Diário do front 11 – Domingo – 23/06/2019

Acordo cedo porque vou visitar outro apartamento hoje, da mesma imobiliária que já tinha visitado na quinta. Quando abro a porta do quarto pra pegar as plantas que tinha deixado lá ontem, um esquilo e um coelho saem correndo. Uma das plantas está virada. Resisto ao impulso de cantar pra ver se eles voltam pra perto (funciona com as princesas da Disney, por que não tentar?), pego as plantas, coloco a terra de volta, e coloco de volta no lugar.

Vou pro ponto de ônibus e meu talento mais proeminente logo se manifesta – pararraio *1 de maluco. Um cara esquisito, falando sem parar, vem e me pergunta se o ônibus sete já passou. Digo que não que eu tenha visto, mas que tinha acabado de chegar. Ele pergunta se vou pegar o sete, digo que vou pegar o oito. Aí ele comenta do clima. Ele fala sem parar, eu vou só concordando com a maioria das coisas (porque concordo, mesmo, na real). Aí ele começa a recolher o lixo espalhado pelo ponto – copos descartáveis, coisas assim. Para do meu lado e diz que a gente tem que respeitar, que ele fica com a mão um pouco suja, mas que a cidade seria muito mais limpa se as pessoas respeitassem o espaço comum. Já começo a pensar que ele não é tão maluco assim – ou eu sou quase tanto quanto ele. Aí ele me vê consultando o tempo do ônibus no celular e pede pra eu ver pra ele se o sete tá vindo que ele não sabe usar essas coisas. Consulto e digo que faltam 35 minutos pra ele vir. Ele diz que não dá pra esperar tudo isso, e já me chama de “irmão”. Aí sugiro pegar o sete mesmo, se ele vai pro centro. Ele pede pra ver no mapa, pergunto por qual rua vai (Weber) e diz que vai pegar esse mesmo. Aí me dá a dica de que os ônibus estão gratuitos. Agradeço e digo que é por causa do lançamento do Bondão. Ele concorda. O ônibus vem. Dou passagem pra ele, que agradece, passo por ele no corredor, ele sugere que eu sente antes que ande, eu sento, e o ônibus sai. Ele desce no próximo ponto e provavelmente foi iluminar outro canto.

*1 – Não me importa nem um tico o que os gramáticos e defecadores de regras vão falar sobre isso, se está certo ou errado. Só pra constar.

Um comentário sobre nomes: Kitchener era chamada de Berlin, mas mudaram o nome da cidade em 1916, por causa da Primeira Grande Guerra. Muita descendência alemã, como já comentei, com nomes tipo Nuernberger (“vindo de Nuremberg”) e vários outros. Acontece que tudo tem pronúncia como se diz em inglês. A tal da rua Weber, que pra mim deveria soar mais ou menos como “vêber”, com o “r” alemão, aqui soa como “uíber”, com “r” retroflexo (“de Sorocaba”) do inglês. Causou bastante confusão na minha cabeça, já.

Chego pra visitar o apartamento e a mesma moça de quinta está lá. Logo que vamos entrar, chega um casal – marcou junto com eles. Ok, vai. Esse apartamento é como entendemos apartamento no Brasil, mesmo. Um prédio grande com várias unidades e áreas comuns. Ela abre a porta e o apartamento ainda está ocupado! Estão claramente de mudança, mas está ocupado. E sujo, por sinal. Um tapete de oração lindo, azul, no meio do sala, está super limpo e só percebo no último instante, quase pisando nele! O apartamento é legal, bem distribuído, com janelas grandes e uma cozinha legal. Mas é mais caro que o outro que visitei, fica no centro e não é tão legal nem tão tranquilo.

Na saída, converso com a Kelly (a moça da imobiliária) e digo que fiquei muito interessado no outro e que amanhã vou lá levar os papéis. Ela fica bem contente, diz que vai dar certo (inshallah!). Pergunto se muita gente já viu, se muita gente demonstrou interesse, e ela me diz que até aquele momento, não. Ninguém tinha visitado nem perguntado dele. Fico empolgado, torcendo pra dar certo, e saio, voltando pro quarto, já que ainda precisava lavar roupas.

