Segundo dia no Canadá:
Quando acordei, com as crianças correndo pela casa (os anfitriões têm dois filhos pequenos), já eram umas nove horas. O quarto não fica ESCURO, fica na penumbra. Mas tudo bem. Máscara tá aí pra isso. Levantei e fui preparar café. A anfitriã deixou várias coisas de comer, já: pão, geléia, amêndoas, frutas, café. Primeira surpresa: tem dois jeitos de fazer café – cafeteira “francesa” (que é italiana, mas vai) e coador. Mas o café foi moído grosso, então, pra “francesa”. Beleza, não sei usar essa bagaça. Youtube me diz que preciso colocar quatro colheres de café pra cada 300ml dentro da cafeteira, despejar a água fervendo, marcar um minuto, mexer bem, marcar quatro minutos e “prensar” – baixar o êmbolo até o fim, deixando o café subir pela rede. Ferver a água na chaleira elétrica, então. Chaleira no banheiro (a cozinha é uma cozinhete – não tem pia), meço mais ou menos os 300ml (com urticária, sim, pela falta de precisão), coloco pra ferver. Celular em mãos, marco o um minuto, mexo, marco os quatro, prenso, café grosso e cheiroso sobe. Sem gastar filtro nem nada. Adorei, preciso de uma.
Saio pra tentar resolver problemas. Preciso pegar um negócio chamado SIN – Número de Identificação Social, tipo um CPF, mas com a imensa vantagem de também ser uma palavra em inglês: “pecado”. A partir daqui, toda vez que você ler “pecado”, entenda como CPF, porque não posso perder essa oportunidade. Pra pegar isso, tem que ser em uns centros específicos, tipo Detran ou Poupa-tempo, e o mais perto fica no centro de Kitchener. Google Maps me diz qual ônibus pegar e onde e lá vou. Sem saber como funciona, claro. Espero o ônibus lá e percebo olhares esquisitos pra mim. Quando chega, já peço pro motorista me ajudar. Ele é extremamente simpático e me explica direitinho, onde coloca o dinheiro, que tem que ser certo, a máquina não dá troco, onde aperta o botão pra pegar o bilhete e tals. Pego meu bilhetinho e vou sentar, acompanhando o Maps.
Primeira observação: tem uma padaria chamada Nova Era. Imagino que seja de brasileiros ou ao menos de falantes de português. Qualquer hora vejo como é.

Vejo que estou chegando no ponto e dou sinal: é uma cordinha que se puxa. Ninguém fala nada, mas eu começo a rir sozinho quando percebo que dei sinal pra descer na última parada, que é um tipo de rodoviária da cidade. Desço e vou em direção ao que parece ser um escritório do lugar, pra pegar meu “Bilhete Único”. Subo as escadas, e é fácil: o cartão é de graça, mas precisa colocar pelo menos dez dólares. Resisto à tentação de pedir pra colocar 32.50, que seriam dez passagens exatas, e coloco quarenta. Mas claramente vou acertar isso nas próximas recargas. A moça me dá o cartão e uns papéis e sugere fortemente que eu cadastre no meu nome, pra poder recuperar créditos caso perca ou seja roubado, e também pra facilitar as recargas. Agradeço e desço as escadas, saindo na mesma plataforma. No meio do caminho me dou conta que não dá pra sair por ela – passagem proibida pra pedestres. Subo tudo de novo, volto todo o caminho, pra sair do outro lado e ir em direção ao Centro de Serviços.
O centro de Kitchener me lembra uma Teresópolis dos anos 1980 – pequena, ruas estreitas, lojas pequenas, quase nenhum prédio. Pra uma cidade de quinhentos mil habitantes, eu esperava uma coisa mais S. J. dos Campos. Aliás, Kitchener me lembra um subúrbio gigantesco (subúrbio no sentido estadunidense da coisa – casas com gramados etc). Por outro lado, em Teresópolis tinha o Rei do Mocotó e isso era o exótico. Aqui passei por restaurantes/lanchonetes vietnamitas, italianas, latinas (não sei bem de onde, mas latinas), lojas de coisas caribenhas e africanas (nem ideia o que seja “intestino duro” que eles vendem lá, sem muita certeza se quero saber), várias lojas de usados e mais coisas diferentes.

