Diário do front 14 – Quarta – 26/06/2019

P.S. (pre scriptum): Eu SEI que estou atrasado, desculpe quem me lê. Tem me faltado o ânimo, mas amanhã pretendo ir Em Busca do Tempo Perdido.

O colchão é bem mole do Airbnb e minhas costas estão reclamando bastante. Imagino que andar pra lá e pra cá e todos os rolês de Helô também não contribuam tanto – ou ajudam a não ficar tão ruim, sei lá. Por outro lado, um silêncio maravilhoso, estou dormindo melhor por isso.

Fui lá conhecer o fulano hoje. Ao mesmo tempo, estava também falando com a Tati porque preciso urgentemente de óculos novos, que os meus têm mais de dez anos. Sim, literalmente.

Pego os dois ônibus pra chegar lá, seguindo o aplicativo da GRT, que é a empresa que faz o transporte público aqui na Tricity Area (Cambridge, Kitchener, Waterloo). Ele é meio ruim de usar, mas pelo menos deve estar atualizado. Maior problema dele é que, se você apaga a tela ou muda de aplicativo, ele fecha o mapa e a busca. Chego vinte minutos antes e fico esperando – tentando resolver as questões dos óculos, se vale mais a pena fazer aqui ou no Brasil, quanto custaria etc. Kelly chega, apenas cinco minutos atrasada, e tocamos a campainha.

Descemos as escadas (eu disse que é um apartamento de porão?) e conheço o proprietário – que é exatamente o irmão da moça que me mostrou o apartamento antes e que está voltando pro Paquistão! Eu nem tinha ideia que ele próprio era o dono. Conversamos uns cinco minutos, falamos da vida, ele diz que também chegou no Canadá estudante, que passou pelas mesmas dificuldades e entendia (UHUL!) e só queria mesmo me conhecer. Ele pergunta se tudo bem eu mudar no dia 6, digo que pra mim está ótimo (mentira, queria pegar antes, mas não vou levantar essa bola agora). Desejo boa viagem de volta pro Paquistão, ele me deseja boa sorte, ele vira pra Kelly e diz que está tudo certo, vamos em frente. ÓTIMO! Finalmente a porra do apartamento está resolvida! Que peso que saiu!

Aparentemente, os próximos passos vão ser uma carta/contrato ou algo assim, mas Kelly disse que o Noah, da imobiliária, vai me mandar um email. Detalhe que Noah é Noé em inglês.

Isso é um cardo ou thistle, uma planta que parece ser comum por aqui E que é o símbolo da Escócia. A região também teve bastante imigração escocesa e irlandesa.

Volto pro ponto pra pegar ônibus de volta e Tati me manda mensagem que precisa saber minha distância nasopupilar ou algo assim. Pela palavra, distância do nariz até a pupila. Que medida MUITO nada a ver! Como saber exatamente qual o meio do nariz? Com micrômetro? Onde marca? Aqui, já descobri, mede-se a distância entre o centro das duas pupilas – muito mais lógico e fácil. Precisando disso pra fazer os óculos, baixo um aplicativo que mede essa distância e procuro uma sombra. Só imagino os motoristas passando na avenida me vendo tentando tirar uma selfie, com um cartão de crédito alinhado embaixo do nariz, paralelo ao celular, que precisa ficar vertical, tendo que encaixar o nariz e os olhos numa moldura pra foto e, com tudo certo, tendo que olhar pra longe pra bater a foto. Deve ter sido divertido pra eles, mas pra mim foi bem frustrante. Como estava de ótimo humor por causa do apartamento, ri mais do que xinguei. Pra fins de completude da informação, a distância entre minhas pupilas é de 69.5mm.

Tati me manda mensagem falando de uma tradução que surgiu, ou melhor, uma versão. A pessoa precisa de um artigo de trinta e poucas páginas traduzido de português pra inglês (“vertido”, no caso) e perguntou quanto ficaria. Fico de ver quando voltar, mas já adianto pra não ficar confuso: dois mil. Sabendo que é muito, vamos pela metade. Mil contos. Ficamos aguardando resposta.

Pego o ônibus de volta e uma boa surpresa: ele vai passar (na verdade, parar, mas só entendi isso depois) na Conestoga College, onde vou estudar! Super na empolgação, vou olhando tudo. Parece a USP, bastante verde (aliás, aqui tem bastante árvore, grama, arbustos), tranquila, mas sem as pessoas de nariz em pé que se acham as melhores do mundo porque estão na USP. Sério, preguiça da USP.

Anedota: eu adorava ver a cara das pessoas quando perguntavam porque eu estava na Unifesp e não na USP, que eu passaria no vestibular, e eu dizia que tinha escolhido a Unifesp porque não suportava o miasma da USP. Se você é uspiano e está lendo isso, põe a mão na consciência e diz se não é verdade.

