Diário do front 06 – Terça – 18/06/2019

Um dia que começou com muito desânimo e que acabou terminando bem.

Dormi muito mal (estou ansioso com as coisas todas), mas acordei mais ou menos cedo pra tentar fazer bastante contato com lugares e ir ver apartamentos.

Vi MUITOS apartamentos na internet, entrei em contato com vários e liguei pra alguns. Um dos que liguei perguntou se eu poderia ir hoje, eu disse que sim e combinei às duas da tarde.

Aproveito pra cortar as pernas da minha calça da GUINNESS! e poder usar essa bagaça. Visto, meço, tiro, corto e visto de novo. Agora ficou confortável. :D

Pés. Digo, as calças.

Nesse meio tempo, recebo mensagem da anfitriã me convidando pra comer com eles às seis. Pergunto se devo levar alguma coisa, digo que não conheço a etiqueta aqui, e ela diz que é boa etiqueta perguntar se querem que leve alguma coisa, mas não é obrigatório nem perguntar nem levar. Vou rapidinho no mercado e compro dois pacotes de batatas fritas tipo chips e volto pra arrumar as coisas pra ir ver o apartamento.

Super ansioso, acabo saindo uns quinze minutos mais cedo e fico torrando no sol. Termômetro diz que está vinte graus, mas parece muito mais (pelo menos no sol). Tento entrar na cobertura do ponto, pra fugir, mas é uma estufa. Mais jogo ficar no sol, que pelo menos venta um pouco. Logo vem o ônibus e lá vou eu dar rolê, atravessar Kitchener e chegar perto de Waterloo.

Visão do ponto, rapaz sentado comendo uma fatia de pizza no sol. Sem comentários.

Quando chego e desço, percebo um silêncio maravilhoso. Mal passa carro. Só dá pra ouvir as pessoas cortando a grama, os pássaros e a Julie Andrews cantando no fundo, ao longe. Caminho até o lugar e tem três pessoas na frente de uma garagem. Fico parado, olhando, me aproximo e me apresento e é a moça que vai me mostrar o apartamento, Cindy. Gordinha, simpática, falante, divertida, de cara nos damos bem. Ela me mostra o apartamento – NOVO. Tudo tá limpo, novo, bem cuidado. É fresco e escurinho, confortável. Mas aí já começo a ver os problemas: lavadora e secadora são muito pequenas (contornável, tou sendo chato, pra variar); não tem espaço pra guardar coisas – poucos armários e não tem muito onde colocar outros, roupas não teriam muito onde ficar; o armário do quarto é, na verdade, um buracão com porta. De modo geral, é bem pequeno, mesmo. O apartamento não tem controle climático – ar-condicionado nem calefação – dentro dele. Quem controla é o pessoal que mora em cima. Ela me garante que eles são super gente boa, mas já fico com dois pés atrás. Comento do silêncio e ela diz que de vez em quando dá pra ouvir uma pessoa andando em cima, que alguém da família tem pé pesado, e eu conto sobre o apartamento em SP e do barulho. Ela fica claramente horrorizada. Aí ela me leva pra ver o deck, que é bem legal, bem cuidado, bate bastante sol (mas não sei se poderia pendurar roupa ali, o lugar parece bem fresco) e a área “gramada”. Ela me conta que plantaram grama, mas que não pegou, então é a área erva-daninhada. Rimos bastante, elogio o bom gosto e esmero do apartamento, ela fica muito contente. Ela pergunta onde estou ficando, falo que é um Airbnb, e ela pergunta se está legal, se estão fazendo minha comida direito e eu rio e digo que não, eles não fazem nada disso. Aí ela diz que devo estar sentindo falta da esposa e eu rio de novo, dizendo que quem cozinha sou eu. Ela fica surpresa, mas diz que ela é quem deve estar sentindo falta, então, e conto que deixei um monte de coisas preparadas, inclusive brigadeiro, que ela não conhece. Explico o que é e ela fica super curiosa pra provar. Mesmo que não peguemos o apartamento, certeza que vou fazer um pote pra ela. Bom, aí ela pergunta se quero fazer uma application, que é preencher a ficha pra ver se sou aceito, e digo que preciso conversar e tals e ela diz na lata: “Eu gostaria muito que você preenchesse, porque gostei muito de você”. Uau, tou bem na fita canadense. Eu agradeço e saio. O apartamento é legal, mas achei caro pro pouco que oferece.

Já tive resposta de outros lugares, amanhã vou ver um dos sonhos: mais afastado, espaçoso e mais barato inclusive que esse pequeno, com árvores antigas em volta. Só faltou o fosso com crocodilos. Fica em Waterloo, mas uma amiga disse que Waterloo é uma cidade melhor de morar que Kitchener, e mais barata.

O dos sonhos, que vou ver amanhã.

Aí voltei e fui comer, que tinha ficado sem almoço. Cansado do Tim Hortons, resolvi ir no Wimpy’s, que, pelo que entendi, é uma rede de hambúrgueres. A moça já veio pegar o pedido, pedi um minuto, acabei pedindo poutine – o prato canadense quintessencial.

Poutine é, basicamente, batata frita coberta com queijo coalho e molho de carne, e vem do Quebec. Basicamente, um monte de caloria envolta em um monte de óleo. Mas, quando no Canadá, faça como os canadenses. Peço, na expectativa, e um suco de laranja. O suco de laranja daqui é ácido, pouco doce, bem esquisito. Enfim, vem o poutine.