No centro em si, muita gente de muitas nacionalidades e etnias diferentes. Muitos sotaques. O atendimento é até rápido, o lugar é limpo e organizado, sem ninguém gritando. É tipo o que o Poupa-tempo quer ser quando crescer. Sou atendido pelo Jeff da Bela Barba (ruiva, inclusive). Ele confirma uns dados, pega meu visto recebido na imigração e verifica um monte de coisas de segurança. Pergunto se já pegou muitos falsos, diz que não pegou nenhum. Aí emenda e diz que também não trabalha ali há muito tempo. Dou risada e comento que tomara que nunca encontre nenhum, porque deve ser uma situação muito tensa. Ele sorri e verifica mais dados. Fui aprovado, porque ele me deu meu Pecado e agora sou oficialmente um Pecador no Canadá. Pergunto se vou receber um cartão, alguma coisa assim: “Não, é só esse papel, mesmo”. Beleza.
Saindo de lá, paro numa loja de eletrônicos: preciso de adaptadores de tomada. A moça, indiana, é super simpática, e a loja é cheia de coisas meio antigas. Parece ponta de estoque de dez anos atrás. Alguns parecem ponta de estoque da Mesbla (isso, vai pesquisar, eu espero). Tudo parece em bom estado, tem coisas novas no meio de coisas velhas. Pergunto sobre os adaptadores, explico que não preciso de conversores (afinal, voltagem e frequência são iguais às do Brasil, felizmente) e ela me aponta os vários que tem. Pego logo oito, pra não faltar adaptador, e dou um rolê na loja. Muito eletrodoméstico que saiu de linha, mas provavelmente vou voltar lá e olhar depois com calma.
Saindo de lá, abandono o resto de juízo e me proponho a ir andando de volta pro quarto, pra conhecer a cidade. Mas logo encontro o Farmer’s Market – literalmente, Mercado dos Agricultores, ou Mercadão – e resolvo entrar pra conhecer. O lugar é bem bonito, limpo, e cheira bem, com vários lugares vendendo comida. Os agricultores só vão no fim de semana, então estava bem vazio. Fui ver o que tinha e um dos primeiros lugares vendia comida húngara, pelo que entendi. Fiquei olhando, tentando decidir, e a moça me perguntou o que eu queria. Eu disse que estava escolhendo e ela respondeu “Sim, mas qual você quer?” Eu disse que estava entre o Schnitzel e o Goulash e ela disse “Temos os dois e os dois são bons. Qual você quer?” Fiquei com vontade de pedir os dois, mas sabia que não caberia, fui de Goulash que não comia há mais tempo. Pedi também um suco de maçã (sim, eu adoro suco de maçã) e fui sentar. Logo ela vem com um pratão: Goulash com purê de batatas e chucrute (que dispenso, mas comi pra não jogar fora). Agradeci e elogiei o cheiro, mas acho que ela nem ouviu. Estava uma delícia, a carne super macia, o purê com pelotinhos de batata, super bem temperado, e o chucrute – meh, chucrute. É azedo, parece papel que ficou de molho em vinagre.

Segunda observação, e bem triste essa: muitos descartáveis são usados. Até o prato era descartável. Mas pelo menos não veio copo.
Terminei a refeição, joguei fora os descartáveis e fui devolver bandeja, colher de plástico que não usei, sal e pimenta. Agradeci e disse que estava uma delícia e a senhorinha deu um puta sorrisão. Acho que as pessoas aqui devem ser muito exigentes ou comentar pouco, sei lá. Mochilita nas costas, fui andando pro quarto, seguindo a rua.

No caminho, no sol, percebo mais olhares estranhos. Pessoas desviam do caminho, desviam olhares. Mas tou indo, de boas, olhando em volta e consultando o Maps. Logo saio do centro e começa o subúrbio eterno. Casas, casas, casas, casas, rua, casas, casas, avenida. Alguém passa num carro e grita alguma coisa. Não entendo nada, mas deve ser pra mim, porque estou sozinho na calçada. Ninguém anda nessa cidade, pelo visto. Continuo andando e, uns minutos depois, alguém grita alguma coisa que parece “O que aconteceu com seu cabelo?” ou algo do tipo. Aí caiu a ficha: devem estar achando que sou neonazi.
Maravilhoso. Preferia ser confundido com outra coisa. Logo neonazi? A coisa mais distante de mim em praticamente todos os sentidos que realmente importam. Mas não posso fazer porra nenhuma em relação à percepção dos outros, ainda mais no meio do caminho. Passo por mais gente, inclusive um casal de idosos nuns veículos motorizados, na calçada. A senhora, na frente, desvia o olhar. O senhor me olha furtivo, eu sorrio e dou boa tarde, ele sorri (espero que não aliviado) e responde. Faltando uns vinte e cinco minutos, pezinhos doendo porque não apertei as botas o suficiente e agora não adianta apertar, passo por uma loja de bicicletas, com bicicletas usadas na frente. Dou uma olhada rápida, mas não quero parar pra não desanimar de fazer o resto do caminho. Continuo andando e logo encontro – tchan-tchan! – um restaurante que serve shawarma! Anoto o endereço pra tentar voltar depois. Shawarma é delícia. Quando chego no quarto, Pecador e dolorido, tiro as botas e deito de perna pra cima. As pernas formigam e a sola reclama, mas beleza. Fico cogitando deixar o cabelo crescer ou não, pra evitar a comparação. Acho melhor deixar, sei lá. Por outro lado, não faz sentido que eu precise me adaptar a eles. Talvez um boné.
