Comecei o dia indo na imobiliária. Super nervoso, depois da conversa de ontem (aliás, nem respondi mais à louca), levei uma papelada imensa e expliquei várias coisas pro cara. Disse que, se precisassem de mais coisas, era só mandar mensagem. Acho que ele ficou meio assustado com o tanto que levei. Aí perguntei qual era a chance de pegar o apartamento, e ele disse que não tem como dizer, mas que acha que são boas, porque tenho muitos documentos, fui o primeiro a ver e ninguém demonstrou interesse nele ainda. Tomara, muito!
Saindo de lá, fui caminhando pra uma loja chamada KW Surplus. “Surplus” é tipo “excesso”, “sobra”, e normalmente designa lojas que vendem o que sobrou de outras lojas, de coleções e tals, a preços super reduzidos. Fui nessa loja porque descobri no site deles que eles provavelmente teriam o suporte pra GPS pra Helô. Andei uma meia hora, no sol e no calor. Pra melhorar, parecia que estava frio quando saí, então fui de calça. Me arrependi muito!
Ela é do lado de uma loja de memorabilia e colecionismo, e é um galpão cheio de estantes e prateleiras. Entrei e fui olhando estante por estante, pra conhecer a loja também. Tem roupa, coisa de caça e pesca, de acampamento, coisas militares, coisas de esportes, de papelaria, de cozinha, pra carros, ferramentas, eletrônicos, pra celulares etc etc etc. Sério, coisa à beça. Achei uma chave que precisava pra Helô (na verdade, uma chave que daria pro gasto) e o bendito suporte pra celular! Bem legal, mas bem grande! Não esperava. A rádio só tocava rock clássico. Aliás, bastante gente ouve rock aqui. Ponto pro Canadá! Nem um Michel Teló da vida, ainda, felizmente. Em certo momento, começou a tocar Jethro Tull. S2 gigante, fiquei cantando junto e foda-se quem estiver olhando. Pena que não estava usando a camiseta do Jethro! Mas estava com a do Rammstein, pelo menos. Comprei, paguei, na dúvida se levava mais coisa ou não, porque era tudo muito barato mesmo, mas lembrei que ainda estou no quarto e não no apartamento e deixei o resto.

Saio e vou andando até o ponto, meio na pressa, porque o Maps dizia que o ônibus já estava vindo e tinha que atravessar a avenida e precisa fazer isso na esquina com semáforo. No ponto, um cara meio baixinho, meio gordinho, de cavanhaque comprido e desgrenhado, super ruivo, de boina, tatuado, style, me dá uma olhada e diz que gosta da minha camiseta. Sorrio, agradeço, e volto a consultar o Maps. Ele comenta que o ônibus tá super atrasado, mesmo. Resumindo, não deu pra fugir da conversa, mas foi legal, porque o cara é super comunicativo e me deu várias dicas, inclusive de procurar a universidade pra ver se eles têm algum programa ou sei lá pra ajudar a encontrar apartamento. Conversamos uma boa parte do caminho e ele até se ofereceu pra ir comigo até onde eu estivesse indo! Gente boa. Ou ficou interessado. Bom, ou os dois. Mas achei mais que é gente boa, só. Trocamos telefone e ele disse pra mandar mensagem quando estiver tranquilo. Maneiro.
Hoje trocaram oficialmente os horários e rotas dos ônibus, então tá tudo meio confuso, muitos ônibus atrasados, muita gente irritada. Quando cheguei no próximo ponto, dizia que faltavam quinze minutos. Dei uma andadinha, resolvi conferir, faltavam vinte e cinco. Bom, dá tempo de comer alguma coisa. Achei um Subway (sim, a mesma rede que tem no Brasil), olhei as opções, que tem muita coisa diferente, peguei o do dia: frango assado. Estava gostoso, bem parecido com o do Brasil, mesmo. Tomei um chá “feito com folhas de verdade”, mas com gosto de falso, e voltei pro ponto, meio preocupado que talvez tivesse demorado muito. O ônibus tinha atrasado mais ainda e eu fiquei mais uns cinco minutos esperando além do previsto. Dá pra entender o motivo de tanta gente irritada.
