Diário do front 16 – Sexta – 28/06/2019

Sextou! E hoje tem rolê com pagode no vizinho.

Pronto, agora que já surpreendi, posso continuar. Hoje resolvi ir no Goodwill – as lojas de usados daqui. Basicamente, as pessoas vão lá e doam coisas que não querem mais e essas coisas são vendidas super barato pra caridade. Quase tudo em estado ok ou melhor, nada de lixo, então, maneiro.

Tem um aqui bem perto, cinco minutos, então vou a pé conhecer.

De cara, já tem vários livros e resolvo só passar os olhos – na minha frente, virado pra cima, um livro meio antigo com projetos em madeira, da Reader’s Digest. Verifico o preço: 3 dólares. É meu, claro. Aí passo a olhar com mais cuidado, sem procurar nada pra comprar, mas não disposto a deixar passar coisas boas, e acabo encontrando um romance do Brom – uma releitura sombria da história de Peter Pan, o primeiro dele. Nem sabia que ele escrevia!

Intermissão: Gerald Brom é um artista (pintor, ilustrador, escritor) do gótico moderno, digamos assim. Eu adoro o trabalho dele, desde a primeira vez que vi. Se bateu uma curiosidade, recomendo: https://www.bromart.com . Agora já tenho pelo menos um livro dele.

Aí passo pra parte de cozinha: utensílios, vidros, eletrodomésticos, coisa assim. Encontro um par de taças bem bonitas, travessas pra forno (tipo Pyrex), tigelas, cinzeiros de vidro, peças decorativas, raladores etc etc etc. Um monte de coisas, de verdade.

 

Parece até que veio de Cunha.

Aí chego numa parte que tem bicicletas. Três, pra ser exato. Uma azul, claramente mais velha que a Helô, precisando de uns reparos (inclusive com as marchas soltas e é um tipo que nunca tinha visto), uma de marcha única, vermelha, bem abandonada, e uma mountain bike mais nova que não parecia ter defeito nenhum, por 25 dólares canadenses. As outras duas eram vinte cada.††

 

Fui analisar a mountain bike mais de perto. Ela parecia estar boa em quase tudo, só faltando uma porca que segura a roda de trás. Olhei e tinha até teia de aranha. Ou seja, deve ter ficado largada num canto um bom tempo. Tem arranhões na pintura e em praticamente todo lugar e está meio suja. Reparo que a borracha do punho direito está solta, partida ao meio, mesmo. Nisso um cara se aproxima, asiático, e comenta que é uma bicicleta muito boa, que ele pensou em comprar, que só falta a porca. Pergunto se ele vai levar, diz que não, mas que é fácil consertar. Fico me perguntando por que diabos ele resolveu se meter, mas acho que estava só sendo simpático. Decido levar essa, mesmo, e faço os consertos necessários.

Vou levando a bicicleta e os livros pro caixa e passo por ele de novo – ele sorri e pergunta se decidi levar. Digo que sim, sorrindo de volta, e ele balança a cabeça satisfeito. Pago tudo no caixa e, quase saindo, um cara me pergunta se sei onde tem outra loja dessas por perto. Digo que não e pego o celular. Ele responde que veria, mas não tem dados, eu digo que tenho e começo a procurar. Aí ele comenta da bicicleta, que também viu, mas que ela precisa de uns consertos, mas que é muito boa. Eu digo que adoro fazer esses consertos e mostro pra ele onde é a loja, no Maps, mas uma vendedora interrompe a gente e explica pra ele como chega lá. Nos despedimos e levo a bicicleta pro quarto, equilibrando os livros no outro braço.

Chegando, guardo a bicicleta no quarto, já que aqui tem muito furto e eu ainda não tenho uma tranca pra ela. Vou de novo pro KW Surplus, porque preciso de ferramentas e peças pra bicicleta nova.

Chegando lá, vou direto nas coisas que preciso, pra não demorar muito. Entre outras coisas, pego uma bomba de chão com manômetro, que pneus diferentes precisam ser inflados a pressões diferentes e isso é bem importante pra manutenção e bom funcionamento. Quando vou sair, chove a cântaros. Lembro da parte de acampamento/militar, volto e compro uma bolsa impermeável em que cabe a mochila certinho e uma jaqueta impermeável com capuz, das mais simples e baratas. Fila de novo, pago de novo, e já parou de chover quando vou sair, mas continua ameaçando. Coloco a mochila na bolsa, visto a jaqueta e vou pra Ziggys Cycles, uma loja especializada em bicicletas, pra comprar a tranca pra bicicleta nova. Prendo a Helô na estacicleta e entro.

