Diário do front 33 – Terça – 16/07/2019

Hoje seria o dia de ir ao consulado, em Toronto. Depois de muito pesquisar, decidimos ir de trem, porque parece mais fácil e menos demorado (ainda assim, três horas de viagem). Acordamos super cedo, porque só pra chegar na estação já leva quase uma hora, e ficamos plantados, o trem atrasando mais e mais.

A estação, aliás, é meio antiga, foi reformada, mas hoje não é muito usada. Pra variar, os carros estão dominando tudo. De qualquer forma, é bem legal ver quais vidraças são originais (têm o vidro meio ondulado) e quais são recentes, assim como as partes que foram trocadas e as que só foram consertadas/reformadas.

 

Estação de Kitchener na chuvinha

 

Parte antiga do telhado

 

Enfim, o trem saía às 9h18, deu quase dez e não tinha chegado ainda. Fomos perguntar no guichê e tinha uma mulher MUITO falante lá, comprando duzentas passagens pra um monte de viagens, comentando tudo e falando sem parar. Foram uns quinze minutos só esperando ela terminar o papo… Quando conseguimos, a moça explicou que estavam esperando um trem de carga passar, que é triste ver que a carga tem prioridade e as pessoas, não. Triste, mesmo, e fruto do capitalismo delicioso que ferra tudo mais e mais. Aliás, o Brasil está afundando cada vez mais rápido exatamente por causa da sanha que o novo governo tem pelas formas mais escrotas de capitalismo. Só pra constar, ainda acho o capitalismo a forma menos ruim de produção num mundo tão globalizado e conectado, só acho que existem formas e formas de capitalismo, algumas mais equilibradas com o socialismo e outras mais alinhadas ao vale-tudo – vide o capitalismo na Dinamarca e o capitalismo nos EUA, por exemplo.

Trocamos a passagem pro dia seguinte e fomos em uma outra loja de segunda mão que tem super perto da estação – Worth a Second Look, ou Vale uma Segunda Olhada. Só que fui pro lado errado e quase entramos numa cozinha de caridade, cheia de gente. Tati percebeu o erro e fomos pra outra entrada.

A loja fica no que parece ser uma fabriqueta antiga, dividida ao meio. A parte da frente é a loja, a parte de trás é a cozinha. Ela é menos arrumada, mais cheia e com mais coisas que as outras que visitamos. Ficamos um bocado de tempo lá, e acabamos saindo com facas novas (as que o proprietário deixou no apartamento são ruins demais – aliás, quebrei uma cortando queijo), colheres medidoras, uma caneca de estanho, um ralador em estado ok, uma taça de licor pra Tati tomar o hippocras que ainda preciso fazer e uma cópia de The Golden Compass, ou a Bússola Dourada, primeiro livro de uma trilogia super recomendada pelo Rafa e que é o próximo livro da lista. Também vimos sofás e poltronas, e provavelmente vamos voltar lá pra comprar poltronas, que parece que o sofá não vai caber direito na sala do apartamento…

 

Precisando segurar a onda no Toddynho…

 

Aliás, esqueci de atualizar sobre a série que estou lendo: metade do último livro da série de quinze.

De lá, fomos na MEC (que sempre me faz pensar em Ministério da Educação, claro), que é uma loja chique de coisas pra bicicleta. Eu ainda não sabia que era chique, mas era, mais até que a primeira em que fui. Tudo era muito mais caro que nas outras lojas, mas lá tinha o que precisávamos – uma peça pra subir o guidão da Ruddy, que a pobre sofredora e paciente Tati está pilotando (dirigindo? Que verbo se usa pra bicicletas?) toda curvada. Conversei com o cara lá, ele disse que poderia encomendar e que chegaria no início da semana que vem, bem mais barata do que a peça que eu achei que precisaríamos. Pedi pra me ligar quando chegasse e saímos de lá pra comer.

Aí fomos no Sunset Grill – um restaurante que serve café da manhã o dia inteiro! Pela primeira vez, eu acho, fizemos uma refeição DECENTE. Pedi panquecas com ovo frito, presunto e batatas coradas, com limonada, Tati pediu panquecas com ovo e batatas, sem presunto nem bebida. Os pratos eram gigantescos, a manteiga era cremosa, o xarope de bordo (maple syrup) era de verdade, não artificial. A moça que nos atendeu era HIPER simpática e fofinha. Comemos bem, e voltamos pra casa, estufadinhos, mas felizes.

Quando chegamos, arrumamos as coisas que compramos e fui fazer um monte de consertos nas bicicletas, inclusive instalar rack na Ruddy e cesta, regular freios, erguer guidões, alinhar coisas etc. Detalhe que as instruções que vieram com as cestas e com o rack eram praticamente inúteis. Fiquei umas várias horas fazendo isso, dentro do apartamento, porque estava chovendo, mas valeu a pena – ficaram bem melhores as duas. Único problema é que os punhos que troquei foram errados – eu tinha os certos, troquei pelos errados, e agora já abri o pacote. Gênio. Vou ter que comprar outros. Ainda bem que são relativamente baratos e vão durar muito tempo.

Enquanto eu fazia isso, Tati limpou o forno e o fogão e fez quase um milagre. Demorou, ficou claramente cansada, mas agora não dá mais nojo de fazer comida nele. As crostas de sujeira eram assustadoras, agora só parecem tímidas e fracas, com medo da próxima limpeza. Os dois mortos, fomos tomar banho pra deitar.