Diário do front 34 – Quarta – 17/07/2019

De novo, acordamos cedo, porque hoje precisávamos ir pra Toronto pegar o documento pra iniciar o processo das carteiras novas. Nos arrumamos e saímos e estava uma chuva monstra! Andamos até o ponto, mas ficamos os dois absolutamente encharcados, mesmo com guarda-chuva. Conversamos, com frio e molhados, e resolvemos voltar, trocar de roupa e pegar um Uber pra estação.

Chegando lá, já começou o drama de novo: começou a atrasar. Mas logo chegou, felizmente, e embarcamos.

Acho que esse é um bom momento pra eu revelar que AMO trens. Sério. Eu adoro andar de trem, eu adoro a ideia do trem, eu acho incrível que seja um método super eficiente e que simplesmente deveria existir em imensas quantidades em todos os países do mundo porque ajuda demais a vida das pessoas e o funcionamento dos lugares. É um jeito rápido, comparativamente barato e confiável de transportar cargas e pessoas.

O trem é bem limpo e confortável, com ar condicionado legal e filtros limpos. Pedi um café do carrinho, porque estava com muito sono, mas me arrependi de não pedir açúcar. Provei o café e era horrível. Aliás, canadense não sabe fazer café, porque é sempre uma droga. Tati pediu açúcar pra mim e coloquei todos os sachês, junto com o creme (um leitinho que vem num potinho) pra ficar mais ou menos bebível. O caminho também é bem bonito, muito verde, algumas plantações, várias cidades pequenas. Em muitos lugares parece que estamos no interior da Alemanha.

Chegando em Toronto, na estação de trem que liga com uma das estações de metrô e ônibus, fomos andando até o metrô e pegamos em direção ao consulado. O metrô parece bastante com o de São Paulo – é limpo, organizado, iluminado, funciona bem. E tem uns malucos, claro, mas isso é normal em qualquer cidade – quanto maior, mais malucos. Logo descemos e minha primeira impressão foi que Toronto fede. Literalmente, tem cheiro de sujeira. Mas provavelmente é porque estávamos perto de uma estação de metrô, sei lá. Aí fomos andando por umas ruas cheias de lojas chiques (pelo menos as que reconheci eram bem chiques) e chegamos no prédio do consulado. Subimos sem nem precisar mostrar documentos nem nada e pegamos uma senha.

Consulado do Brasil tinha, é claro, vários brasileiros. Aí vemos todos os tipos, mas claro que tinha a moça super brava porque esqueceu um documento e estava reclamando do serviço, um casal (ela brasileira, ele canadense) vendo como fazia pra ele visitar o Brasil com ela, pelo que entendi, mãe com três crianças resolvendo sei lá o quê, mas bastante gente educada, também. Os atendentes, aliás, todos educados e se esforçando pra serem simpáticos.

A título de curiosidade, um dos atendentes parecia MUITO com o Patton Oswalt, o ator, e uma das pessoas que foi lá ser atendida parecia mais ainda com Ted Levine fazendo o Buffalo Bill do Silêncio dos Inocentes, mas mais bombado. Até a voz parecia. Mas não era o Ted Levine, que hoje tem mais de sessenta anos e não fala português.

 

Jame Gumb ou Buffalo Bill, interpretado por Ted Levine

 

Logo fomos chamados e esquecemos um documento! Passou batido. A moça foi super legal e disse que poderíamos abrir no celular que ela aceitaria, pra ajudar a gente. Fizemos isso enquanto ela atendia outras pessoas e logo resolvemos o problema, pegando o documento e sendo instruídos a voltarmos na semana seguinte. Detalhe: tudo feito em menos de cinco minutos, depois de três horas de viagem. Super daria pra resolver pela internet, mas tudo bem…

Saímos e fomos comer, porque – esqueci de dizer – a Jolyn nos convidou pra ir comer comida japonesa hoje às 18h, e precisávamos voltar logo, porque a viagem é longa. Procuramos em volta, mas só tinha coisa cara e chique, tipo de lugar que te olha de cima a baixo só de você pensar em entrar. Aí encontramos o Flo’s Diner, ou Lanchonete do Flo, que fica no segundo andar de um miniprédio comercial.

A lanchonete do Flo (ou será da Flo?) é antiga, tradicional, pelo visto, e tem comidas de café da manhã, também, igual ao Sunrise Grill. Pedi ovo frito com bacon e batata e um suco de cranberry. Tati pediu um misto quente, também com batatas, e água pra beber. Aliás, eles simplesmente servem água fresca à vontade. Estava tudo uma delícia, saímos de barriguinha cheia e felizes, pra correr e tentar pegar o trem de volta.