Jaquetinha impermeável. Nem ideia de porque olhei pro lado.

 

Bolsa impermeável já com a mochila dentro.

A loja parece um shopping, já odeio só de entrar. Tudo é super arrumado e chique e polido e obviamente caro. Vou conversar com o cara e ele é super difícil, não parece fazer a menor questão. Digo que cheguei agora, só tenho um kit básico de ferramentas pra estrada e que precisava de um mais genérico, e ele começa a montar o que ele considera básico. Nisso vai um limpador de corrente que custa cinquenta contos, “mas que economiza muito tempo!”, diferentes lubrificantes (dezesseis contos cada garrafinha, são três), e ele já sugere comprar ferramentas profissionais por mais uns 150. Já vi que não vou comprar é nada aqui. Acabo perguntando da tranca e compro só a tranca, também bem cara, mas que tem um cabo pra você passar pela roda da frente além de trancar o quadro, porque ela (a roda) tem uma chavinha que facilita tirar (e facilita, então, o furto). O cara fica meio decepcionado que não levei mais nada, mas não mais do que eu com o atendimento de bosta e os preços ridículos. Pego a Helô e vou pra Recycle Cycles ver se acho a porca, que o cara da Ziggys disse que precisava ver qual era pra saber o tamanho.

Chegando na Recycle Cycles, estava fechada. Legal. Acho que hoje era feriado, então, não devem ter aberto. Paciência. Volto pro quarto, já famélico, guardo tudo bem rápido e vou no Tim Hortons que é o mais rápido. Faço as contas rapidinho e estou rodando, contando tempo de Goodwill, há cinco horas! Aí entendi o cansaço todo. E não para de chover. E os pneus da Helô estão esvaziando muito rápido. Acho que são muito velhos, mesmo.

Voltando do “almoço”, testo a bomba de chão e não funciona essa desgraça! Vou ter que ir trocar, não tem jeito. Mas não hoje.

Vou na Dollarama, que é tipo um 1,99, ver o que tem pra bicicletas. Encontro duas bolsinhas legais de prender, pra levar ferramentas, uma bomba pequena (azul, que é pra Tata), e um conjunto de ferramentas bem vagabundinhas, mas que vão funcionar um bom tempo comigo. Custam quatro dólares. 

Saio do Dollarama e ainda vou no Walmart, porque não tinha tudo que eu queria. Procuro mais coisas pra bicicleta, encontro algumas, inclusive outro tipo de bomba de chão, mas aí fico na dúvida: eu decidi trocar as câmaras de ar da Helô, que estão vazando as duas, mas qual o tamanho certo? Li que pra bicicletas mais antigas é uma confusão danada. Deixo de lado e vou procurar vinagre.

A explicação é que o quarto está infestado de mosquinhas de fruta, aquelas pequenas e chatas demais. Ontem vi uma armadilha que a família faz e fiquei inspirado, porque tá foda. Tem mosquinha até no banheiro. Eles colocam uma fruta passando num pouquinho de vinagre dentro de um pote, cobrem o pote com filme plástico e fazem uns furinhos. As moscas entram, mas não conseguem sair. Aí dei uma pesquisada e existe uma mais simples ainda: vinagre de maçã com duas gotas de detergente, pra quebrar a tensão superficial. As moscas pousam e não conseguem mais sair.

O problema é que o Walmart só vende quatro litros de vinagre! É vinagre pra cacete! Deixo pra depois, mesmo, porque não quero carregar isso tudo de volta, e vou pro quarto mais uma vez.

A essa altura do campeonato, não sei há quanto tempo estou rodando, mas sei que minhas costas estão doendo loucamente. Resolvo fazer uma coisa que não gosto muito por diversos motivos: encher a banheira bem quente pra ver se alivia. Fico uns vinte minutos de molho, lendo (sem velas, sem música, sem vinho, sem estereótipo bobo) e melhora muito! Surpreso, saio da banheira, vou comer e logo vou deitar pra dormir.