Hoje resolvi fazer pouco na rua, pra poder fazer bastante “em casa”. Acordei umas nove, tranquilo, e fui até o Walmart (sim, eu sei, satânico, paciência). Fui na Helô, claro, com o objetivo de comprar pouca coisa. As ruas estavam tão vazias quanto no sábado, mesma coisa. Na ida, toquei a campainha e um homem me deu passagem, me olhando com cara de poucos amigos. Agradeci e passei. Continuo atraindo uns olhares, mas nada assustador, também.
Chegando no Walmart, primeiro problema: eles não têm estacionamento pra bicicleta. Vou chamar de Estacicleta, porque já passou da hora de isso ter um nome específico. Rodei, rodei e nada. Aí vi uma outra bicicleta parada, presa numa coluna. Beleza, não tem estacicleta, mesmo. Decidi prender numa placa de PARE que parecia estar meio solta, mas era pesada e bem na frente da entrada. Prendi a Helô nela e entrei no Walmart.

Logo de cara tinha um rapaz com uniforme do Walmart. Perguntei se não tinha estacicleta, ele disse que não, mas que eu podia prender onde tivesse alguma placa ou grade. Aí ele perguntou se eu tinha uma trava e eu disse que sim. E aí – atenção – ele falou que bom, perguntou onde coloquei, que EU PODERIA DEIXAR NA FRENTE DA LOJA QUE ELE OLHAVA PRA MIM!!! Sério, impressionado. Agradeci muito, mostrei onde estava e fui procurar o que precisava.
Logo de cara encontrei leite – dois litros, desnatado, uma caixa gigante. Depois, pão. Fui cheirar o pão (ainda fechado no saquinho, mas dá pra sentir um pouco pelo lugar que fica preso) e um casal passando ficou olhando com cara de ué. Fiz um “uau” baixinho pra não parecer totalmente louco, coloquei o pão na cesta e continuei. Achei a parte de bicicletas (lembra que comentei que os pneus da Helô não estavam bem cheios?) e fiquei procurando as bombas – mas só tinha aquelas bem grandes, de chão. Olhei em tudo e nada. Aí do nada um cara passa do meu lado, rabo de cavalo e estilo maconheiro gente boa, e me diz que na sessão de crianças tem muito mais coisas pra bicicletas, que é super esquisito colocarem uma parte lá e uma parte aqui. Agradeci, dei risada, e ele falou que resolveu comentar porque também ficou procurando mais coisas por ali. Ri mais alto e agradeci e fui. Eu precisava da bomba (achei, pequena, pra levar presa no quadro) e de uma ferramenta pra soltar os parafusos, subir o selim e ajeitar o guidão (ou guidon, como preferir). Aliás, esquece: o nome disso na Helô é chifres, porque ela é satânica. Então, precisava de uma chave pra ajeitar os chifres da Helô, que estão meio baixos pra mim, além do selim. Olhei, olhei, e achei dois conjuntos “de campo” – ferramentas pequenas pra levar consigo e fazer pequenos reparos de emergência. Peguei o mais completinho e que tinha a chave que não parecia que ia estourar minha mão de tão pequena e fui atrás de uma calça de pijama, que não trouxe nenhuma.

A parte de roupas é um bocado confusa, tudo meio misturado, mas acabei achando uma calça. Fui direto na G, porque tudo que uso no Brasil é G ou GG (especialmente camiseta, que G parece baby look e não gosto de exibir a barriguinha assim). Aí achei A CALÇA! Nem vou comentar, olha foto embaixo:

