Espera-se que os homens sejam “tipos silenciosos e fortes” — e isso está acabando com eles, diz Henry Rollins

Tradução de: https://www.latimes.com/books/la-ca-jc-review-jared-yates-sexton-man-they-wanted-20190620-story.html?fbclid=IwAR3qKzQ-7rgMWpLo677EmcozqwzVLdeLackbUdC15wJJwEB5c7RvzeriYdM
* Por favor, clique no link acima para gerar tráfego para o site original. Ainda que eu tenha feito a tradução porque quis e não esteja recebendo nada por isso, o escritor e o jornal que publicou precisam de cliques.

Em “The Man They Wanted Me To Be” (“O homem que eles queriam que eu fosse”, sem tradução no Brasil), Jared Yates Sexton explora a cultura da masculinidade tóxica nos Estados Unidos.

Até hoje a masculinidade tóxica permeia escritórios, fábricas, rodovias, bares, vestiários e basicamente todos os lugares em que os homens estadunidenses determinaram para si mesmos que seriam fortes, silenciosos e aparentemente insensíveis às brutalidades diárias que inventaram e às quais se acostumaram.

Este mito do direito aparentemente inalienável à dominação e controle perpetrado pelos homens, especialmente pelos homens brancos, tem uma miríade de lados negativos catastróficos.

E Sexton encontra suas raízes em nossos pais. “É claro, questões com o pai não são novidade”, ele escreve, notando que muitas dificuldades “geralmente giram em torno do que se espera de um homem.”

Meu próprio pai se gabava sobre trabalhar a noite toda no escritório, pegando o ônibus de volta para casa ao amanhecer. Ele tomava um banho, fazia a barba, colocava uma camisa engomada fresca e voltava direto para o escritório. Ele achava que proteínas eram um substituto útil para o sono. Aos 13 anos de idade eu era, e ainda sou, um workaholic. Desde então, não é pelo dinheiro e está além da autossuficiência. É o que eu acho que um “homem de verdade” tem que fazer. Eu sou incapaz de me livrar disso, mas pelo menos sei de onde vem.

Estas exigências — e as posturas a que muitos homens estadunidenses se contorcem — não vêm sem consequências. Além da raiva mal direcionada, sentimentos de inadequação e desesperança, os homens que abafam suas emoções — como uma posição de tensão usada para induzir à confissão — às vezes se quebram. Homens brancos estadunidenses — a maioria de meia idade — representaram 70% dos suicídios em 2017.

As origens da masculinidade tóxica são bem mais antigas, de acordo com Sexton. Ela começa quase imediatamente quando homens europeus colocam os pés no continente norte-americano:

“Na verdade, homens brancos estadunidenses desfrutaram de privilégios desde antes de haver Estados Unidos,” escreve Sexton, “e aqueles privilégios resultaram na derrocada dos nativos americanos, na escravização de africanos, no maltrato de minorias, na subserviência controlada das mulheres, e numa ordem hegemônica de poder que ainda existe no século vinte-e-um. Isso definiu a luta dos Estados Unidos desde sua concepção.”

Mais tarde, por meio da mídia de massa e da “ansiedade incentivada pela propaganda”, Sexton escreve que “as inseguranças e o medo de falhar [dos homens] foram multiplicadas… a masculinidade estadunidense, ou melhor, a mentira da masculinidade estadunidense, tornou-se outro produto no mesmo espírito do … novo carro brilhando na entrada da garagem do lar suburbano.”

Entendendo a mentira

Sexton não é um sociólogo; não formalmente, ao menos. Ele é um autor e um professor adjunto de Escrita Criativa na Georgia Southern University, e viajou pelos Estados Unidos como jornalista no rastro da campanha de 2016. Ele também é um sobrevivente da masculinidade tóxica.

Mas quase não foi.

Após quase cometer suicídio, Sexton fez uma escolha. “Depois daquele ‘quase’, decidi tentar, imperfeito como sou, entender a mentira e as pessoas que ela feriu, para tentar encontrar outra maneira de viver.”

Sexton aprendeu, como um garoto sensível, criado por um pai volátil e uma mãe abusada, que era um país de homens e que era melhor para ele se esconder e desempenhar um papel para conseguir sobreviver. O pai, uma vítima e transmissor da masculinidade tóxica, talvez tenha se condenado a uma vida de negação quando saiu da escola para se juntar aos Fuzileiros Navais durante a Guerra do Vietnã, não apenas para satisfazer as expectativas de seu pai veterano, mas para se tornar o homem que achava que tinha que ser. Ele chegou ao treinamento básico e ao uniforme que no fim se tornaria uma fantasia de carnaval quando instruiu sua futura esposa a fazer pressão para que ele conseguisse uma dispensa por sofrimento psicológico. Ela conseguiu. O pai de Sexton nunca foi para o Vietnã e, pelo resto da vida, sentiu-se um covarde. Ele descontou na família.

É uma história muito familiar para mim.

Eu nasci em 1961. As interações com meu pai eram, em sua maioria, visitas de fim de semana durante o final dos anos 1970. Nesses períodos de horas tensas que mais pareciam dias para mim, eu recitava o Juramento à Bandeira, aprendia a lutar, e era ensinado sobre os perigos aos Estados Unidos que não-brancos, homossexuais, hippies, comunistas e protestadores contra a Guerra do Vietnã representavam. Muitas das coisas que meu pai me disse eu nunca repeti em voz alta e tenho certeza que nunca vou.

