Hoje de manhã, fui ao Walmart, onde tem um quiosque da Koodo, operadora de celulares, pra finalmente ter um número canadense. Era mais barato pela internet, mas demora uns dias e eu não quero enviar nada pro Airbnb – e precisava dele logo, pras pessoas poderem me ligar e eu poder entrar em contato pra ver tudo.
Vou na Helô até lá, apreciando a compra da bomba pra encher os pneus, chego e tá bem vazio, comparado com antes. Prendo na mesma placa, entro e vou direto procurar alicate e tesoura. Encontro mais ou menos fácil, aproveito pra olhar os papéis de desenho, que estavam na mesma seção das tesouras, e descubro que são de boa qualidade e MUITO baratos. Aí vou no quiosque.
Sou atendido por um rapaz esquisito com muita caspa, mas bem simpático e falante. Ele pergunta dos documentos, conversamos um pouco e eu preciso do Pecado pra poder assinar. Eu digo que fui orientado a nem andar com ele e ele explica que, como eu acabei de chegar, é o único jeito de pegar meu score de crédito e de comprovar umas coisas. Faço cara de “ferrou”, digo que não tá comigo e ele diz que precisa. Eu prometo voltar logo, saio, pego a Helô e pedalo de volta até o quarto. Pego o documento, ponho na mochila, deixo os alicates e tesoura, que não sou tão trouxa, e volto pro Walmart.
Em tempo: score de crédito, ou “credit score”, é um jeito que as empresas encontraram de saber quem é bom e quem é mau pagador. Elas compartilham dados com uma central sobre seus pagamentos, atrasados ou em dia, quanto você pega de financiamento de qualquer coisa e como paga, quanto dinheiro deve, essas coisas. Tipo um Serasa, mas pra todo mundo. Quanto mais alto seu score de crédito, mais fácil é você conseguir mais financiamento ou ser aprovado pra outras coisas. Não é exatamente relacionado a quanto você tem ou quanto ganha, mas a quão bem você paga o que deve. Parece mais ou menos justo, mas não vou entrar nessa discussão. A título de curiosidade, meu score de crédito é 665 de um máximo de 900. Isso quer dizer que estou entre os 20% com pior score, mas quase chegando no próximo limiar, que é 693. Isso só melhora com o tempo, pagando coisas em dia etc.
Walmart, placa, tranca, entro e vou falar com ele. Por algum motivo, o rapaz se sente super confortável comigo e começamos a conversar e falar bobeira enquanto ele vai fazendo o cadastro. Ele comenta do meu nome comprido, explico que é porque meu pai queria muito que o nome Castor fosse pra frente. Joke’s on him, nem eu nem minha irmã vamos passar esse nome pra frente. Aí ele comenta que o meu último nome, Amaral, é igual ao de um colega dele. Pergunto se é brasileiro: não, é português. Aí explico que eu sou essa mistureba: um nome é árabe, outro é judeu, outro é super português. Ele ri e continuamos conversando. Por algum motivo ele me conta que só conheceu o pai quando completou 21 anos. Pergunto se estão se dando bem, ele se empolga, diz que sim, que conheceu a família nova do pai e que se dá bem com eles, e que vai pra lá (acho que é Manitoba, a província vizinha) no verão. Pergunto quanto tempo é de viagem: umas 22 horas dirigindo, ou duas horas de avião. De novo: vinte e duas horas dirigindo sem parar. A viagem leva dois dias, porque precisa dormir no meio, ou vai de avião. Ele continua o cadastro e pergunta se já pedi cartão de crédito, que deve ser difícil com meu score de crédito, e eu digo que já tenho, só estou esperando chegar – ele fica impressionado. Aí o sistema dele diz pra me oferecer um celular novo e ele fica mais impressionado ainda. Na verdade, impressionado fico eu: se tenho score tão baixo, sem histórico nenhum, nem o cartão de crédito chegou ainda, como estão me oferecendo tanta coisa?! Enfim, chip ativado, ele me liga pra confirmar, eu agradeço e me despeço, mas desconfiando que ele queria muito propor uma cerveja. Não propôs, té mais.
Pulo na Helô e volto pro quarto, de novo. Saio pra comer (Tim Hortons, de novo) e peço um sanduba (de novo) de presunto com bacon e queijo. Pensa num negócio oposto de kosher/halal – é esse sanduíche. Não sendo judeu nem islâmico, comi tudo e estava bem bom. Aí fui levar um celular que foi comprado nos EUA e deu problema no Brasil numa assistência técnica super pertinha daqui. Fui atendido por dois indianos, perguntas normais, tem que deixar pra diagnóstico, 25 dólares pra saber qual o problema.
