Estou incrivelmente encucado com essa bicicleta nova. Ela me parece pequena, sei lá. Talvez seja só porque a Helô é super alta, com os chifres pra cima. Não sei ainda, mas vamos ver.
Hoje vai ser dia de cuidar das bicis. Assisto a um vídeo no Youtube (um canal bem legal, aliás, Park Tool) sobre como trocar câmaras e pneus, porque nunca fiz isso. Me sentindo super preparado (mentira, mas finge), começo com a Helô, que é mais idosa e tem prioridade. Viro as rodas pra cima e solto a da frente, que é a mais fácil. Não vou explicar todo o processo, mas envolve tirar um pedaço do pneu com umas alavancas, depois outro pedaço, depois puxar tudo, e aí examinar tudo. Aproveito pra colocar o pneu ainda vazio do lado do pneu da nova e são exatamente do mesmo tamanho. UFA! Era só impressão, mesmo. Deve ser o que falei de ela ser mais baixa por ser uma mountain bike.

Com certa dificuldade, consigo tirar tudo e o exame me deixa bem triste: as rodas da Helô estão CHEIAS de ferrugem por dentro. Mas cheias, mesmo. Pelo visto, Helô ficou na chuva com pneus murchos. Não tenho como consertar isso agora. Não tenho ferramentas, materiais, espaço nem tempo – preciso dela funcionando. Então, só dou uma limpada e reinstalo o pneu.

Uma vantagem da Helô é que é toda de aço, então tem jeitos de consertar que alumínio não teria, por exemplo, muito menos fibra de carbono. Até solda essa desgraça pega. Guerreira.
Reinstalar o pneu é mais difícil do que parece, mas consegui. O maior problema é que você precisa ajeitar uma linha que tem no pneu direitinho com a borda da roda, sem estar nem pra cima nem pra baixo, e sem pinçar nada da câmara. Essa foi a parte mais difícil, de verdade. Tive uma surpresa no processo: os pneus trazem a recomendação de a quantos PSI devem ser inflados, e pede 65 PSI! Pra fazer uma comparação, a maioria dos carros tem os pneus cheios com 30 PSI. É claro que a área do pneu do carro é muito maior etc etc, mas eu de verdade não esperava isso tudo. Só de zoeira, comecei a encher a câmara velha que tirei – com menos de vinte PSI, parecia um balão de festa de criança. Devia ter feito um poodle.
Nesse meio tempo, uma vizinha me chama. Se chama Irna, é uma senhora de oitenta anos que a Jolyn me apresentou outro dia. Ela parece ter ficado super curiosa, me chamou pra contar piadas (todas bem sujas), me ofereceu uma cerveja, é viciada em bilhetes de loteria (tipo Raspadinha) e gasta quase toda a grana que recebe do governo nisso. Ela me chamou e disse que estava me escrevendo várias piadas, pra eu pegar algumas agora. Eu digo que pego depois e ela insiste, que depois me dá mais. Digo que tudo bem, então, vou lá e pego, agradeço e ela treme MUITO, o tempo todo – claramente tem Parkinson e não deve cuidar, infelizmente. Ela faz algumas perguntas e conversamos um pouco – me parece ser uma pessoa muito sozinha. Digo que preciso continuar e volto pro trabalho.
Reinstalei a roda e fui tirar a outra – muito mais difícil, claro, por causa das marchas. Depois de olhar até entender como funciona a marcha, consegui tirar e trocar o pneu. Dessa vez foi bem mais fácil, logicamente, porque a primeira já abriu caminho pela jângal da mecânica biciclética. Pneu e câmara trocados, instalo a roda de novo, ainda com certa dificuldade, e alinho tudo, dentro do possível. Como a Helô é bem baqueada, tudo nela parece desalinhado. Os paralamas, por exemplo, pendem cada um pra um lado. Não estão soltos, estão amassados, mesmo. Mas tudo bem.
Aí pego a nova e dou uma olhada – o pneu de trás desalinhou, provavelmente porque não apertei a porca o suficiente. Solto, alinho e aperto forte. Parece que agora vai ficar. Dou umas voltas e está ok. Irna me chama e pergunta se tenho licença pra dirigir aquilo. Digo que tenho, sim, senhora policial, ela ri e eu continuo. É hora de tirar a graxa velha e lavar as duas.
