Diário do front 09 – Sexta – 21/06/2019

Pra quem tá acompanhando desde o início, lembra do documento que faltou na imigração blablá? Preciso dele pra poder alugar um apartamento também. Devia ter impresso esse troço logo de cara.

Então, decidi acordar bem cedo nessa sexta (BEM cedo – 6h30) pra ir a uma biblioteca, a mais próxima daqui, pra imprimir. As bibliotecas aqui oferecem serviço de impressão “barato”, parcialmente subsidiado pelo governo. Acordei, tomei café, essas coisas, tava me preparando pra sair quando ouço a Evellyn gritando do lado de fora, pedindo socorro. Preocupado, saio correndo do quarto e ela tá vestida de Elsa, sentada na escada da entrada – tinha derramado cereal em si mesma. Levi (o menor) estava atacado, também. Jolyn (a anfitriã, vai ser mais fácil chamar pelo nome, sim, sou idiota) sai mortificada, achando que ela tinha me acordado. Explico que não e fico um pouquinho com eles, ajudando a controlar o caos. Eles entram pra terminar o café, que não deu certo tomar no sol, e eu termino de me arrumar. Quando estou saindo com a Helô, eles estão na porta de novo, saindo pra entreter as crianças um pouco. Digo que vou à biblioteca e depois nos falamos e lá vou eu.

Preciso mesmo de um suporte pro celular – um saco ficar parando a cada x tempo ou ficar perdendo saídas porque ele fica no bolso e tenho que olhar.

A biblioteca mais perto ficava um pouco longe: vinte minutos de bicicleta, se não me engano. Só que o caminho passava pelo meio de umas trilhas e uns parques, muito legais, de verdade. Tive que atravessar uma rodovia, bem esquisito, mas parece ser o normal aqui. Curioso que pra atravessar uma ruazinha com quase nenhum trânsito tem que descer da bicicleta…

Fiquei com vontade de ter uma GoPro ou outra dessas câmeras compactas, à prova d’água e que tiram fotos e filmes legais pra prender na Helô ou só fotografar as coisas.

Um pedaço da trilha

Cheguei na biblioteca e fui atendido por uma senhora BEM antipática! Dei bom dia, perguntei como ela estava, e disse que queria usar os serviços de impressão. “Você tem cartão da biblioteca?” Não, ainda não. “Então eu libero pra você usar. Você mora na região?” Moro, sim, mas não no bairro. “Quando tiver comprovante de endereço, faça sua carteirinha da biblioteca, então.” Senhora, sim, senhora. “Você precisa baixar o documento pra poder imprimir.” Sento ao computador, abro Google Drive, abro o documento, vou perguntar como continua. “Você baixou?” Não, abri no navegador, mas ele baixa sozinho. “Não, precisa baixar.” Sento e baixo o documento. Mando abrir e a bagaça abre onde? Na porra do navegador! Mando imprimir, ela me leva pra outro computador. “São 64 páginas?” Isso, 64. “Vai ficar X” (não lembro, nove e pouco). Tudo bem, pode imprimir. “Nossa impressora não comporta isso tudo. Vou ter que pegar mais papel.” Cara, quer que eu vá em outro lugar logo? Enfim, vou pagar, e não tenho trocado – ela não aceita nota maior, mas aceita débito. Pago com débito, pego minhas impressões e saio logo antes que ela sugue minha alma. Depois as pessoas se perguntam porque as bibliotecas estão desaparecendo – bibliotecários grossos e encrenqueiros são um dos motivos (mas o menor deles, verdade seja dita).

No caminho de volta, um encontro inusitado. Passei com a Helô, comecei a rir, voltei, parei, tirei foto ainda rindo, e continuei meu caminho:

Aproxima a foto que dá pra ver quem são. Vou dar uma dica: “Tem uma cobra na minha bota!”

Volto pro quarto, deixo minhas coisas e vou pegar o ônibus pra ir à imobiliária do apartamento que visitei ontem. Desço onde o Google Maps indicou e ainda tenho que andar uns quinze minutos. Número 105. Não existe número 105. Volto, olho de novo. Não existe número 105. Desço a rua. Continua não existindo o diacho do número 105. Aí olho o papel – 105 – 900. 105, então. Procuro a imobiliária pelo nome no Maps e é número 900, unidade 105! Porra, mano, zero claro. Só reforça a tese de que os canadenses são é ruins de informação, mesmo. Enfim, Maps me diz que vou levar 45 minutos de ônibus e 25 a pé. A pé me vou, então, subindo e descendo a rua. Passo por uma senhora tirando umas ervas daninhas do gramado dela e dou bom dia. Ela dá bom dia e pergunta como estou. Digo que bem e pergunto dela. Ela diz que bem e “Deus te abençoe”. Brigado, pra senhora também. Fiquei com muita impressão que a bênção era porque falei com ela e não ignorei. Continuando meu caminho, só casas, só residencial, eu crente que não ia achar nada, pés já doendo (porque continuam machucados e não dou descanso pra eles), quando aparece um troço que, tou vendo, é muito canadense: um grupinho de lojas, do nada, no meio de um bairro residencial. Encontro a imobiliária e converso com um atendente.

