frango, batata e cenoura. Ficou bem bom, até. Estou reaprendendo os temperos, que são diferentes mesmo aqui. Não tipos diferentes, mas de potências diferentes. Algumas coisas mais fortes no Brasil são super fracas aqui e vice-versa.

 

 

Depois do almoço, passei o dia mexendo na máquina, limpando e tentando soltar as peças. Muito desengraxante, esfregação, vinagre pra parte externa e suor na testa. Ainda assim, nada foi destravado. Estou tentando entender melhor como ela funciona pra saber exatamente o que precisa se mexer…

Ninguém da seguradora apareceu, nem vieram entregar as panelas. #xatiadu