O prato é absolutamente gigantesco. Comento com a moça e ela me diz que eles têm caixas pra levar o que sobrar. Ele é zero apetitoso, parece uma maçaroca estranha (devia ter desconfiado, já que vem do Quebec, a província francesa). Provei o primeiro pedaço e é bem salgado, meio com gosto de molho barbecue. Continuei comendo – pedi, vou comer pelo menos pra matar a fome – mas só consegui comer metade. Era muito ruim. Fui pagar e ela perguntou se eu não tinha gostado – eu disse que era muito pesado, não curti. Ela perguntou se eu queria levar – putz, não, brigado. Isso só vai ficar cada vez pior. Paguei e saí, passando mal de tanta gordura e óleo.

Poutine. Não parece tão grande na foto, mas era imenso.

Cheguei no quarto e vi que tinha várias respostas de outros apartamentos. Tentei ligar pra um, mas não consegui. Amanhã tento de novo. Logo chega a hora de encontrar os anfitriões.

Ajuda a montar as mesas do lado de fora, já que está quente. O pai está fazendo linguiças assadas. Temos uma saladona, as linguiças, as batatas que eu comprei, muitos molhos, quase todos picantes, e chucrute em jarro. Finalmente me toquei que aqui vai ter chucrute pra cacete – imigração alemã. Nisso, a menininha me chama pra conversar, e eu chamo de Princesa Elsa. Ela diz que hoje ela é a Evellyn de novo. Sim, senhora. Quem sou pra questionar que nome você vai usar.

Ok, vamos comer. Coloquei molho de mostarda no meu sanduíche, chucrute, que achei que combinaria (combina, esse estava muito menos azedo), peguei bastante salada (que estava delícia) e tomei uma cerveja. Ah, e batatas. A menina não para de falar. Ela me chama de “minho amigo” pra ir brincar com ela e me oferece sorvete. Aceito e ela pega da parede da casinha de jardim, e me passa o potinho imaginário. Eu agradeço, “provo” e digo que está ótimo. Termino, ela me oferece mais, aceito. Pergunto se ela que fez: foi. Ela me dá mais e pergunto qual o sabor do meu: Branca de Neve. Nossa, brigado! O dela é Branca de Neve com Cinderela. Aí digo que estou satisfeito e pergunto se ela sabe porque a gente não pode comer muito sorvete, crente que ela ia falar que dá dor de barriga. “Porque nossos dentes caem todo”. Hardcore. Imagino o que vão falar pra essa criança quando começar a trocar os dentes. “O diabinho do dente vai levar pra torturar as crianças que não obedeceram aos pais”. Mentira, eles são super cristãos e bonzinhos, só controlam bem a alimentação das crianças. Elas comem bem pouco açúcar, o que achei ótimo e elogiei.

Aliás, comi torta de ruibarbo, que nunca tinha provado. É uma torta, assada, normal, com os talos do ruibarbo, uma planta esquisita parecida com a couve. Detalhe que as folhas são tóxicas, mas o talo, não. A torta é boa, mas não super do meu paladar.

Ruibarbo

Resumindo, a conversa foi bem boa. A casa era do avô do anfitrião, imigrante da Alemanha. Era parte de uma fazenda de maçãs, que já não existe mais. Ela passou umas semanas no Peru, fala umas frases em espanhol. Os dois são bem cristãos, mas dos bonzinhos, que entendem que Harry Potter não é demoníaco nem ficam pregando o tempo todo. Ou seja, não são evangélicos brasileiros (se você leu isso e se sentiu ofendido, provavelmente você faz parte do grupo que enche o saco, sinto te dizer. Aliás, mentira, não sinto, não. Alguém tem que falar. É igual quando falam que homem hétero é uma merda – eu sei que é, mas sei que estou no grupo dos que não são, saca?). Ele estudou na Conestoga também, é eletricista e disse que é MUITO BOM lá pra esse tipo de coisa (os “trades”, ou ofícios). Fico super contente, porque vou aprender um ofício também, já que tou virando mocinho. Também me falam que aqui é meio comum chegar em -20C no invernão, até mais baixo, mas que também chega a 30C de vez em quando, no verãozão. Não curtiram a cachaça que eu trouxe, porque acharam que seria doce, mas amaram a paçoca e o café.

Agora, a melhor notícia: não tem movimento neonazi na região. Deve ter uns perdidos, mas não existe o movimento. Eles nem sabiam o que era neonazi direito (choque), tive que explicar. Me disseram que vários amigos também usam a cabeça raspada e não têm problemas. ÓTIMO, porque eu não queria ter que deixar cabelo crescer pra evitar merdas pro meu lado.

Aí a pequena já tava com muito sono, a mãe foi levar pra dormir. Ajudei o pai a arrumar as coisas e nos despedimos, e agora tou aqui escrevendo. Resumão, claro.

P.S. A aranha voltou, tou achando que não fui picado por ela, não. Fui olhar melhor a perna e nem marquinha de mordida tem. Pra quem não sabe, aranha não pica, ela morde. Vou tentar hastear uma bandeira branca.

P.P.S. Não saí com a Helô hoje – era bem mais longe, continuo não querendo forçar a barra.