Conestoga College, do ponto de ônibus.

Chegando no quarto, vou procurar outro Airbnb pros dias a mais que vamos precisar e encontro um que parece legal, em cima de um restaurante que parece meio chique. Mando mensagem pro dono pra perguntar se aceitam gatos. Vou precisar estender o aluguel do carro mais um dia, também.

Saio pra almoçar e vou comer no chinês de novo. É gostoso, é barato, enche a barriguinha e tem várias opções. No caminho, paro no mercadinho indiano e compro samosas. Crente que elas são pequenas, porque custam 0.39 cada, peço seis. Logo ele vem com um saco grande, já ficando oleoso. Pego, pago e saio. O cheiro é bom e resolvo provar uma. Primeiro que é grande, mais ou menos do tamanho de uma esfirra. É MUITO esquisito! É uma massa de batata doce apimentada com condimentos que nem sei dizer o que são, frita em óleo. Dá pra comer, mas bem ruim. Como a comida TODA no chinês e volto pro quarto. Estava com mais fome do que imaginava.

Samosa no saco de papel

Quando volto, pergunto pra Jolyn, que está do lado de fora, se chegou alguma coisa do Airbnb. Nada ainda. Conversamos um pouco e ela me convida pra ir com ela e as crianças na loja de cerveja. Ela vai levar garrafas e latas e comprar cerveja, porque sexta e segunda são feriados e eles vão acampar. Aceito, porque também quero ver como funciona isso. Basicamente, você devolve latas de alumínio e garrafas de cerveja e recebe uns centavos por isso. Não é uma fortuna, mas eu acho legal porque, além do dinheirinho, você assegura que vai ser reciclado. Bem maneiro. Fá-lo-emos.

Da loja de cerveja, voltamos – ela pra casa, eu pro quarto – e ela me convida pra ir até o Walmart com eles de novo. Lá fui eu, já sentindo dor nos quadris (cacete, tou velho demais!). No Walmart, Evellyn se “faz perder” – ela fica andando pra lá e pra cá, porque quer coisas e tals. Jolyn compra um capacete de bicicleta pro Levi – um capacete azul de tubarão, fofinho demais – e eu aproveito uma promoção e compro potes com tampa da Ziploc – 44 potes por 16 dólares, de tamanhos variados. Os potes são bem fraquinhos, quase descartáveis, mas, como tomamos um cuidado bizarro com tudo, vão durar bem uns dois anos.

Quando volto, mensagem do dono do próximo Airbnb – não aluga pra quem “é novo” no Airbnb e não tem resenhas. Pô, eu tenho uma resenha, em português, mas existe. Respondo que tudo bem, entendo, e ele diz que é o dono do restaurante embaixo e já teve várias reclamações. Paciência, procuro outro, encontro e já mando mensagem.

Nesse meio tempo, cai a internet no quarto. Mando mensagem pra Jolyn e um tempo depois ela responde que eles também estão sem, que o Tyler ligou pra operadora e que eles já estavam verificando, que é na área toda. Previsão máxima: 23h de amanhã. E o cara do Airbnb responde: as pessoas que estão lá também precisam estender a estadia e ele não vai mais estar disponível. Soou como truque, mas problema dele. Tati procura outro Airbnb, porque eu estou incapacitado, e já pede pra marcar.

Vou comer enquanto isso e o cara do Airbnb responde e já está marcado, aceitou, ótimo. Nesse meio tempo, com sono e cansado, fico jogando no computador pra não dormir logo.

Por sorte, logo a internet volta. Aproveito pra trocar meu cartão cadastrado na Steam pelo do Scotiabank e o Scotiabank me avisa disso. Aliás, eles avisam tudo. Qualquer movimentação na conta vem email, inclusive pra quando você está se aproximando do limite de crédito (sei porque me aproximei do limite de crédito).

Intermissão: pra quem não sabe, Steam é uma plataforma pra jogos de computador. Eles vendem a cópia virtual e armazenam pra você, que baixa o que quer jogar, apaga quando cansa, e eles vão salvando o jogo na nuvem.

Cansado, paro o jogo e vou comer, mas as samosas, que já não eram super boas, são claramente tão oleosas que fico com nojinho de comer. Sabe coxinha que você compra pro almoço, não come e à noite ela já está com cara de ameixa passa? Acabo comendo pão e leite, mesmo, e vou deitar, deixando as samosas pra olhar amanhã.

P.S. A mordida da aranha ficou bem grande e formou uma ferida com casquinha, que ainda me acompanha. Só pra constar.