Centro de Kitchener, domingo, 11h.

Do quarto, pego a bolsa de roupas sujas (a capa da mochila, na verdade), ajeito na cesta da Helô (benditas), pego meus trocados, já que as máquinas funcionam com moedas, e vou na lavanderia mais próxima, que fica a um quilômetro e meio, mais ou menos. Chegando, vejo que não tem mais sabão pra comprar na máquina e eu não tenho sabão. Xingo, pego a Helô de novo (que estava presa num banco na lateral da lavanderia) e jogo no Maps a outra lavanderia. Diz que são dois quilômetros pra frente. Pedalo, pedalo, pedalo e já se passaram uns quinze minutos. Paro pra conferir e faltam 1.5km! Não ferra, não levei quinze minutos pra andar 500 metros! Irritado com a vida, um sol de rachar mamona, decido voltar pro quarto e lavar roupa no dia seguinte e pronto. Jogo no Maps – ROLÊ! Pedalo, pedalo, pedalo e passo num lugar chamado Phoenix Adult Massage Spa – Spa de Massagem Adulta Fênix – entrada pelos fundos.

Aí decido parar em outra lavanderia (aposto que teve gente achando que eu ia parar no spa), mais ou menos no caminho. Coloco no Maps e vou até lá. Quando chego, não tem onde prender a Helô. Nem placa, nada. Bem puto da vida, porque a porra da cidade é toda plana e vocês também estão contribuindo pra poluição e bem que precisam de um pouco de exercício, porque só andam de carro pra lá e pra cá, volto pro quarto. Pra ajudar, os pneus da Helô estavam meio vazios (são velhinhos, devem vazar muito) e tava bem pesado pedalar.

Aproveitando o ensejo, e sem saber se já falei isso (se sim, pode pular esse parágrafo todo), achava que aqui seria bem mais amigável pra bicicletas. Além do que já falei, não tem ciclofaixa em quase lugar nenhum, onde tem acaba do nada e quase não tem estacicleta. Como tudo é até bem plano, seria um lugar ÓTIMO pra incentivar fortemente as bicicletas. No inverno sei que é difícil, mas, nas outras estações dá, poxa.

Com muita fome, volto no Wimpy’s (onde comi o poutine) porque tou com muita vontade de hambúrguer.

Chegando lá, pergunto o tamanho do hambúrguer médio – parece um prato. Peço o júnior (primeira vez na vida que peço um prato júnior, acho), com batatas e refrigerante, e fico vendo o cardápio. Quando vem, fico assustado – é imenso, a batata parece uma porção de boteco no Brasil de tão grande, e vem aberto. Pergunto pra garçonete, super simpática, aliás, como ela normalmente come aquilo. Ela diz que só fecha e manda ver. Mas tem talheres na mesa. Decidindo que não posso perder a ogrice nossa de cada dia, fecho o hambúrguer e como com as mãos, mesmo. Tá ok. Não é muito bom, mas não é muito ruim. A batata, por outro lado, é de mentira e foi frita em óleo de outras coisas, tem gosto de coisa empanada. Como tudo porque pedi e, se não comer, vai pro lixo, pago e saio, voltando pro quarto pra jiboiar, porque tá bem quente e fiquei uma hora e meia pedalando, fora a irritação.

(Tem gente que me conhece mais ou menos e me acha calmo. Tem gente que me conhece melhor e sabe que eu sou é controlado pra cacete, mas minha vontade é fuzilar metade das pessoas do planeta e aniquilar 99% do que sobrar. A fofura em pessoa.)