 

Flo’s Diner

 

O problema é que, mesmo correndo, acabamos perdendo o trem que queríamos pegar. Google Maps zoou gostoso com a gente e não atualizava, mandando a gente pro lugar errado. Quando percebemos, já tínhamos perdido uns dez minutos – exatamente os dez minutos que precisávamos pra pegar o trem certo. Outra coisa é que, mesmo pegando esse trem, precisaríamos fazer umas duas baldeações pra outros ônibus. De qualquer forma, esperamos uma hora pra pegar o próximo, torcendo pra ele não atrasar, porque o ônibus seguinte, se perdêssemos, só repetiria às oito da noite! E estava um calor infernal, mesmo dentro da estação. Mau humor generalizado. Ainda bem que ninguém veio perturbar a gente, porque acho que seria competição pra ver quem matava o infeliz.

Quando finalmente pegamos o trem, estava fresco e ele era bem rápido, de dois andares. O andar superior, aliás, era “quiet” – silencioso, onde não se pode conversar. Bem legal, mas ficamos no de baixo, mesmo. Desembarcamos em outra estação e fomos procurar de onde saía o ônibus – em dez minutos. De novo, a falta de informação atrapalhou, porque não tem em lugar nenhum qual a porcaria da plataforma de onde sai o ônibus. Acabamos encontrando e pegamos momentos antes de ele sair.

Quando chegamos em Kitchener, ainda tínhamos uma hora antes de ir encontrar com eles, então fomos na KW Surplus pra Tati conhecer e comprarmos umas coisas que precisávamos. Só que foi uma correria tão grande que nem deu pra ela ver nada. Ainda assim, saímos de lá com uma bolsa de ferramentas, pequena, um espelho pequeno pro banheiro, uma escova de cabelo pra loirona da casa, um rolinho de corda fina e uma pinça – que caiu do carrinho e acabamos deixando pra trás. De lá, voltamos pro centro de Kitchener pra ir no restaurante.

Chegando lá, esperamos um pouco e logo chegou a família toda. Evellyn estava vestida de Bela, claro. Logo entramos e sentamos, o restaurante lotado, super barulhento. Levi estava de péssimo humor e difícil. Foi bem divertido, apesar disso, e o lugar funciona assim: você pede tudo que quiser por um preço fixo, à vontade (ainda que as porções sejam pequenas e demorem um pouco), mas você tem um tempo máximo pra ficar lá – até uma hora e quarenta e cinco minutos. Dá pra comer bastante, se pedir muita coisa logo de cara. Tudo que comi estava gostoso, e me disseram que as comidas não-civilizadas (leia-se “as cruas”) também estavam bem boas. Dentro do possível pra esses negócios, ao que me consta. Conversamos um pouco, mas foi complicado, tanto por causa do Levi quanto pelo barulho do lugar. Jolyn nos contou que o lance do sorvete de Branca de Neve e de Cinderela começou comigo, que a Evellyn nunca tinha falado sobre isso. Achei legal e fofinho.

Quando saímos, ficamos um pouco conversando do lado de fora, e logo vimos uma semibriga: uma mulher cheia de atitude estava discutindo com um cara que, se estivéssemos no Brasil, claramente apoiaria o Bolsonaro. As partes que peguei me deram a entender que ela tinha falado alguma coisa ou só invocado com ele e ele começou a dar respostas cada vez mais grossas, ao ponto de mandar ela “ir pra puta-que-pariu”, mas ela deu a melhor resposta que já vi na vida, que vou traduzir mais ou menos: “Você sabe meu nome? Sabe quem eu sou? Um mundo de merda tá vindo pra cima de você, garotinho da bermuda roxa”. Sim, ele estava usando uma bermuda roxa. “Purple shorts boy” virou, a partir de agora, meu insulto favorito.

Voltamos pra casa, cansados, claro, mas ainda fomos dar uma microvolta de bicicleta que eu estava com saudade e queria saber como ficaram as alterações que fiz nas duas bicicletas. Helô ficou ótima com chifres mais empinados, Ruddy ainda precisa subir o guidão, mas a altura do banco parece estar legal. A cesta, por outro lado, continua muito pra frente e preciso puxar um pouco mais pra trás.