Os indianos (e a maioria dos imigrantes que vi até agora) são pessoas extremamente limpas e bem arrumadas. Elas não são luxuosas – elas são limpas. Elas não usam marcas caras (ou pelo menos nenhuma que eu reconheça, o que deve ser 99% delas) – elas são asseadas e claramente se preocupam com a aparência delas. Por outro lado, vi muitos canadenses (estou presumindo que são canadenses, porque são bem brancos e aqui a maioria é descendente de alemães e ingleses) desleixados, sem o menor cuidado, cheirando a suor, sujos, mesmo. “Ai, você tá sendo limpista” – tou, sim. Manter-se minimamente limpo não é tão difícil, ainda mais aqui. Não é questão de aparências, é questão de higiene.
(Estou com machucados na mão – os punhos nos chifres da Helô (chama punho o negócio de segurar?) estão bem ressecados e duros, e na parte em que apoio a mão tem vários ressaltos desconfortáveis. Projeto pra quando começarem as aulas: punhos de madeira polida.)
Enquanto voltava, recebi uma ligação, mas não ouvi e só vi que estava perdida. Ligo de volta e é Leslie, o cara da administradora de um dos apartamentos. Digo que gostaria de ir lá ver, ele pede pra esperar que vai ver se alguém pode abrir pra mim, o zelador pode, combinado. Pego o ônibus até lá, desço e ligo pra ele. O prédio parece legalzinho, de frente. Ele diz pra eu descer a entrada pra carros e ir até o último prédio – ah, são três, um do lado do outro. Quando estou chegando no terceiro, tem duas pessoas sentadas numa mesa num pátio no fundo. Elas me encaram, olhando feio, e vêm mais perto ver o que tou fazendo ali. Aí olho pra cima e tem um cara me olhando. Começo a subir as escadas, seguindo as instruções do Leslie, e o cara diz que tava me esperando. Falo isso pro Leslie e ele pede pra eu ligar depois, se estiver interessado.

Bom, subindo as escadas, sem entrar em lugar nenhum, já sinto cheiro de sujeira, suor e fritura velha. Mal sinal. As escadas precisam urgentemente de raspagem e pintura, num nível em que as tábuas que formam as escadas estão apodrecendo já. Pergunto pro cara, que tinha algum problema de fala, como era o bairro, se era mais ou menos tranquilo, e ele fez MUITA cara de “nem a pau”, e depois disse que era mais ou menos, que todo lugar tem inquilinos-problema. Falei que era bem verdade, em todo lugar, e ele abre a porta do apartamento pra mim. Enquanto ele abre a porta, duas pessoas começam a discutir aos berros embaixo, batendo porta do apartamento e depois batendo porta do carro.
O apartamento em si é ok, mas está sujo e mal cuidado. Precisa de pintura, precisa de reparos de verdade e não da maquiagem que vi em vários lugares, precisa urgente de limpeza. O espaço é bom, até, o banheiro é bem pequeno, mas tem o essencial. Verifico algumas torneiras, alguns interruptores, tudo parece funcionar. Tem alguns armários embutidos pequenos, mas já seria uma grande ajuda. Nisso vamos conversando, comento do apartamento, falo de São Paulo, do Brasil, que o trânsito que tinha ali me parecia bem tranquilo e tals. Aí ele diz que vai me levar no outro apartamento, o do porão.
(Em tempo: vários apartamentos aqui são meio no subsolo – o que eu gosto bastante. As pessoas não gostam muito deles porque suas janelas ficam na altura do chão, então eles costumam ser um pouco mais baratos. Eu gosto porque eu adoro ficar no subsolo. Sim, igual hobbit.)
Ele abre uma porta de aço (sim, de aço) e passamos por duas máquinas de lavar grandes, mas parecem das mais baratas, funcionam com moedas. Pergunto se são as do prédio. Ele diz que sim, e que tem mais duas no prédio do meio (ou seja, são quatro máquinas pra todos os apartamentos). Abrindo a porta, o apartamento é claramente muito melhor. Foi reformado, um teto novo, refeito, bonito, luminárias novas, piso novo, armários novos na cozinha. Aí vejo que falta uma porta bem embaixo da pia e comento: ele diz que o cachorro do inquilino anterior ficava arranhando a porta (provavelmente tentando mexer no lixo) e que tiveram que tirar, mas que ele achava que iam colocar outra. Aproveito pra olhar embaixo da pia: tudo preto de mofo. Vou olhar os outros cômodos: muito melhores que o primeiro, mais bem distribuídos, banheiro um pouco maior, mas tudo bem sujo e ainda precisando de alguns consertos. Abro umas gavetas: sujas por dentro, com manchas sei lá de quê. Nem comento. E continuamos conversando.