Sexton nasceu em 1981, e os Estados Unidos em que ele cresceu davam aos homens duas escolhas. Você podia ser “homem”, o que exigia um estado de agressão perpétua e uma disposição de brigar a qualquer momento, vendo mulheres como objetos — que existiam exclusivamente para submissamente atender aos desejos de seus provedores “mais fortes” — uma habilidade de resistir à dor e ao sofrimento causados pela carga de trabalho de um homem de verdade, mas, mais importante ainda, de aceitar pouca ou nenhuma emoção que não fosse raiva. Entretanto, havia ainda a outra opção: você podia ser sensível e ter respostas emocionais — mas isso criava um risco de dano e exclusão por parte de outros homens que lhe chamavam de “veado” ou, pior ainda, de “mulherzinha”. 

Que eu me lembre, a vez que meu pai ficou com mais raiva de mim foi quando chorei na frente dele. Eu nunca o desafiei. Ao invés disso, completei dezoito anos e entrei para o mundo do trabalho em tempo integral recebendo salário mínimo.

Com detalhes desoladores, Sexton descreve como agiu por anos e, assim, comprou a mentira para si. Ele bebia, brigava e seguia os passos de milhões de homens estadunidense brancos antes dele. Ele teve uma experiência, enquanto estudava na universidade de Illinois, que se provou instrutiva. Sexton foi parado pela polícia por estar dirigindo bêbado. Ao invés de aplicar o teste do bafômetro, o policial se sentou com ele na viatura e perguntou o que ele estava fazendo com sua vida. Depois de uma conversa breve, o oficial perguntou a Sexton se ele achava que estava sóbrio o suficiente para dirigir para casa. Sexton afirmou que sim e foi liberado.

“Entendi o quão afortunado fui naquela noite,” escreve. “O policial que me parou ficou com pena de mim e me deu uma chance que foi baseada em misericórdia e privilégio indescritível, um privilégio que há muito tempo é uma cortesia entre a lei e os homens brancos.”

Sexton lembra repetidas vezes ao leitor de que não está curado, que não há cura para a masculinidade tóxica, e que ele está em um estado perpétuo de auto-observação e vigilância contra seus efeitos devastadores e duradouros.

“Como um viciado que consegue controlar seu vício,” escreve, “aprendi a ver a masculinidade como um problema crônico do qual eu nunca poderia me curar totalmente. Todos os dias era uma luta nova, já que não há como conquistá-lo. Eu sabia, de experiência prévia, que a coisa mais fácil no mundo seria me afundar de novo naqueles comportamentos destrutivos e perigosos.”

Um espelho de nós mesmos

Sexton não é a primeira pessoa a apontar o fato e os efeitos da masculinidade tóxica. O livro tem extensas notas de rodapé, mas é, na realidade, seu confronto com as forças que o criaram — e as armadilhas em que ele entrou por vontade própria — que dão a sua narrativa um pulso e humanidade que os dados de campo apenas sugerem.

Ao examinar cuidadosa e sobriamente sua própria história, Sexton desconstrói a vida estadunidense e dá muitos exemplos de quão pervasiva a masculinidade tóxica é em nossa cultura, como um aerosol tão microparticulado que escapa da nossa detecção e a menção dele é facilmente descartada como “politicamente correta” ou “frescura”. 

Na que talvez seja a parte mais comovente e educativa do livro, Sexton, após anos de uma relação turbulenta com seu pai, finalmente se conecta a ele. Perto do fim da vida, o pai de Sexton parece ter abandonado muitos de seus preconceitos em uma reversão quase total, chegando a dizer ao filho que o amava. Sobre passar tempo com seu pai enquanto sua vida se esvaía numa cama de hospital, Sexton descreve as enfermeiras: “Para todo lugar que eu olhava havia mulheres fazendo o trabalho pesado para homens que precisavam desesperadamente delas, sem excessão.”

Minha vida se desenrolou de outra forma. Quando eu ouço homens falando sobre sua proximidade com seus pais, como Sexton, por um lado, não tenho ideia do que estão falando, mas, por outro, vejo que o meu revelou tudo de si mesmo para mim. Meu pai queria que eu fosse como ele. Ele não conseguia enxergar nenhum outro jeito. Talvez o aspecto mais difícil de lidar com meu pai, além do medo de inspirar sua raiva, era saber que muito do que ele me dizia estava simplesmente errado. Ser tão jovem e ter que suportar um bombardeio sem descanso de sentimentos verdadeiramente tóxicos de forma regular era entorpecedor e acachapante; era um lugar em que nada crescia, nem mesmo o ressentimento. 

Teria sido muito fácil me refugiar em uma vida de intolerância e covardia sob sua influência. Teríamos nos conectado bem. Eu entendo o apelo, mas luto constantemente contra ele. O que meu pai pensa de mim, ou mesmo se está vivo, não tenho a menor ideia.

Neste momento, nos encontramos em um ambiente que está mudando rapida e irreversivelmente. A fúria dos homens brancos — percebendo claramente que o que tem sido deles por direito de nascimento de gênero está aparentemente sendo tirado deles — pode ser vista em tudo, da faixa estreita de popularidade do presidente às leis ultrarrestritivas sobre os direitos de saúde da reprodução das mulheres sendo aprovadas em muitos estados aos obstáculos que impedem maior aceitação e acolhimento da comunidade LGBTQ. 

Falando a partir de sua própria experiência de vida, Sexton investiga a masculinidade tóxica, quase exclusivamente, da variante do homem branco. “The Man They Wanted Me To Be” é tanto uma história quanto uma análise. Não é um livro didático e não deve ser criticado pelo que lhe falta, mas louvado pela compreensão e empatia que pode inspirar.

Nas páginas de “The Man They Wanted Me To Be”, alguns leitores podem não apenas ser lembrados fortemente de seus pais, tios e incontáveis outros, mas, mais importante, de si mesmos.