Diário do front 03 – Sábado – 15/06/2019

Os donos da casa já foram viajar, então acordei num silêncio assustador. Uma maravilha. Acho que se o vizinho espirrar, vou ouvir. Agora eu finalmente entendi o que a anfitriã disse várias vezes sobre as crianças serem super barulhentas – é questão de comparação, moça. Experimenta morar no Rio e acordar com o funk do vizinho de um lado, super alto, o pagode do outro, mais alto ainda, o povo discutindo aos berros e o trânsito. Ou em São Paulo, com o sertanejo do vizinho de um lado, super alto, o gospel do outro, mais alto ainda, o povo discutindo aos berros e o trânsito infernal.

Fui lavar a louça e percebi que a esponja não estava lavando bem. Não conseguia entender o motivo. Coloquei mais detergente e nada. Aí finalmente me dei conta do erro: como estou usando a pia do banheiro, estava usando sabonete de mão ao invés de detergente! Rindo de mim mesmo, me dei conta do motivo: em SP a gente tinha uma bombinha com detergente, parecida com a que tem aqui pra sabonete. Troquei pra detergente e tenho louça limpa de novo.

Do lado esquerdo, sabonete e atrás dele, detergente (verde).

Preciso ter uma conta no banco, naturalmente, e me recomendaram dois: Tangerine, que é tipo o Nubank (S2), e o Scotiabank, que é um banco grande (e dono do Tangerine). Fui ver no Tangerine, mas não dá ainda – precisa ter endereço fixo, um monte de coisas. Scotiabank, então. O mais próximo ficava a 35 minutos andando ou 32 minutos de ônibus. Sim, intervalo entre os ônibus é grande. Vou de a pé.

As ruas pareciam mortas. É sábado, quase não vi ninguém. Uma ou outra pessoa cuidando do jardim, passeando com o cachorro, mas dava pra contar nos dedos, sem usar os pés. Passei por uma “garage sale” – coisa impensável no Brasil. Pra quem não sabe, é basicamente “família vende tranqueira que não quer mais no jardim da casa”. Não parei, mas vi que tinham várias bicicletas e fiquei tentado. Mas estava indo ao banco, essas coisas. Atravessei um parque pequeno, super bonitinho, com um rio e patos. Ao lado da ponte, uma placa: “Atenção! Esta ponte pode ser inundada a qualquer momento, sem aviso.” Do outro lado, outro aviso: “Atenção! Este parque não recebe manutenção preventiva durante o inverno. Acidentes não são responsabilidade do município”. Uau.

Quack! ou Coin coin! Porque são patos canadenses e bilíngues.

Oficialmente avisado dos perigos de atravessar a ponte, continuo meu caminho e logo chego ao banco, que fica perto de uma Goodwill (tipo uma loja de usados – as pessoas doam coisas que não querem mais, as lojas vendem e o dinheiro é usado pra caridade), entro e fico atrás de um indiano, que me olha meio torto. Atrás de mim, outro indiano. Eles conversam entre si e percebo que separei os amigos. Cumprimentei o de trás, ele não respondeu, então foda-se, fica aí atrás, mesmo, trouxa. Detalhe: não tem detector de metais, nem guarda. Logo fui atendido e a moça pediu pra eu esperar que a Lucy me atenderia pra abrir a conta. Um minuto depois, vem a Lucy, com sotaque forte. Conversamos um pouquinho e ela é colombiana, mora no Canadá há treze anos. Me levou pra sala dela pra sentarmos e abrir a conta.

Acho que rolou um entendimento latino instantâneo. Eu precisava de endereço fixo, mas ela aceitou o do Airbnb quando expliquei que precisava da conta pra poder alugar um lugar. Eu precisava de um telefone canadense (o meu é “internacional”, ou seja, é estadunidense e da Flórida). Ela tentou ligar, mas não completou. Nem chamou. Já fiquei preocupado, mas ela aceitou deixar sem e pediu pra eu ver um o mais rápido possível e trocar no site do banco. Prometi que faria, assim como o endereço, assim que tivesse um meu fixo, mas que o pessoal do Airbnb é super simpático e tenho certeza que receberiam correspondência se atrasar. Ficamos conversando um tempão, ela fala da família, que a iam visitar no Canadá, mas que recusaram o visto pra eles, o quão chateada estava, e que iam então pra Europa. Pra mim, o Canadá é que saiu perdendo nessa. Ela veio pro Canadá há treze anos pra estudar na mesma faculdade que eu e acabou ficando. Achei bem legal e bom sinal. Perguntei sobre neonazis e ela disse que não tinha percebido nada do tipo, aí expliquei o motivo da pergunta e ela disse que nunca percebeu nada assim, mas que sente um preconceito vindo dos canadenses por ela ser latina. Menos mal, achei. Deve ter extrema direita, mas não deve ser muito forte por aqui. Depois de um tempão conversando, assino os papéis e já saio com o cartão de débito e uma conta nova, bem contente que consegui sem muita dificuldade. Pequenos momentos de felicidade de ser latino.