Daí ele vira e diz que não devia me falar isso, mas que o terceiro prédio subindo a rua tinha apartamentos muito melhores e mais baratos, pra eu falar com o Leslie que queria ver esses outros, mas pra não contar que ele tinha falado. Aí eu disse: “Como eu vou falar pra ele que quero ver os outros sem contar que você me disse?” “Sei lá, coloca no meio da conversa.” Amigo, você não sabe bem como conversas funcionam, pelo jeito.
Ele solta outra bomba: “O problema aqui é no fim de semana, que todo mundo quer fazer churrasco. Aí eles colocam a churrasqueira bem aqui na frente dessa janela e ficam até tarde.” Pergunto se ele tá sendo literal e ele diz que sim, que é na frente da janela, do outro lado da calçada que passa pela outra lateral do prédio e que o prédio do lado faz a mesma coisa, que todo mundo que mora ali reclama disso. Aí, a bomba nuclear: ele me mostra que toda hora alguém invade ali pra roubar coisas, inclusive pra estourar as máquinas de lavar e roubar os componentes do painel!!! Ele puxa o painel de uma máquina e tá vazio. Bizarro.
Cara, você é legal demais, brigado, mesmo. Eu agradeço muito, especialmente pelas dicas, digo que não vou falar nada disso pro Leslie e me despeço. Ele ainda comenta que o prédio é bem pra “working man” – um jeito sutil de dizer “classe baixa”, e reforça pra eu ir no outro. Agradeço de novo e vou até lá. Tinha um telefone, liguei, mas o cara me disse que já tinha alugado tudo. Comentei que ainda tinha placa e faixa, com cara de gasta, inclusive, e ele disse que tinha alugado o último hoje. Agradeço, me despeço e penso “Sei! Vividão, meu camarada! Tou sacando que você pescou meu sotaque.” Mas problema dele: perdeu dois inquilinos ótimos, silenciosos e que nem fritura fazem (exceto em situações muito especiais, claro). Quatro, com os gatos (daqui pra frente, bolotas peludas).
Fico andando de um lado pro outro na frente do ponto, esperando os ônibus (que são muito espaçados e dão muita volta aqui. Aliás, só os esquisitos e os pobres pegam ônibus por aqui, pelo que tenho percebido) e cantando baixinho. Quem passa ouve e aperta o passo. Gente boba, tou só cantando, nem comecei a pregar a palavra de Satã ainda. Ou canto muito mal, é sempre uma possibilidade.
O ônibus vem e é a mesma motorista (sim, mulher) que me trouxe prali. Cumprimento com um “Oi de novo, tudo bem?” e ela pergunta se ainda tou bem (tinha perguntado na primeira vez). Vou sentar e só tem lugar do lado de alguém ou numa cadeira esquisita que fica de lado, atrás de dois assentos. Pois bem, sento sozinho e me arrependo na hora: eu não caibo direito! Meus ombros não cabem bem e fico meio de lado. Mas não quero sentar do lado de ninguém, então fico na minha, observando as casas e as pessoas.
Desço na central, dessa vez sem puxar a cordinha, e procuro o próximo ônibus pra voltar pro quarto. Entro e pergunto pra motorista se aquele é o que quero e ela é LINDA. Pequena e delicada e muito esquisito uma pessoa tão pequena dirigindo um ônibus. Ela diz que sim e eu agradeço e explico que acabei de chegar, por isso a pergunta esquisita. Ela diz um “Ah, tá” bem seco, eu passo o cartão, torcendo pra ainda estar valendo a integração (não estava) e vou sentar atrás.
Essa mina corre pra cacete! Ela parece impaciente e com raiva do mundo. Te entendo, moça. O mundo tá foda.
No caminho, que atravessa o centro de Kitchener, reparo bem nas casas e nas pessoas. Várias pessoas pálidas, olhar perdido, magras, nas calçadas – me parecem, mas posso estar errado, dependentes químicos – todas brancas. Uns caras jogados na frente de uma casa meio caindo aos pedaços, meio com cara de não tenho nada pra fazer. Umas casas dilapidadas ao lado de casas super bem cuidadas. Um outro andando de casaco fechado, com capuz e um lenço ou bandana cobrindo o rosto. Ou ele tava com muito frio ou tava fazendo merda. Às quatro e pouca da tarde, no centro de Kitchener.
Assim, tá LONGE do centro de São Paulo, e mais ainda do centro do Rio. Mas fiquei impressionado mesmo com os contrastes super próximos.
Chegando no meu ponto, agradeço à motorista linda e raivosa e sou ignorado.