Aí fui ver café, que tinha esquecido. E fiquei mais perdido, porque só tem especificação de torrefação, mas nenhuma de gramatura. Olhei, olhei, pesquisei, nada. Precisava que fossem um pouco mais grossos, por causa da cafeteira, mas acabei decidindo por um qualquer que era mais barato (e marca do Walmart). Aí fui pro caixa.
Olhei o self-checkout, que é basicamente um caixa que você mesmo passa as coisas e paga, mas preferi ir no caixa humano, mesmo, inclusive pra tentar garantir uns empregos. O cara era indiano e falava super rápido, tive dificuldade pra entender, mas conseguimos. Perguntei se ele por acaso sabia se aquele café serviria pra cafeteira francesa e ele me olhou com cara de paisagem. Aí eu expliquei que precisava de moagem mais grossa e ele disse que não sabia e pediu desculpas! Falei que não era nenhum problema, só perguntei caso ele soubesse, e ele disse que, se não servisse, como é marca do Walmart, eu poderia levar de volta e receber meu dinheiro. Não vou fazer isso nem a cacete, porque certamente vai ser jogado fora e posso tomar café com um pouco de pó se precisar, paguei e fui-me.
Lá fora, sorri pra Helô e ela sorriu pra mim, destranquei e saímos do estacionamento pra pegar a rua de volta pro quarto. No caminho, passei por um casal de idosos asiáticos, toquei a campainha, eles não ouviram, resolvi descer pra rua e subir logo em frente. A senhora ouviu e pediu desculpas (é verdade a história que o povo aqui pede muitas desculpas, pelo visto), eu disse que não tinha nenhum problema, sorri pra ela e continuei. Cheguei de boas no quarto, já me acostumando a andar de bicicleta de novo, guardei tudo e fui comer no Tim Hortons de novo.
Quem me atendeu foi o mesmo indiano que me ajudou da primeira vez e ele já deu um sorriso de “lá vem o doido”. Perguntei se o wrap era tipo um shawarma e ele disse que sim. Pedi o wrap de frango (grelhado, que é menos gorduroso) e fui esperar. Nisso, um cara começa a arrumar uma confusão com a moça do balcão, praticamente gritando, acusando a moça de já ter cuspido no café dele e sei lá mais o quê. Ela respondeu que nunca faria isso e tals. Aí ele diz que vai ficar sentado lá esperando outro café e ela responde na lata “Você pode ficar sentado lá que ninguém vai te atender, moço” e ele sai batendo pezinho. Detalhe: branco com cara de rei na barriga, trashy.
Aproveitando, existe um termo em inglês que é “white trash” ou “trailer trash”, que é o derivado do primeiro, que é literalmente “lixo branco” ou “lixo de trailer”. Não são termos legais, porque, no fim, são xingamentos raciais/étnicos/classistas, então, só pra deixar bem claro, não estou dizendo que esse cara e as minas do outro dia sejam “white trash” nem “trailer trash”, mas que são pessoas “trashy”, “lixosas”, “pessoas de bem”. (Se você acha que dizer “pessoa de bem” hoje no Brasil ainda é elogio, pode parar de ler por aqui, sem problema que vou entender e nem vou sentir sua falta.) Aliás, agora o novo termo é “lixoso”. Sim, cheio dos neologismos, pra jogar na cara dos professores de literatura que me proibiam de fazer isso “porque você não é Guimarães Rosa”. :D
As duas atendentes riem entre si e me veem olhando pra elas, sorrio pra mostrar que certas estão elas e logo recebo meu wrap de frango. Um defeito do Tim Hortons: a única bebida gelada é refrigerante. Tudo bem, sento pra comer e logo volto pro quarto, pra cuidar da Helô.
Chegando, abro a bomba e percebo que não vieram parafusos pra prender no quadro. Percebo também que não tem como prender esse diacho de jeito nenhum. Vídeo no Youtube e o cara mostra que os quadros hoje vêm com dois parafusos já presos neles exatamente pra isso e pra suporte de garrafa d’água. Mas a Helô é de uma outra época em que isso ainda não existia. Meh, sem problema. Depois faço uns furos e coloco rosca pra prender isso. A bomba é leve e posso levar na mochila. Encho os pneus um pouco mais, com medinho de estourar, mas nada acontece. Experimento e parecem bem melhores, inclusive mais leve pra pedalar (não falei antes, mas a Helô tem cinco marchas. Gosto das cinco marchas, entre outras coisas, porque cinco é um número primo. Sete também seria legal). Aí pego as chaves pra prender o suporte da tranca no quadro. Depois de muito olhar, pra lá e pra cá, decido prender bem no meio, já que o quadro tem dois canos, e assim não vai atrapalhar em absolutamente nada. Solto os parafusos já com a ferramenta nova e prendo. Fica ótimo.
Aí vou ajeitar o selim e não consigo! A chave não entra ou fica frouxa. Tento outros lados, e nada. Aí olho pra chave e percebo que ela usa o sistema métrico (bendito Canadá!) e a Helô é idosa, então deve usar o sistema imperial ainda. Mesma coisa pros chifres – a chave não prende o suficiente. Rindo de mim mesmo, dou umas voltas pela calçada pra testar a posição da trava e os pneus de novo, prendo a Helô na grade e depois vou ver se consigo trocar os parafusos, porque não quero comprar chaves que só vão servir pra isso e depois deixar o kit de primeiros socorros da Helô inútil em casa.
Volto pro quarto e tiro as etiquetas da calça da Guinness. Reparo que tem muito pano nessa calça. Visto e ela fica, digamos, enorme.


Vou lá trocar, paciência! Espera, mas eu já tirei as etiquetas. Ih, já rasguei o recibo, piquei em pedaços pequenos pra colocar na compostagem aqui do Airbnb… Beleza, tesoura adicionada à lista de compras, porque larga eu até gosto, pra ficar em casa, mas comprida não rola!
Assim, amanhã volto ao Walmart – preciso ainda de alicate, tesoura e de um número de celular daqui, que o “internacional”, como já disse, é dos EUA…
Hoje também vi apartamentos, muitos apartamentos, e entrei em contato com mais de dez. Perdi a conta, de verdade. Meu favorito é um que tem três quartos (precisamos de um, mas por que não se tá barato?), fica numa rua meio longe de avenidas e tem até um microquintal. Também tá na faixa dos mais baratos. Certamente tem alguma coisa muito errada com ele, mas tou torcendo pra responderem e poder ir ver logo.