Aliás, esse é outro detalhe: de cabeça raspada, skinhead neonazi fascista do inferno. De cabelo grandinho, cara de judeu. De um extremo a outro por quatro centímetros de cabelo. Prefiro ser confundido com judeu, certamente.
(uma história engraçada: quando eu morava no Tucuruvi, tinha uma sinagoga meio escondida lá. Eu passava até bastante pela frente e sempre que tinha alguém lá, ficava me olhando. Um dia, subindo a rua, a pessoa simplesmente disse “Shalom” e balançou a cabeça. Murmurei um shalom sem graça e continuei meu caminho)
Mando mensagem pra anfitriã, que me diz que eles vão chegar em uma hora e aí podemos dizer pelo menos “oi”. Nisso, descubro que o plugue do meu computador não cabe nos adaptadores. Penso no que fazer. Arrancar esse terceiro pino ridículo que o governo enfiou nos plugues? Tentar encontrar outro? Decido comprar mais um adaptador, porque pra arrancar o pino precisaria de ferramentas e volto no Zehrs, o mercado, torcendo pra encontrar o adaptador. Vou andando, mas agora de tênis, e encontro o bendito. Compro um só e aproveito pra pegar manteiga, que estava sentindo muito falta. Eles resolveram o dilema da manteiga de um jeito bem simples: misturam óleo de canola, diminuindo a densidade da manteiga. Espertinhos.
(O Dilema da Manteiga: já notado por Platão, o dilema é: deixo na geladeira pra não estragar e não como nunca porque está dura, deixo na geladeira e esquento no microondas e ela fica líquida ou deixo fora e ela fica rançosa mais rápido, mas consigo comer?)
Faço um lanche e fico descansando. Quando os anfitriões chegam, me calço (ai) e vou lá fora. Ela é MUITO baixinha. Tipo que mal chega no meu peito. Super simpática, as crianças fofinhas. Aceno pra elas e elas acenam de volta. O marido parece estar de mal humor e me diz que as crianças vieram o caminho todo gritando. Reforço minha convicção de não ter filhos (como se precisasse, mas ok). Conversamos mais um pouco, rápido, porque não quero atrapalhar, também. Ela entra comigo no quarto pra pegar as coisas que eu trouxe pra eles (uma garrafa pequena de cachaça, um pacote pequeno de café e um pacote de paçoca “pras crianças”). Explico que a cachaça recebeu um prêmio no Paraná, e que o café também vem da mesma região. Aproveito pra avisar que a paçoquita tem muito açúcar e provavelmente vai causar euforia nas crianças, pra pegar leve. Ela tenta pronunciar “paçoquita” e falha miseravelmente. Eu explico que o ç é como em façade, em inglês, e ela fica tentando lembrar onde tem isso. Malditas reformas. Explico que é o mesmo som de s puro e ensino a pronunciar. Nota dez. Aproveito pra tirar duas dúvidas: se aquela bandeja com pedras na cozinhete é pra colocar sapato molhado mesmo (é) e se o papel higiênico vai na privada ou na lixeira do lado da privada. Ela faz cara de ué e pergunta qual lixeira. Eu digo que tem uma lá e ela diz que é pra lixo em geral. Aí eu explico que na América Latina, de modo geral, não se joga papel na privada. Normalmente ninguém tem lixeira ao lado da privada aqui, então achei melhor perguntar (ela tinha me dito que a casa era SUPER antiga, do início do século XX – estadunidenses e canadenses são engraçados – então fiquei imaginando que talvez os canos fossem estreitos, sei lá). Ela diz que pode ir tudo na privada. Beleza, vou tirar os que deixei na lixeira (mas não falo pra ela, que já tinha feito cara de nojinho). Logo a filha mais velha, ou menos jovem, no caso, começa a bater na porta do quarto chamando a mãe. Rio e digo que é melhor ela ir logo. Ela me diz que eles vão viajar no fim de semana e voltam no domingo, tarde. Digo que tudo bem e por enquanto é isso.
Passo o resto do dia no quarto, ainda morto da viagem e de tudo que andei, e apago logo.
Línguas diferentes ouvidas até agora: perdi a conta.