Diário do front 08 – Quinta – 20/06/2019

Hoje esfriou e começou a chover. De ontem, quente, iluminado, um saco, uma chuva e cinza maravilhosos. Meu humor já melhorou um pouco.

Tati descobriu que é muito mais fácil fazer contato com uma agência imobiliária que com indivíduos. Descobriu também que os locadores não gostam de alugar pra homens sozinhos, preferem quando as esposas estão junto. Sexismo muito? Assim, comecei a entrar em contato com imobiliárias – e as coisas já começaram a dar mais frutos.

De cara consegui marcar três, uma pra hoje. Uma das pessoas dos outros anúncios, aliás, me respondeu depois que insisti. Ficou de me mandar fotos do lugar, disse que dá pra arrumar pro dia 1 de julho, mas que teria que correr. Digo que fico no aguardo e é isso. As pessoas precisam correr um pouquinho atrás, também!

Aí fui comer. Queria alguma coisa diferente dos sanduíches do Tim Hortons, e resolvi ir num restaurante de comida chinesa que fica um pouco mais pra frente. Peço um misturado de legumes e carne, com arroz frito com frango. Primeira coisa: cheiro bom. Segunda coisa: 6.49. Terceira coisa: prato gigante. Quarta coisa: por 6.49, com refrigerante ou egg roll! Pedi o egg roll, que tou evitando refrigerante.

Enquanto esperava, fiquei vendo as decorações do restaurante. Uns entalhes em pedra, super lindos, trabalhos com metal, tudo muito legal. Quatro molduras espalhadas, com quatro coisas diferentes. Acho que tem a ver com Feng-shui. Tirei foto de uma só, com o zodíaco e umas pedras entalhadas em volta.

Tava meio alto, por isso a foto esquisita.

A moça pediu dez minutos pra preparar, como se fosse uma eternidade, e fez rapidinho. Aí tinha alguma coisa diferente, um talo, perguntei o que era quando ela passou, e ela fez a maior cara de preocupada. Me disse que era, pelo que entendi, watercress, o que não pode ser, porque watercress é agrião. Ou não entendi nada ou ela não sabia o nome direito. Aí expliquei que tinha ficado curioso, que não sabia o que era, só por isso tava perguntando. Ela fez muita cara de aliviada e perguntou se estava bom – disse que estava uma delícia e ela sorriu. Continuo espantado com as pessoas aqui.

A foto do egg roll ficou uma bosta, depois tiro outra, se comer mais, porque achei esquisito. É massa de pastel, frita, recheada com um monte de coisas. Gostosinho, mas estranho.

Uma delícia ogra.

Voltei pro quarto depois de comer e logo saí pra comprar sabonete. A anfitriã, super gentil, deixou um monte de coisas no quarto, inclusive sabonete líquido, mas eu odeio sabonete líquido. Ele é muito pouco prático e não me sinto limpo de verdade. Então fui comprar. O segundo mais barato era bem cheiroso, então foi ele, mesmo (aliás, já usei, é realmente cheiroso). Aproveitei pra comprar um guarda-chuva, já que não trouxe nenhum. Fiquei olhando a cesta com cosméticos, toda zoneada (eu não tinha mexido nela ainda), não resisti e acabei arrumando tudo. Eu sei, tenho problemas.

“Esqueceu alguma coisa? Sirva-se.”

Aí saí pra ir ver a casa. É um rolê daqui, mas fica relativamente perto da universidade e relativamente perto do centro. Meio do caminho, vai. Mas do quarto precisei pegar três ônibus. Levei pouco mais de quarenta minutos e desembarquei numa avenidona, deserta, na chuva, do lado de um campo florido. Achei bom sinal.

Apresentação da família Von Trapp cancelada devido à chuva.