Basicamente, preciso preencher um papel, levar comprovante de fundos, algum documento que prove que eu sou eu e uma “remessa de dinheiro” que pego no banco ou transfiro o dinheiro do último aluguel PELO EMAIL DELES! Fala sério, cara. Dou risada e pergunto se é só isso, ele faz cara de ué, e diz que tem uma senha. Uma senha! A senha é: “pagamento”, em inglês. Sim, a senha pra fazer o pagamento é a palavra “pagamento”. Comento que isso é impensável no Brasil, que todo mundo está tão acostumado a lidar com uma burocracia imensa que já está calejado e já espera pedirem até atestado de óbito do tatatataravô e sequência de DNA. Ele ri e diz que no Canadá é tudo mais fácil. Menos me responderem as mensagens!, fico com vontade de dizer, mas me controlo e saio, procurando o ônibus mais próximo.

Sim, tirei foto de uns arbustos floridos no caminho pra imobiliária.

Pego o ônibus pra voltar e é outro rolê. Acho que já comentei, mas vale retomar: os ônibus aqui são legais, são limpos, têm ar-condicionado, têm aquecedor, tem rampa pra deficiente/idoso, não são muito barulhentos, MAS demoram pra cacete pra chegar a qualquer lugar. Dão milhares de voltas, têm intervalos grandes entre si, um rolo danado. Um trajeto que leva dez minutos de carro leva 45 de ônibus, sem o menor exagero.

Quando chego, faminto, vou direto no restaurante chinês e hoje peço macarrão de ovos com legumes e arroz frito com frango. Outra delícia. Mas dessa vez ganhei biscoito da sorte!

Volto pro quarto e Jolyn tá tentando pendurar roupa e cuidar dos dois pequenos. Paro pra conversar e dar uma ajuda e fico entretendo os dois enquanto ela continua a tarefa. Conversamos um tempão, eu ajudando a vigiar, ela continuando as coisas. Falamos de históricos, Canadá, Brasil, comidas etc. Passo umas horas com eles, divertidas. As crianças são FOFAS DEMAIS. Uma coisa assustadora. Dá vontade de apertar até explodirem. Mas os dois são fascinados com a rua, especialmente o Levi. Quer toda hora ir pra rua, esse moleque rueiro! Tem um momento em que ela pede pra eu cuidar deles enquanto pega outro cesto de roupa, digo que claro e fico lá, de babá.

Logo chega uma senhora pra falar com a Jolyn e pergunta “quem é ele?”, com um inglês meio ruim. Jolyn já tinha me falado dela. É a Maria, portuguesa idosa que vive no prédio ao lado e adora as crianças (e vice-versa). Jolyn explica que estou ficando no Airbnb e que sou brasileiro, que falo português, e a Maria (D. Maria, mas enfim) diz que é quase a mesma língua. Mesma língua é, D. Maria, são só variantes diferentes. Ela dá um doce pras crianças e logo sai. Digo que foi um prazer conhecê-la e ela diz “também”, me olhando com desconfiança. Jolyn fica espantada, comenta que ela foi rude, e eu explico que não esperava menos, que os portugueses são assim, mesmo, muito desconfiados. Fiquei com vontade de ensinar a Evellyn a dizer “Bom dia, D. Maria”, que ela vai gostar, mas ainda não perguntei pra Jolyn se tudo bem. Jolyn me mostra a bancada da cozinha, feita de granito, caríssimo, e comento que o granito é a pedra mais comum no Brasil, que isso era bem engraçado. Ela diz que o granito que se vende no Canadá é importado da América do Sul, mesmo. Aí ela me mostra as prateleiras e a parte de madeira da bancada, feitas pelo Tyler. Fico impressionado, sem exagero, ainda mais considerando-se que é hobby! Tudo muito bem feito, acabamento perfeito, retinho, proporções ótimas, verniz perfeito, epóxi na bancada sem uma bolha. Elogio muito, porque realmente ficou demais. Também converso com a Jolyn sobre estender a estada, que tou achando que vou precisar, mas que tem mais duas pessoas e dois gatos chegando, e ela fala que tudo bem, que dá pra estender, que não tem nada marcado pras duas próximas semanas. Uns minutos depois, ela pega o celular e vem me mostrar que alguém acaba de reservar dias 5 e 6! Desgraça do cacete! Paciência, vamos ver o que fazer. Mas peço pra estender até dia 4 e ela topa. Não consigo mexer no aplicativo do Airbnb, que é uma desgraça, e ela troca a reserva, eu concordo no aplicativo e sou cobrado.