Desci perto do quarto e fui no mercado de novo – precisava de sabão e amaciante. Hoje não dava mais pra enrolar a lavação de roupa suja. Acabei comprando umas cápsulas de sabão super concentrado, que me pareceram mais práticas de carregar na mochila, e uma caixinha com uns lencinhos com amaciante.
Os lencinhos são um troço bizarro que ainda não entendi bem. Digo, entendi como usa, não como funcionam, a ciência por trás. Mas também não pesquisei, porque acho mais legal deduzir. Enfim, comprei tudo e voltei pro quarto. Peguei as roupas, coloquei na Helô e fui pra lavanderia.
Hoje estava vazia a lavanderia, felizmente! Tinha uma funcionária lavando toneladas de roupa e um cliente, como eu. Fiquei olhando, li as instruções, que são um pouco vagas, e fui tentar. Você coloca o sabão em cápsulas por baixo, e aí vai colocando as roupas por cima, soltas. Fecha a máquina e escolhe a temperatura. Coloca as moedas e aperta o botão e ela começa, dando o tempo que falta. 28 minutos, no caso. Quando abro a bolsa, percebo que um casaco que eu trouxe nela, super pesado, continua nela. Idiota esqueceu de tirar e tava carregando o peso à toa. Sento numa das cadeiras e fico lendo, com celular programado pra despertar em 28 minutos. Quando ele apita, vou lá ver – razoavelmente limpas, devia ter colocado mais sabão. Na próxima, porque não quero ficar mais 28 minutos nem gastar mais dinheiro. Aí tira da máquina de lavar e coloca na secadora. Joga o lencinho por cima (coloquei dois, pra “maciez extra”, como dizia na embalagem), programa a temperatura (coloquei média, pra não ferrar muito as roupas) e coloca as moedas. No caso, essa máquina só aceita as moedas de 25 centavos – cada moeda são quatro minutos de funcionamento da secadora. Comecei com três, pra doze minutos, e fui sentar. Aí reparo que alguém largou um romance lá. Leio a resenha atrás, parece ok. Começo a ler, leio a primeira página, leio a segunda e largo – cheio de clichês, vou odiar esse livro. Isso me lembra que preciso escrever mais, além desse diário, porque tenho certeza que estaria publicando. Volto pro meu livro e continuo lendo.
A máquina apita, vou lá ver – úmidas. Mais dinheiro, mais oito minutos, porque estou sem mais moedas. Enquanto isso, vou na máquina de trocar moedas – sim, literalmente. Coloco duas de dois dólares e recebo dezesseis de 25 centavos. Quando a máquina termina, ainda tá úmida a droga da roupa! Coloco mais tempo, guardo o resto das moedas e sento. Quando apita, tem um par de meias úmido, uma bermuda meio úmida e uma camiseta quase úmida. Problema de vocês, vão terminar de secar no quarto, que cansei de esperar e gastar dinheiro. Dobro tudo, coloco de volta na bolsa e pedalo de volta, pensando que preciso mesmo dar um trato na Helô.
Intermissão: as moedas aqui são bem interessantes. A moeda de um dólar é chamada de “loonie”, que é um tipo de pato comum aqui (o “loon”) e que está representado na moeda. Ela é dourada e tem as bordas meio retas. A moeda de dois dólares parece a moeda de um real: bordas prateadas com um núcleo dourado, e é chamada de “toonie” – uma mistura de “loonie” com a palavra “two”. No verso ela tem um urso polar. Detalhe que juntas elas são “loonie toonie” – pra quem não lembra, Looney Tunes era uma série de desenhos animados. A moeda de cinco centavos tem um castor no verso, e é bem maior que a de dez centavos, o que sempre estranho MUITO, e tem o Bluenose, um barco importante pro Canadá por motivos que agora não vêm ao caso. A moeda de 25 centavos tem um alce no verso. E a moeda de cinquenta ainda não vi! Fui pesquisar e a circulação dela é meio rara. Agora quero uma. No verso ela tem o brasão de armas do Canadá.