Chego no lugar, por uma rua de asfalto/terra encharcada, atravessando parte do campo, e o lugar é muito bonito e muito quieto. O número, na verdade, é só da entrada – são diversas casas divididas em quatro apartamentos cada. Fico esperando, e ninguém aparece. Resolvo tocar a campainha e uma moça me atende. Explico e ela pede pra eu entrar, diz que é a irmã do inquilino atual e que pode me mostrar o apartamento. Ele é muito bonito, está muito bem cuidado, novo, mesmo, em ótimo estado. O apartamento, não conheci o irmão. Tem vários armários embutidos, é no porão e parece aconchegante. Maior problema: o irmão só sai no dia 5, e eu precisaria, no máximo, pro dia 2. Mas vamos ver como fica. Tem outros jeitos de resolver. Acho. Ela diz que o irmão adora morar ali, mas que vai voltar pro Paquistão e por isso vai entregar. Conversamos um pouco, pergunto coisas dali, me despeço e saio. Nisso chega a corretora!

Ela se atrasou um bocado, então eu já estava saindo quando ela chegou. Ainda assim, expliquei a situação de estar chegando no país etc e ela me pediu pra passar no escritório amanhã, com os documentos mostrando fundos e tals, que eles estão acostumados a lidar com estrangeiros. Maravilha! O primeiro apartamento já é uma ótima experiência, lidando com agentes.

A porta da direita, 2D (um dia, um dia, 221B). O carro vermelho é da corretora.

Logo a corretora vai embora, enquanto ainda estou olhando no mapa como volta, e nem me oferece uma carona! Na chuva! Já todo molhado! Possível futuro cliente! Dou de ombros, pensando que pelo menos não preciso ficar inventando do que conversar, atravesso o campo e vou pro ponto esperar o ônibus – que está atrasado, maldito dos infernos, na chuva e no vento. Pra dar uma ideia, com guarda-chuva, minha calça estava molhada até a cintura. Nem preciso comentar dos sapatos. Mais um rolê pra voltar, três ônibus etc. Preciso de uma capa de chuva, tou achando. De preferência uma que cubra até os pés. Amarela.

Com frio, já que estou tão molhado, resolvo finalmente provar uma comida “tradicional” do Tim Hortons: os Timbits (Fabíola, morra de inveja). Timbits são “os furos dos donuts”: bolinhas de massa frita, bem parecidos com os bolinhos de chuva do Brasil, mas com sabor um pouco diferente. Peguei os tradicionais, mais simples. Acho que a grande diferença é um pouco de cardamomo na massa, mas não tenho certeza. Depois investigo. Peço também um chocolate quente médio (que tem quase meio litro de chocolate – o MÉDIO. Povo aqui come muito).

Enquanto espero, vejo um grupo de homens idosos jogando cartas num canto, alguns tomando alguma coisa, falando em uma língua que não conheço. Eles discutem, dão risada, e continuam jogando. Logo vem meu copo, trazido por um rapaz que começou há pouco tempo (a pessoa que está treinando o rapaz comentou comigo) e eu peço pra vir sem a tampa, que é desperdício de plástico. Ele diz que tudo bem e ela começa a dar uma bronca nele, pra colocar a tampa! Antes de ela continuar, digo que a culpa é minha, que eu pedi sem, e ela fica super sem graça, pede desculpas. Não é nada, o rapaz sorri, aliviado, e me entrega meu chocolate quente.

Aí vou sentar do lado de um grupo de mulheres falando árabe. Numa mesa do lado, claramente com elas, um garoto acompanha a conversa tomando alguma coisa. Chá, talvez. Ele dá uma olhada pra mim e pros meu Timbits e ofereço um. Ele fica sem jeito, mas aceita. Continuo comendo e ouvindo árabe, esperando o chocolate esfriar um pouco (de “lava recém saída do vulcão” pra “dá pra tomar devagar”). Parece que estão falando de negócios, uma delas com computador aberto mostra alguma coisa, elas todas super empolgadas e interessadas. Maior legal. O garoto me olha de novo, mas agora o resto é meu! Não folga, também! Termino meu chocolate e volto pro quarto, pra tomar um banho quente.

Esses são a edição especial “noturna” dos Timbits: da boîte. Pelo menos foi o que entendi. Ao lado, meu guarda-chuva novo.

Depois do banho, vou pesquisar onde diachos vou imprimir os documentos. As bibliotecas públicas oferecem o serviço, por 15 centavos a folha. Amanhã de manhã vou finalmente conhecer meu lugar favorito! :D

Enquanto termino este post, estou esperando mensagem da anfitriã que ficou de me explicar como separam o lixo aqui – informação importante pra quando tiver meu apartamento.