Comprei no KW Surplus um desengraxante e um lubrificante tipo WD-40. O desengraxante é um spray que você coloca, deixa agir uns minutos e aí usa um jato forte de água pra tirar as crostas. Coloco bastante nas duas e vou puxar a mangueira do jardim pra lavar as bicicletas. Espero mais uns minutos e lavo bem, tomando banho junto no processo. Aproveito que já estou ali e lavo as duas, pra tirar poeira, mesmo, e passo um pano de leve, sem me preocupar em deixar super limpas nesse primeiro momento. Claramente vou precisar desmontar as duas inteiras, limpar bem e lubrificar direito quando estivermos no apartamento. Ambas têm camadas de graxa antiga e poeira entranhadas, mas agora só precisam ficar funcionais. Deixo as duas secando no sol e vou guardar a mangueira. Irna me chama de novo, puxa mais papo, respondo um pouco e ela pergunta o que estou fazendo: consertando as bicicletas que comprei. Volto e já estão secas! O clima está quente, seco e deixei no sol. Coloco bastante lubrificante, caprichando bem, em todas as partes móveis, mexendo pra soltar o máximo possível. Parecem bem boas. Dou uma voltinha na Helô, pra experimentar os pneus novos, e ficaram ótimos! Tudo parece alinhado, mesmo, e logo aparece Maria. Pergunto como foi o rolê de ontem, ela diz que foi bom e pergunta se aquela é a minha bicicleta. Digo que sim, e que comprei outra e passei parte da tarde consertando/cuidando das duas. Ela diz que bom que eu sei fazer isso (é, então, eu não sei, é mais chute e pesquisa pra aprender ainda…) e se despede que vai conversar com outro amigo. Me despeço e guardo a Helô pra ir ao mercado comprar suprimentos de limpeza, que quero limpar o quarto.
Bem perdido no mercado, porque não conheço quase nenhum dos produtos, acabo pegando um baratinho que vem com aplicador, a base de vinagre, com cheiro de lavanda (mentira que tem cheiro de vinagre, mas ok), uma vassoura com três tipos de cerda diferentes (um tipo pra pelos, um pra poeira e outro sei lá pra quê) e um pacote de paninhos de limpeza que parecem bons. Volto pro quarto, mas já fiquei muito tempo abaixado e minhas costas estão doloridas, então deixo a limpeza pra amanhã. Mas pego a Helô e saio pra dar uma volta, sem compromisso.
Saio umas 19h do quarto, chapeuzinho e protetor solar, que ainda tá super sol nesse horário, e só vou rodar. Pego umas ruas que não conheço ainda, outras que conheço, pra não me perder muito, e vou indo. As pessoas estão fazendo churrasco, se reunindo pra conversar, coisas do tipo. Aliás, amanhã é outro feriado – Canada Day. Em linhas bem simples, é quando foi assinado um tratado unindo as três províncias do Canadá, New Brunswick e Nova Scotia em um reino independente, mas ainda ligado à Coroa britânica. Tipo um marco da independência. Assim, muita gente está tratando o domingo hoje como um segundo sábado.
Desço várias ruas, pego avenidas, e vou indo. Passo por uma loja de suprimentos de arte e resisto à tentação de entrar. Passo também por uma loja de Warhammer, que provavelmente vai ter coisas de RPG também, e resisto à tentação. Quando começo a ficar um pouco cansado, resolvo voltar, de novo por outro caminho. Passo por uma estrada de terra e quase me estabaco: tinha um buraco cheio de pedriscos – ou seja, parecia estrada. A roda da frente afundou, mas conseguiu sair, e a de trás foi no embalo. Ufa, porque ia doer. Continuo meu caminho e paro pra olhar no Maps onde diabos estou: atrás do Walmart em que sempre vou. Olho melhor e vejo que a volta seria muito muito maior se seguisse a rua, então atravesso o estacionamento e paro no Walmart pra ver se ainda tem campainhas pra bicicleta, que a que comprei pra Tati no Dollarama não cabe de jeito nenhum – é pequena (e vagabunda) demais pra eu conseguir sequer fazer alterações. Acho uma enorme, vermelha, que combina com a bicicleta. Mando foto, ela gosta, e está pela metade do preço original! Melhor ainda. Saio de lá com lubrificante pra correntes (que o outro era WD-40, lembra? Não funciona bem como lubrificante pra partes móveis, mais como protetor contra ferrugem) e a campainha. Pego a Helô e aí volto pela avenida, mas resolvo dar uma voltinha um pouco maior, passando por ruas tranquilas, que são bem mais interessantes. No fim, chego no quarto umas 20h30. Helô está ótima, rodando bem, fazendo menos barulho, com menos esforço. Vou tomar banho, escrevo um pouco e vou ler mais, que estou quase na metade do penúltimo livro da série.