Resolvo passar na loja de bicicletas usadas que tinha visto no dia anterior, mas vou de ônibus mesmo, que meus pés já estavam cheios de bolhas. Ando até o ponto, ruas meio vazias, e chego bem no momento em que o ônibus vinha. Ainda bem, porque o próximo demoraria meia hora. Tem uma placa dizendo pras pessoas descerem por trás, mas vejo gente descendo pela frente. Perto do meu ponto, resolvo perguntar, bem no sinal, e o cara me diz que não posso descer ali. Explico que não queria descer ali, mas pergunto se devo descer pela frente ou por trás. Um deles me diz pra descer por qualquer lugar, apesar da placa, e o outro diz que o certo é por trás. Já estando ali, desço pela frente, rapidinho, e ando até a loja. Próxima vez desço por trás, certamente.

Lá sou muito bem recebido. O dono da loja se chama Bill e conversamos um pouco. Ele me mostra as bicicletas usadas e tem uma linda, parece ótima, é a mais barata, mas custa 360 usada! Salgado pra cacete. Enfim, continuamos conversando e ele me dá muitas dicas e informações importantes. Entre outras, que é lei que as bicicletas tenham uma campainha. Devia ter comprado mais uma em Amsterdam. Outra coisa é que os ônibus têm um rack na frente, pra duas bicicletas. Aproveitei e perguntei se era muita loucura querer ir de bicicleta pra faculdade. Ele disse que ele vem e volta de Waterloo todos os dias e leva uns vinte minutos. Até a faculdade é um pouco mais longe, deve dar uma meia hora. Não parece impossível. Pergunto se tem muito furto de bicicleta. Ele faz uma careta e diz que infelizmente sim, que é muito comum e é o tipo de furto que mais acontece aqui. No fim, agradeço, apertamos as mãos e eu decido ir até uma outra loja que achei no Google, porque 350 dólares é muito dinheiro.

(Tati descobriu que nos enganamos sobre o tamanho da cidade. Kitchener faz parte de um trio de cidades aqui, com Waterloo e Cambridge. As três JUNTAS têm 470,000 habitantes. Kitchener tem uns 220,000. O espaço urbano das três se sobrepõe. Tipo a grande São Paulo, mas menor que só a cidade de São Paulo. Aliás, menor que Guarulhos, menor que São Bernardo, menor que Santo André, pouquinho maior que Diadema.)

Passo pelo Mercadão de novo e subo um caminho lateral entre árvores pra chegar na Recycle Cycles (eu traduziria como Recicleta) – sou atendido pela Parker, uma moça gordinha, baixinha, alternativona e absurdamente simpática. O santo bate de cara e ela me explica que a Recicleta é uma oficina comunitária gratuita. Eles ensinam manutenção de bicicletas, revendem bicicletas usadas, emprestam as ferramentas pra usar lá e funcionam à base de voluntários e doações. Acho tudo incrível e já sou convidado pra ser voluntário. Pergunto se eles têm alguma bicicleta no momento e ela dá um sorriso sem graça e me diz que só têm uma bem velhinha, mas charmosa. Ela aponta e é uma bicicleta BEM velhinha e MUITO charmosa. Apaixono, mas fico muito na dúvida, porque coisas mais antigas assim costumam ter problemas. Parker me assegura que eles fizeram uma revisão e que ela está boa, apesar da idade. 65 dólares. Aí eu digo pra ela que queria muito levar, mas que estou sem dinheiro vivo no momento pra isso, e ela diz que eles não fazem isso, que é arriscado, e pede desculpas, mas que eles aceitam cartão. Fico confuso um momento e cai a ficha. Digo que não estou sugerindo de forma alguma que eles me deixem levar e pagar depois, só que preciso muito comer porque não comia nada desde o café. Ela ri aliviada e pergunto se podem guardar. Ela diz que podem guardar até terça à noite (é sábado agora), mas que segunda não abrem. Peço pra guardar, mas prometendo comer rápido pra tentar pegar antes de eles fecharem – afinal, quero voltar já de bicicleta pro quarto e ter domingo pra dar um rolê.