As crianças gostam de mim, ficam relaxadas, e logo Levi tá me escalando e sentando na minha perna. Evellyn toda hora me oferece sorvete de Branca de Neve. Fico brincando e conversando até dar a hora de mais uma visita em apartamento, me despeço e vou.

Aproveito pra comentar aqui que fico impressionado como esses dois são bons pais. Atenciosos, mas sem limitar as crianças, ensinam várias coisas o tempo todo, dialogam sem brigar, mesmo quando elas estão manhosas. Sério, exemplo! Ah, e ensinaram ao Levi um pouco de linguagem de sinais, porque ele não fala ainda, apesar de entender quase tudo. Bem legal.

Parte da familia – Tyler estava trabalhando. Atenção para a melequeira extra das crianças – estavam comendo frutas antes.

Vou pro apartamento, mas sem muitas esperanças. Uma hora e pouco de ônibus até lá, no canto da cidade vizinha, não parece valer a pena. Chego e tem um jardim muito bonitinho, bem cuidado, bem legal. Mando mensagem pra pessoa dizendo que já cheguei, mas que poderia esperar dar o horário (faltavam quinze minutos). Ela responde que está vindo e é uma mulher baixinha, morena, cabelo ruivo. Tem uma tatuagem de escorpião no braço. Vamos indo ver o apartamento e conversando e ela fica super empolgada quando descobre que sou do Brasil. Diz que quer muito visitar, que é um sonho dela. O santo bateu na hora e vamos vendo e conversando. O apartamento não vai ser bom pra gente, na realidade. Longe, de frente pra uma avenida barulhenta, úmido (literalmente tem um desumidificador que já fica lá e precisa ficar ligado), aquecimento todo elétrico (Santa Jolyn me disse que é a energia mais cara aqui, que qualquer aquecedor elétrico faz a conta disparar). Tem coisas boas, mas não vai ser bom pra gente.

Acabo ficando muito mais tempo conversando com ela do que pretendia. Se chama Nel e veio pro Canadá pequena com os pais, da Romênia. Ainda fala um pouco de romeno, um pouco de russo, morre de vontade de aprender espanhol, morou na Austrália, foi casada duas vezes, os filhos estão indo pra faculdade e tem opiniões fortes sobre várias coisas. Me diz que toma conta sozinha do jardim, já que os inquilinos do lado, que são os responsáveis, não gostam de jardinagem. Elogio o jardim, digo que já tinha reparado que estava muito bem cuidado mesmo (devia ter tirado foto!). No fim, me despeço e ela diz que vai torcer pra eu conseguir pegar o apartamento, que gostou de mim. Pego todo o caminho de volta, andando até o ponto de novo, meio distante, e desço perto do centro de Waterloo, e ouço música de sinos. Eu adoro sinos. Sigo a música e é tipo um Glockenspiel automático – um carrilhão. A música acaba e sigo caminho – e só aí me toco que o próximo ônibus era logo depois! Corro pro ponto, o ônibus já está lá, mas o sinal está fechado pra mim. O motorista me vê e ME ESPERA, essa santa pessoa! Sinal abre, atravesso correndo e agradeço muito ao motorista, sentando no ônibus.

Me ajeito, porque falta um trecho grande, e fico tranquilo. Aí percebo que não conheço nada em volta. Olho no Maps e estou indo pro lado errado! Ou melhor, eu precisava ter trocado de ônibus no meio e o Maps não me avisou. Verdade seja dita, ele ainda não foi atualizado pras novas mudanças – as linhas estão todas sendo trocadas por causa da inauguração do Bondão. Desço no próximo ponto, atravesso correndo porque já vem outro ônibus e volto pro quarto mais uma vez.

Quando chego, Tyler está recolhendo as roupas. Conversamos um pouco e preciso me retratar – depois do churrasco e tudo, ficou claro que ele é só um cara quieto. Prejulguei total. No fim, claramente nos daríamos super bem. Entro e sento, cansadão, e logo alguém bate à porta – Tyler veio me trazer um pouco de bolo de carne com legumes que a Jolyn fez pro jantar deles. Agradeço muito, cheiro e está MUITO cheiroso. Deixo pra comer mais tarde e o troço ficou muito gostoso! O molho adocicado é diferente pra mim, mas gostei, mesmo. Aliás, legumes aqui costumam vir bem temperados, o que dá mais vontade de comer. Preciso fazer mais legumes.