Diário do front 07 – Quarta – 19/06/2019

Passei o dia ansioso, porque iria ver o apartamento que tinha gostado bastante pelas fotos.

Mandei mais mensagens pela manhã, tentando contato com gente alugando, e exauri um dos sites. Perdi a conta de quantas mandei, já. (Recebi uma resposta hoje mais tarde sobre dois lugares – sem vagas.) Aí resolvi ir comer e fui – adivinha? No Tim Hortons. Os sanduíches são grandinhos e não fica muito caro, então vou indo lá, mesmo. Voltei e fui com a Helô no Walmart – queria um bloco de desenho e protetor solar. O bloco foi BEM barato, ainda mais considerando a qualidade alta dele – CDN$3.47, se não me engano. Voltei pro quarto desanimado, acabei não desenhando nada. Vamos ver se consigo fazer alguma coisa amanhã ou no fim de semana.

(Acho que vou fazer um desenho a carvão da casa em que tou ficando, mas como era quando foi construída (ou como imagino que era): a casa só de tijolos e um campo imenso de macieiras atrás dela. Se ficar ok, dou pros donos, acho que vão gostar.)

A casa, vista da rua.

Aparentemente, as pessoas e as imobiliárias colocam anúncios nos sites e não tiram nunca. Você entra em contato e eles dizem se tá disponível ou não. Bem bizarro. Não vejo muito sentido em fazer isso – só perde tempo de todo mundo. De quem aluga, que fica mandando mensagem igual a um idiota, de quem oferece, porque fica respondendo toda hora um monte de mensagens.

Liguei de novo pro Bill, dono de um dos apartamentos que eu gostaria de ver, apesar de nem ter fotos no anúncio dele. Ele diz que vai entrar em uma reunião naquele momento, e peço pra ele me mandar mensagem quando acabar pra tentarmos combinar um dia e horário. A reunião ainda deve estar acontecendo, 23h16, porque ainda não veio mensagem nenhuma. Deve ser reunião da ONU pra diminuir a poluição mundial. Ou pra convencer o Trump de que ele não é inteligente como pensa que é. Ou com o Bolsonaro pra explicar que nióbio não é a salvação do Brasil. Boa sorte, Bill, especialmente com os dois últimos.

Uma coisa que gostaria de comentar, antes de continuar falando sobre o dia, é que várias pessoas falaram comigo sobre como tudo aqui é limpo. Então, não é. Eu coloquei aqui, até agora, fotos de lugares mais legais, mas isso foi no centro. Saiu do centro, tem muita sujeira pra todo lugar. Copos descartáveis, móveis e pedaços de móveis, bitucas de cigarro, peças de máquinas, até roupas jogadas pelas ruas. Hoje, aliás, vi até um filme pornô em DVD jogado num canto.

Essa lixeira não é limpa desde que cheguei, há uma semana. A prefeitura não recolhe bem o lixo. Essa gaveta estava em outro canto – alguém colocou ao lado da lixeira. Olha quanto lixo tem em volta…

Bem, fui pro ponto e peguei o ônibus. Era uma hora até o lugar, atravessando a cidade de Waterloo, pro norte de Kitchener. Waterloo é BEM mais bonita e bem cuidada, parece bem mais próspera e organizada. Enquanto Kitchener parece subúrbio estadunidense pobre, Waterloo parece cidade da Suíça organizada e limpa. Mas pode ser só a primeira impressão, claro.

O lugar era bem longe, como eu já disse e já sabia que seria. Desci no ponto mais próximo e ainda assim andei uns quinze minutos. Primeira observação: tem que atravessar um parque, que fica fechado à noite. É tudo bem deserto e tranquilo, silencioso, mesmo. Deve dar um certo medo à noite, ou são meus instintos brasileiros apitando. Depois de atravessar o parque, atravessei a linha do trem até chegar na casa.

Vista bem da frente do prédio. No meio da foto tem um pontinho no chão: era um esquilo.

Aí começaram as coisas estranhas. Mando mensagem pro dono, dizendo que cheguei e estou esperando na frente, sem resposta. Nisso, chega uma moça. Nos cumprimentamos e ela pergunta se eu é que vou mostrar o apartamento. Eu digo que também tinha ido ver. Estranhei. Aí ficamos conversando um pouco. Se chama Naya (não sei se escreve assim, mas dá pra entender), veio do leste da África (não falou o país e não quis dar de enxerido) há oito anos pra Ottawa e estava em Kitchener há seis meses. Prefere Ottawa, que é muito mais bonita, diz ela. Tem dois filhos, um de doze e um de seis anos. Comentamos sobre a falta de postes no lugar, especialmente no caminho, e que deve ser meio complicado chegar ali à noite. Ela me diz que no inverno não escurece muito cedo, mas que fica tudo MUITO escuro, muito rápido. Comentamos que é bom ter muitas árvores e que é muito silencioso.