Chego e guardo as roupas, esticando as que ainda precisavam secar. Aí vou pra fora. Primeiro coloco o suporte pra celular, ajeito, procuro melhor posição. Não tem posição muito boa, mas acho uma mais ou menos e me decido a testar depois. Detalhe que não é fixo – se deixar nela, certamente vão roubar. Aí começo a afrouxar o parafuso do selim, pra subir. Subo um pouco, fica legal, começo a apertar e aí ouço um estalo e a porca afrouxa. Puta merda voadora, aposto que espanou a rosca toda. Tento apertar de novo, mesma coisa. Selim ficou solto. Parafuso muito velho, mas não esperava isso. Nesse meio tempo, chega a família. Converso um pouco com eles. As crianças estavam dormindo, os adultos estão quietos, estranhos. Não sei se é comigo, se é outra coisa, não sei, mesmo. Logo deixo eles em paz e vou tentar ajeitar o que dá. Tyler vem e pergunta se eu tenho ferramentas, digo que tenho mais ou menos, mas que tou dando um jeito. Aí aproveito e pergunto onde compra o parafuso que arrebentou e ele diz que vai dar uma olhada no porão, que ele deve ter. Enquanto isso, as crianças querem brincar mais e lá vou eu, enquanto Jolyn guarda umas coisas. Ficamos brincando um pouco, Levi querendo que eu empurre ele na bicicleta que ele não consegue pedalar porque é da irmã, Evellyn querendo que eu empurre no balanço. Tyler volta com o parafuso E com as chaves, sobe o selim pra mim e aperta os parafusos. Conversamos, digo que quero dar uma restaurada na Helô quando tiver tempo e as ferramentas. Ele conta que não foi trabalhar porque estava com muita dor nas costas, aí foram passear num parque aqui na cidade. Ofereço creme de arnica, mas ele diz que tem alguma coisa em casa. Agradeço de novo a ajuda e o parafuso e de novo fico com vergonha do meu prejulgamento. Vacilo, mesmo. O cara é super gente boa. Eles entram e eu venho escrever, que estava atrasado vários dias.
Depois de terminar tudo que estava atrasado, inclusive de refazer o que o WordPress cortou, fui comer no Tim Hortons, porque já eram 21h20 e eu não comia há um bom tempo. Resolvi variar: pedi dois croissants de queijo e um smoothie (tipo uma vitamina) de frutas silvestres. Croissants gostosos, não com muito recheio, mas gostosos, mas o smoothie parecia raspadinha de praia – gelo batido com essência super artificial. Primeira e última vez pro smoothie.
Airbnb me respondeu e disseram que eu não podia ter duas contas, e iam fechar uma delas – a que eu não queria ter, mesmo, felizmente. Respondi agradecendo e dizendo que tinha aberto por engano e depois não conseguia mais fechar. Airbnb, pra deixar bem claro: sua interface é uma bosta gigantesca. A pessoa ainda me disse que eu precisaria mandar mensagem pela outra conta pra perguntar sobre os cartões e tals. Eu já mandei, cacete! Cadê minha resposta? No fim, resolvi mandar outra mensagem, agora pelo Facebook deles. Se não tiver resposta até amanhã, vou precisar telefonar – e eu ODEIO falar no telefone.
Agora preciso esperar uma resposta da imobiliária, mas vou continuar procurando apartamento, porque não sei se vou ser aceito. Se não for, fudeu de leve. Torçamos, mandinguemos, inshallah.