Diário do front 10 – Sábado – 22/06/2019

Hoje a mina que ficou de ver se os apartamentos que estavam anunciados ainda estão disponíveis mandou mensagem – não estão. Aí ficou de mandar outros, mas já falou que precisa ter um bom histórico de crédito, estar empregado, essas coisas. Pergunto se prova de fundos não serve, ela não me responde mais um tempão. Aí finalmente perguntou se podemos falar pelo telefone depois, digo que sim (estamos trocando mensagens de texto) e ela some. OK.

Isso, aliás, é uma característica ao mesmo tempo boa e ruim das pessoas aqui: elas são lentas. Tudo demora, parece, tudo pode ser respondido depois. Meio sacal. Legal que é menos estressante pra elas, imagino, mas eu fico uma pilha querendo resposta das coisas.

Gostaria de dizer que esqueci de comprar leite, estou sem. Mas aproveito pra contar que leite aqui tem de caixinha e de saquinho, como conhecemos, só que tem 3%, 2%, 1%, 0.3% (acho) de gordura. Achei maneiro.

Preciso fazer cópias de documentos pra poder fazer a ficha de inscrição na imobiliária, mas só encontro a Staples, que é tipo uma Kalunga, longinho. Pergunto pra Jolyn e ela me recomenda um lugar aqui perto. Vou de Helô até lá e o cara está jogando alguma coisa no computador. É nóis. Peço as cópias e ele pergunta se tudo bem esperar um pouco que tem que ligar a máquina (!). Claro, vai lá. Nisso, reparo numa pilha de papel de fichário, os pacotes fechados ainda, super velha, vendendo a 1.50 cada. Fico interessado, vou olhar e são mesmo antigos, amarelando. Já separo um pra mim. Sim, gosto de escrever em papel velho. O cara mexe pra lá, mexe pra cá, e não consegue fazer a cópia. Aí ele vai tentar escanear pra depois imprimir. Não consegue. Aí pergunto se ele não sabe usar as máquinas (caralho, você trabalha aqui, mano!) e ele diz que está só olhando pro dono, que ele não está. Pergunto se volta tarde – só na segunda. Ele me devolve os documentos, pede desculpas e eu digo que tudo bem e saio, mas pensando que talvez teria sido melhor fechar a porcaria da loja pro dia. Enfim, vou pra (pro?) Staples.

São 6.5km, ruas que sobem e desce, mas nada intenso. Chato é que é no sol, está quente e eu esqueci a garrafa d’água (aliás, queria comprar uma pra Helô, mas não tem onde prender nela e não tenho ferramentas pra improvisar alguma coisa). Levo um tempinho, mas chego lá.

A loja parece realmente uma Kalunga gigante. Vou direto nas cópias e uma moça super simpática me atende. Peço ajuda e ela me diz que o melhor é ir no autoatendimento. Peço pra me mostrar, explico que não sei usar, e ela pergunta se tenho cartão de crédito. Digo que talvez, mas que não sei se funciona (é o traveller’s card lá), ela acaba sugerindo comprar um cartão deles mesmo com três dólares. Compro o cartão e ela me explica como faz. É super fácil: você coloca seu cartão na máquina, seleciona duas coisas (tamanho do papel e quantidade de cópias por folha) e coloca o que quer copiar. Se forem folhas soltas, coloca numa bandeja que a máquina puxa sozinha e vai fazendo as cópias. Ela coloca pra me mostrar e percebe que colocou errado – as cópias saem cortadas. Enquanto ela estorna parte do dinheiro, eu continuo fazendo as outras cópias. Resolvido isso, vou passear na loja.

É impressionante como as coisas são mais baratas aqui e geralmente têm uma qualidade melhor. Nem tudo, é claro, mas a maior parte das coisas. Fico rodando, rodando, olhando, e vejo um apontador de lápis (de manivela). O meu ficou com a Fabíola, que prometeu me comprar um da Caran D’Ache (mentira, é que um dessa marca, super chique e lindo, custa 170 dólares). Olho, mas não gosto muito deles: um precisa ser preso na mesa com parafusos, o outro é com pressão (uma borrachinha e uma manivela) e isso nunca funciona direito. Abandono os apontadores e continuo andando. Caio, é claro, nas estantes do desconto. Aqui muitas vezes eles chamam de “clearance”, tipo “limpeza”, pra abrir espaço, mesmo. Ficam as coisas que não venderam, que sobraram de coleções/pacotes anteriores etc. Olho mais por curiosidade que outra coisa e acabo comprando dois cadernos – de 7.99 por 2.97. Barato demais e acho que vou precisar no curso, né? Mais legal é que os dois são feitos com 80% bagaço de cana.

Compro os dois, um mouse, que o meu pifou, mesmo, mais um chocolate, que já estava famélico, como o chocolate (Oh Henry! o nome – gostoso, lembra o Charge) e volto. No caminho, perdido porque tenho que memorizar um pedaço, parar, pegar celular, olhar, continuar, passo por uma linha de trem fechada. Fico uns dez minutos esperando, uma fila de carros se formando e dois caras fotografando, aparentemente, as pichações no trem. O trem vai, para, fica um tempo, volta. Aí passa o Bondão – agora entendi porque parou! – e o trem volta a andar. Quando finalmente libera, continuo o caminho. Resolvo que já vou parar no mercado pra comprar leite, prendo a Helô numa placa (de novo, não tem estacicleta) e vou procurar o leite. Encontro e compro uma caixa de dois litros, desnatado (ou 0.3%) e passeio pelos iogurtes. Encontro um pote grande (425g – SIM!) em promoção: dois por cinco contos. Nunca ouvi falar, mas também nunca ouvi falar da maioria das marcas aqui. Pego um de cereja e um de baunilha. Pago, saio e coloco as coisas na cesta da Helô (sério, por que raios bicicletas masculinas não têm cesta? É tão prático!) e volto pro quarto, mortão. Tempo total de volta: uma hora pedalando.

Chegando no quarto, como o que sobrou da comida chinesa de ontem, ainda gostosa, e tomo uma cerveja. (Falei que comprei cerveja? Comprei cerveja)

Coloquei as plantas que tem no quarto (três vasos, nada demais) pra tomarem um sol, rego e deixo lá, bem na frente da porta. Elas estão secas e uma tá amarelando.

Decido ficar de bobeira, descansar o resto do dia, e aí, pouco depois de anoitecer, começa uma galera a falar MUITO alto e a ouvir música muito alto, também. Parecem indianos. Estão se divertindo, parece uma festa. Tranquilo, é sábado, vai aí. De repente, dez da noite, vem uma mensagem – a mina perguntando se dá pra falar ainda. Nem respondo, porque, né, dez da noite, estou cansado. E amanhã tenho que lavar roupa.