Saio o mais rápido que posso com meus pés bolhentos e vou procurar onde comer. Paro na frente de uma lanchonete vietnamita e faço cara de “hum, interessante”. Um casal passa por mim, acho que africano, e comenta alguma coisa, e ela ri. Acho que estavam meio “olha o branco fazendo cara de nojinho”. Joke’s on you, buddies – entro na lanchonete e pergunto pra moça o que ela sugere. Na lata ela diz “porco barbecue”. Aceito a sugestão, mais um rolinho e uma água (que é um combo). Ela me dá o rolinho, que já vou comendo (delícia), tomo um pouco de água e espero meu sanduíche. Quando vem, bem servido, sento pra comer e sinto cheiro de pepino. Eu odeio pepino. Pepino não é comida. Pepino é um erro da natureza. Mas resolvo morder mesmo assim, porque já pedi, já tou ali, e devia ter perguntado antes, agora aguenta. A parada é divina. O pepino, pela primeira vez na minha vida, complementa o sabor de todo o resto. Tati já ficou chocada quando contei, porque eu não gosto nem quando o pepino encosta na salada. Mas tava bom demais. Comi, agradeci à moça e elogiei, disse que estava uma delícia – outro sorriso surpreso. Realmente, as pessoas não devem comentar coisas assim aqui. Problema delas, vou continuar comentando, porque eu gosto.

Volto pra Recicleta rápido e tenho dez minutos. Peço desculpas pelo horário, prometo não demorar, e Parker leva numa boa. Sério, esse pessoal é muito divertido, fiquei com vontade de ser voluntário lá (além de achar maneiro ser voluntário, faço amigos e aprendo sobre mecânica de bicicletas, que sempre quis, mas não tinha bicicleta). Vou levar a bicicleta velhinha, compro luz pra frente, luz pra trás e uma tranca. De novo me falam que tem muito furto. No meio de tudo, já quase pagando, preenchendo o termo de compra, um dos voluntários comenta que é melhor eu levar uma tranca. Rio e digo que a Parker já me avisou e agradeço, mostrando a tranca. Engraçado que todo mundo parece achar que eu vou brigar com eles a toda hora, sei lá por que diabos. Baixamos o selim, que tenho pernas curtas, coloco tudo na mochila, e vou pagar. Parker erra e coloca um dígito a menos. Só percebemos depois. Rimos e pago de novo, o que falta. Agradeço muito, prometo voltar e saio feliz da vida com a bicicleta velhinha.

No caminho, reaprendendo a andar de bicicleta, percebo que os pneus estão um pouco vazios demais pra mim e que o selim ficou baixo. Na luz, a bicicleta tem vários pontos de ferrugem, mas nada que pareça fundo, a pintura tá bem velha, arranhada mas não descascada, o refletor que tinha atrás está quebrado e os pneus também estão bem usados, mas ainda ok. Percebo também que ela é mais bonita do que eu tinha achado. Atraio alguns olhares, porque devo ficar meio engraçado numa bicicleta dessas, mesmo, mas nada hostil. Chegando no quarto, pernas doloridas (andei pra caramba E voltei de bicicleta), percebo que esse deve ser meu meio de locomoção o máximo possível aqui. A caminhada de uma hora que tinha feito virou um passeio tranquilo de quinze minutos. O lugar é praticamente todo plano, o pouco que tem de subida é extremamente suave.

Tomo um banho rápido e vou, é claro, pesquisar sobre a bicicleta. A marca, nos adesivos quase soltos, é CCM, modelo Elite. A CCM é uma empresa canadense fundada em 1899. Mais tarde, ela se separou em duas empresas, ambas chamadas CCM, mas uma de bicicletas e outra de material de hóquei. Ambas existem até hoje. Então, sou dono de uma bicicleta canadense. Acabo descobrindo que é uma CCM Elite 1977, modelo feminino, quadro todo de aço. Aliás, é quase toda feita de aço. O selim foi trocado (e vai ser de novo, que esse é desconfortável), mas o resto parece ser original. Vou pra fora pra analisar melhor e percebo que a ferrugem deve sair com facilidade com lã de aço. As peças precisam de um pouco mais de lubrificação. Na frente, uma cesta. Atrás, um suporte pra carregar pacotes. Foi batizada e se chama Heloise, Helô pros íntimos (referência a “vélo”, “bicicleta” em francês). Resolvo descansar o resto do dia e ficar com os pés pra cima, pra ver se amanhã consigo sair sem muitos problemas.

A Maravilhosa Heloise