Chega uma mensagem do Airbnb: pagamento recusado por algum motivo. Tento entrar no site – não tem nem reserva nenhuma. Aí vou fuçar mais e lembro que eu tenho uma conta que fiz por acidente e outra que é a minha, mesmo. Aí pedem pra confirmar por celular – mas só tem o celular do Brasil. Procuro o chip, porque vai que a mensagem chega, mas a mensagem não chega. Não tem sinal nenhum. Tento acessar pelo celular e é a conta certa. Beleza. Vou verificar cartões cadastrados – não encontro. Fico um tempão procurando como troca o celular e finalmente acho. Troco e tento entrar pelo computador de novo – número antigo. Sendo muito sincero, a interface do Airbnb é um lixo completo. Mexo mexo e nada. Mando mensagem pra Jolyn pra saber se ela recebeu alguma mensagem sobre o pagamento ter sido recusado – nada. Peço pra me manter atualizado. No celular, não tem como acrescentar um cartão novo. Detalhe que a reserva estendida aparece como confirmada. Nesse meio tempo, vejo que tem mensagem da agente imobiliária com quem não consigo falar, pedindo pra ligar. Ligo pra ela, ninguém atende. Uns quinze minutos depois, ela liga de volta.

PIOR CONVERSA DA VIDA!!! Só serviu pra me deixar extremamente ansioso. Ela disse que trabalha mais na área de Toronto, mas que tem algumas coisas em Kitchener. Falo que não tenho histórico de crédito e ela pergunta se alguém pode assinar comigo. Filhote do inferno, eu te falei que acabei de chegar pra estudar, como diabos alguém vai assinar comigo essa bodega? Digo que não tenho, não tenho amigos nem família aqui. Aí ela diz que só provar fundos não adianta, que talvez precise oferecer fazer um depósito de mais aluguéis. Aí eu pergunto por que isso tudo e ela diz que a lei canadense é muito leniente com inquilino, que, se o inquilino não paga, você não pode simplesmente ir lá e trocar as fechaduras, que tem que entrar na justiça. Então, moça, aqui não é Estados Unidos, esse capitalismo desenfreado maluco em que o estado intervém o mínimo o possível na economia (mas o máximo possível na regulação dos corpos femininos, cá entre nós). Não falo isso, só falo que não sabia, aí ela vem e diz que muitas vezes os proprietários dependem do aluguel pra pagar a hipoteca que fizeram pra poder comprar o imóvel em primeiro lugar. GENTE, alguém explica pra ela que isso é um modelo de negócios estúpido, por favor! Aliás, pra ela e pra quem faz. Se você não tem grana pra pagar um lugar que comprou e depende do aluguel desse mesmo lugar pra pagar, você corre um risco enorme de simplesmente perder tudo que investiu quando o banco tomar de volta de você se não conseguir alugar. Agora, se você ficar escolhendo muito o locatário e recusar todo mundo, você tá duplamente ferrado. Enfim. Aí ela pergunta se tenho emprego e digo que não (SOU ESTUDANTE, cacete) e ela diz que assim vai ser muito difícil alugar e me aconselha a MENTIR NA FICHA! Mais uma nota: estar trabalhando não quer dizer que vão pagar o aluguel, viu? São duas coisas completamente diferentes. Ela pergunta se daria pra pagar um ano de aluguel como depósito (!!!). Eu digo que não, mas que uns meses dá pra conversar. Ela diz que precisa de, no mínimo, três meses, idealmente seis, mas quanto mais, melhor, que ninguém aluga nada assim. Eu já em pânico, mas ok, ela diz que vai me mandar uma série de imóveis por email. Digo que tudo bem, passo meu email e desligo. Uns minutos depois, vem a lista de imóveis: UM logo abaixo do nosso orçamento, vários outros bem acima, com uma mensagem perguntando se não dá pra subir o orçamento porque ela não tem quase nada dentro do valor “baixo” que colocamos como limite! Resolvo olhar melhor o que ela mandou: o menor apartamento tem 300 metros quadrados. O maior tem 800. OITOCENTOS METROS QUADRADOS UM APARTAMENTO!!! É, essa mulher é completamente louca, mas conseguiu me deixar hiperansioso.

Vou tomar um banho e ler até dormir, que é melhor.