Diário do front 32 – Segunda – 15/07/2019

Hoje foi um dia cheio pra burro.

Vamos pedir pra trocar nossas carteiras de motorista brasileiras por carteiras canadenses, e o processo aqui é um pouco diferente. Você primeiro tira a carteira G1, que só te permite dirigir se tiver alguém do seu lado que já tenha uma carteira G por pelo menos um ano, só em certos horários e não pode pegar estrada. Essa dura um ano. Aí você faz uma prova prática depois de um ano pra pegar a G2, que permite que você dirija, mas sem álcool no sangue. Mais um ano depois, tem outra prova prática e aí você pega a G, que permite dirigir quando, onde e como quiser, dentro da lei – o que inclui um percentual bem alto de sangue na corrente alcoólica.

Pra trocar a brasileira pela canadense, você consegue trocar com facilidade pela G1, mas, verdade seja dita, ela não vai servir de absolutamente porra nenhuma pra gente. A G2 já resolveria, mas vamos logo pra full, que pagamos menos com seguro e coisas assim.

Pra isso, precisamos levar uns documentos no Consulado Geral do Brasil, em Toronto, pagar uma taxa e depois de uns cinco dias ir buscar outro documento, que vamos levar na agência de testes aqui em Kitchener. Fazemos uma prova escrita e depois uma prova prática, caso sejamos aprovados, e aí recebemos a carteira.

Assim, o dia começou com uma viagem ao Staples (a Kalunga daqui) pra imprimir e copiar uns documentos. Não é longe, uns vinte minutos de ônibus, mas está fazendo muito calor. A região está passando por uma onda de calor e não me agrada. Nada. Mas os ônibus têm ar-condicionado e isso já facilita. Eles têm um serviço de self service em que você mesmo faz suas cópias e suas impressões, ficando mais barato. Problema é que nem tudo é claro, como sempre, mas nos viramos e conseguimos as cópias direitinho. Depois demos um rolê na loja, procurando pasta pra documentos (não tem polionda – bsurdo!), compramos uma lá menos cara e que parecia mais resistente e saímos em direção ao Sunrise Centre – um shopping centre a vinte minutos do Staples.

Os shopping centres aqui são bem nada o que entendemos como shopping center (viu a diferença da escrita canadense pra americana?): eles são estacionamentos gigantescos, abertos, com um monte de lojas em volta. As lojas podem ser grandes, tipo Walmart, e pequenas, tipo Refrescos do Zezinho. O Sunrise Centre é um desses.

 

Sunrise Centre, foto real

 

Como o apartamento não tem área de serviço nem nada do tipo, os gatos acabam espalhando areia pra todo lado (os malditinhos), e pesquisamos umas caixas/bandejas mais contidas. Nisso, encontramos uma que é uma caixa com tampa e um furo nessa tampa por onde os fedículos entram, deixam sua marca na areia, e saem, teoricamente fazendo menos lambança. Sabendo que tinha um pet shop no Sunrise, fomos lá também procurar isso.

Quando chegamos, fomos direto lá. O pet shop se chama Pet Valu, tipo “Pet Diskonto” ou algo assim. Na entrada, um cartazinho dizendo que precisam de funcionários. Entramos e fomos super bem atendidos, o pessoal super simpático, e encontramos a tal da caixa – só que custa mais de cinquenta dólares! Muita cara. A moça recomendou uma outra, mas não achamos que resolveria o problema, porque era bem aberta, e saímos. Tati disse que depois vai entrar em contato, talvez seja um bom trampo pra começar – é perto de casa e as pessoas pareceram bem simpáticas.

Aí decidimos comer antes de continuar, porque já estava meio tarde. Escolhemos uma hamburgueria com cara de menos ruim, entramos e pedimos uns lanches. O da Tati vinha com cogumelos, o meu se chamava True North (Norte Verdadeiro) e tinha várias carnes. Vinha batata e um refrigerante, também. Quando chegou, a comida era gostosa, mas muito gordurosa! A batata estava mole de tanto óleo. Enfim, fast food pra que te quero.

Saindo de lá, fomos na Canadian Tire e rodamos um monte de coisas na loja. Achamos as caixas que estávamos procurando pra fazer a caixa pros gatos por dez contos. De cinquenta e tantos pra dez é uma diferença considerável, mesmo tendo que fazer o furo na tampa e colar o carpete. Achamos o carpete, vendido a pés*, assento de banheiro, que o que estava era absolutamente insuportável de machuquento, vimos um conjunto de panelas boas em uma promoção legal e trocamos os punhos que eu tinha comprado pra Ruddy porque eram muito pequenos. Mas não compramos nada disso, só trocamos os punhos, porque ainda queríamos ver na Home Depot (a Leroy Merlin daqui) se tinha essas coisas com melhores preços, e também precisava ver madeira.

Lembra da história da cama? Pois é, perguntei pra um cara no Home Depot e ele disse que ou colocamos um box ou construímos um estrado (ou compramos, mas aí é mais difícil caber direito, porque a cama é antiga e isso não é muito padrão). Por isso fomos ver madeira.

Acabamos descobrindo que eles cortam a madeira, mas depois do terceiro corte cobram um dólar por corte, e que entregam, mas cobram 75 dólares pela entrega, não importando o tamanho! Caro pra cacete pra pouca coisa. A opção passa a ser alugar uma caminhonete pra ir lá, pegar e levar pra casa. Que rolo…

Os preços e as opções no Home Depot não eram melhores que na Canadian Tire, então voltamos lá e compramos tudo que tínhamos visto, exceto pelas panelas, que decidimos comprar pela internet, mesmo, que parece ser menos difícil. Voltamos pra casa carregando tudo.

Parece meio pouco, mas ficamos seis horas nisso tudo.

Quando chegamos, fomos lanchar e procurar as panelas online. Acabamos encontrando um conjunto de uma marca boa, por um preço legal (acho que era cinquenta pelo conjunto) e acrescentamos um espremedor de cítricos e um descascador pra não pagarmos frete. Agora precisamos esperar chegar porque tou louco pra comer comida de verdade, mas não tenho como fazer ainda.

 

* Os Estados Unidos, Canadá e partes de alguns países que eram colônia britânica, inclusive a própria metrópole, ainda insistem em usar o imbecil sistema imperial de medidas. Ele se chama “imperial” porque foi definido pelo rei Henrique I, da Inglaterra. Assim, a menor medida inteira é a polegada, que é “o comprimento de um polegar humano”. No sistema que faz sentido, também conhecido como Sistema Internacional, ou SI, isso equivale a 2.54cm. Aí, dez polegadas são um palmo, e doze polegadas são um pé. Três pés são uma jarda. Daqui pra frente a coisa só piora, entrando em milhas, léguas, furlongs e o escambau. Se você precisar de medidas menores que uma polegada, lascou-se, porque não tem. Tudo aí passa a ser expresso em frações de polegadas. Assim, 1/32 de polegada é literalmente uma medida usada por pessoas que têm cocô na cabeça.