Aí chegam mais três pessoas, brancos lixosos, total inquilinos-problema, num carro. Eles saem do carro, mal encarados, e perguntam se eu sou o dono. Digo que não, que também viemos ver o apartamento, e eles simplesmente ficam conversando entre si e foda-se. Caguei, também não quero papo com vocês, seus bostas.

De qualquer forma, a situação é super desconfortável, de verdade. As pessoas ali sabem que estão ou vão competir pelo apartamento, você não consegue conversar com o dono nem nada.

O dono aparece, e também tem cara de lixoso, mas vamos lá. Ele leva os cinco pra ver o apartamento e acaba soltando que está falando com umas quarenta outras pessoas só por mensagem. Entramos, e o apartamento é realmente bom. Precisa de pequenos reparos, mas mais coisa cosmética que de funcionamento. Os eletrodomésticos são novos, tá tudo bem limpo. O banheiro é super estreito e esquisito, mas nada que impeça o uso do apartamento. Pegamos todos fichas de application e vamos ver a lavanderia – comum pro prédio, pequena, mas funcional, as coisas novas.

Aí, saindo, vejo na ficha que não permite animais. Questiono com o dono, lembro que no anúncio diz explicitamente que animais de estimação são bem-vindos, e digo que tenho dois gatos. Ele diz que tem gato, também, que já pegou animal de rua, cuidou e doou, mas que as pessoas jogam a areia na privada, NA BANHEIRA, e aí entope tudo, fazem uma sujeira imensa etc. Fico horrorizado, digo que nunca faria isso, que isso é nojento e imbecil – afinal, você vai necessariamente precisar chamar alguém pra consertar assim que entupir etc. Ele faz muita cara de “todo mundo diz isso”, mas diz que tudo bem se eu não fizer, que é só não assinar na ficha a parte que diz que não tenho bicho nenhum. Mm-hm. Vou até preencher a ficha, mas, pra mim, já tou descartado. O que me deixa bem puto de ter essa porra no anúncio, né? Coloca logo que não permite animais e não desperdiça o tempo dos outros. Os canadenses estão me decepcionando. Esperava mais praticidade e limpeza.

Ando até o ponto de ônibus de novo, mas agora Maps me mandou pra outro. Logo vem o ônibus e pego um livro, que não tava afim de olhar mais nada. Mas perco o ponto, porque não reparei que agora era o contrário: pouco tempo no primeiro, bastante tempo no segundo. Desço mais pra frente e preciso voltar um bocado. Bendita integração, que não me faz pagar um monte de passagens. Sento no próximo ônibus e tudo bem, estou lendo, sozinho no assento pra duas pessoas.

Uma moça sobe, vem sentar do meu lado, hesita, e acaba sentando na frente, ao lado de outra pessoa. OK, me achou com cara de doido ou ocupo muito espaço ou sei lá. Logo a pessoa do lado dela, na janela, precisa descer. Ela levanta pra pessoa sair e faz menção de sentar DO OUTRO LADO do ônibus, e fiquei com muita impressão que era pra não sentar perto de mim. Aí ela olha pra mim, parece mudar de ideia e senta na minha frente de novo – e fica o resto da viagem mexendo no cabelo e olhando pra trás. Imagino que estivesse tentando chamar minha atenção, sei lá. Moça, se você quiser puxar papo, puxa, porque não sou eu que vou fazer isso, ainda mais depois do showzinho.

Decido que preciso de um capricho e desço um ponto antes pra passar no mercado. Dou um rolê pelo mercado, na parte de frutas, e descubro que eles têm umas sete variedades de maçã, todas muito cheirosas (pra quem não sabe, me oriento muito pelo cheiro…). Compro amêndoas cobertas com chocolate, em promoção, batata chips e pergunto onde tem cerveja, que não tou encontrando. “Não tem.” Tenebroso. Pergunto onde tem e a moça me indica a “Beer Store” (literalmente, “Loja de Cerveja”), subindo a rua, que só vende o que não preciso explicar.

Melancias Dulcinea, mas do tamanho de melões. Agora entendi a paixão do Quixote…

Saio rápido, porque já está pra fechar, e só depois percebo que fui pro lado errado. Volto mais rápido, chego com dez minutos de folga e o lugar é imenso. Ou melhor, o depósito é imenso. A loja em si é pequena, só a frente, você pede e eles trazem do depósito. Acabo pegando uma cerveja que não conheço, tipo lager, feita em Ontario, “orgânica” e, na realidade, peguei porque era a lager mais barata. Volto andando, meus pés já doendo de novo, e um carro de polícia para no estacionamento que estou atravessando. Só faltava essa… mas eles não vêm na minha direção nem nada, nem sei se estavam ali por minha causa. Continuo andando tranquilo, atravesso a rua e volto pro quarto. Guardo a cerveja na geladeira, tomo um banho e vou comer o resto do chili com as batatas e a cerveja e amargar o dia perdido.

21h. Nove da noite. Tirei essa foto voltando da Loja de Cerveja.