Volto pro quarto e a anfitriã me chama – ela estava cozinhando, me oferece macarrão com chili, pergunta se gosto e digo que não sei, mas que aceito (como já falei, provar provo tudo). O filho mais novo, que ainda não fala, mas entende, fica tímido e se esconde atrás da mãe. Falo com ele, sorrindo, ele sai de trás, estica um dedo pra mim. Eu estico um dedo de volta e encostamos dedos. A mãe comenta que é “uma distância segura” e rimos. Aí ele me dá o ursinho de pelúcia. E depois a garrafa d’água. Aí vem a menina, menos nova, e começa a conversar. Ela aponta pra minha cabeça e diz, em tradução livre, “Minho pai fez um cabelo de corte”. Eu peço pra ela repetir, ela diz a mesma coisa, aí eu pergunto se é igual ao meu. Ela fica na dúvida e eu digo que não deve ser, porque eu não tenho cabelo, e ela só diz: “É”. Aí eu pergunto o nome dela (é Evelyn) e ela diz “Meu nome é Princesa Elsa”. A mãe ri e diz que ela nunca disse isso. Eu digo: “Seu nome é muito bonito, vossa alteza” e faço uma mesura. Sim, na cara de pau. A menina quase explode de fantasia e a mãe ri um monte. A mãe corre pra dentro, que ainda está cozinhando o macarrão, e eu fico com as crianças. Princesa Elsa vai andar de triciclo e o pequeno, cujo nome continuo sem saber, fica apontando pros pássaros. Pergunto se ele quer ver os passarinhos, a mãe diz que ele vai pra rua atrás se deixar, e o moleque SE JOGA NO MEU COLO. Seguro e coloco de volta no alpendre, a mãe sai com um pote de macarrão, a Princesa me chama e a coisa vai ficando mais caótica. Heróicos esses pais, sério mesmo. O garoto desce as escadas de costas e vai atrás dos passarinhos. Fico vigiando enquanto a Princesa vai atrás do irmão e corre pra frente da casa. A mãe chama e ela nem tchuns. Vou atrás pra olhar e ela tá mexendo numas plantas, pega uma flor e traz pra mãe. Aí comentamos da Helô, conto que é de 77, ela fica surpresa, e sugere que guarde na garagem deles, que é mais seguro, que esse bairro é complicado. Esse. Bairro. É. Complicado. Moça, seu bairro parece que saiu de filme, sem zoeira. Mas tudo bem, não vou discutir. Aceito e ela vai abrir um espaço na garagem, mas fica voltando pra vigiar o pequeno. Me ofereço pra arrumar o espaço ou pra vigiar o pequeno, e ela pede pra eu vigiar. Chamo pra junto, ele vem (crianças e bichos gostam de mim, ainda não sei o motivo). Aí falo do ursinho no chão, ele pega, me dá, toma de volta, deixa no chão. Nisso o marido chega.
Eu acho que já disse que ele não vai muito com a minha cara. Ele chega olhando feio, mal fala comigo. Talvez seja só tímido. Pergunto se são só eles na casa, que eu ouvi água correndo enquanto eles viajavam. Ele explica que tem uma privada vazando, que eu devo ter ouvido a caixa enchendo, e eu concordo, porque era esse mesmo o barulho. Ele diz que vai trocar a válvula, igual no “meu” banheiro, que também tá vazando. Aí falo também que quando eles tomam banho dá pra ouvir água pingando, e ele diz que não é nada, que já ouviram, ele procurou e não encontrou nada. Digo que tudo bem, claro, só queria ajudar. Ele parece ofendido. OFENDIDO. Amigo, não tou te julgando, nem sua família, nem sua masculinidade. Deve ser foda demais fazer tudo que vocês fazem e cuidar dos dois, que são muito ativos. Só queria ajudar.
Aliás, último comentário desse post imenso: tenho muito a impressão que os brancos são muitos esquisitos aqui. Muitos desleixados, mas, ao mesmo tempo, com uma noção de merecimento totalmente bizarra. Óbvio que não são todos! Mas muitos, pelo que vejo. É meio uma ideia de “sou branco, logo sou superior, logo não vou trabalhar nessa porcaria de café”, mas vive com auxílio do governo, em condições ruins, sempre no limite dos gastos. Bem parecido com EUA nesse sentido.
Só pra constar, estou realmente generalizando. Vejo muitos que estão ralando bastante, mas ainda não vi um negro/indígena/indiano/etc lixoso como vi os brancos.
P.S. Uma aranha acaba de atravessar minha escrivaninha, subir no meu computador, andar na minha direção e sair correndo quando voltei a digitar. Por que bichos sempre vêm em mim?