Diário do front 01 – Quinta – 13/06/2019

Primeiro dia no Canadá:

Chego ao aeroporto e sou mandado pra imigração. Esperado, logicamente. O que eu não esperava é que me pedissem o documento de 64 páginas com prova de fundos que precisamos montar pra receber o visto. Depois de dez minutos de pânico, lembro que tenho o computador comigo, peço pra pegar e mostrar o documento pro oficial. Ele aceita, faz mais umas perguntas e, claramente com dúvidas, me dá o visto.

P.S. Contato da universidade recomendou que eu viesse agora, junho, pra “aproveitar o verão e já ir conhecendo o lugar”. Oficial da imigração disse que o certo certo era vir quando as aulas fossem começar, em setembro…

Informação aqui é difícil. Nada é muito claro e as pessoas são bem confusas. Pra ir do aeroporto em Toronto a Kitchener, precisei pegar dois ônibus. Até aí, tranquilo. Só que não tem em lugar nenhum se compro bilhete antes, se compro com motorista, se preciso fazer um ebó pra receber a bênção do bilhete, sei lá. Pergunto pra uma pessoa: compra com o motorista. Olho uma placa oficial: compra na máquina. Pergunto pra outra: compra na máquina. 2×1 máquina. Pergunto pro funcionário do aeroporto onde é a máquina: sobe a escada rolante e anda pra frente. Subo a escada rolante, nada de máquina. Resolvo olhar no Google: fica na frente do portão R. No térreo. Xingando, cansado e bem puto da vida, desço a escada rolante e vou até o portão R. Acho a bendita, coloco o dinheiro, chutando mais ou menos os lugares, e recebo troco e bilhete. Apago as velas do ebó e volto pro ponto. Uma boa notícia: os Raptors ganharam! Pessoas comemoram e eu me pergunto quem diabos são. Agora já sei que são o time de basquete de Toronto. Não dou atenção, porque me comprometi a tentar gostar de hóquei.

Resolvo perguntar pro motorista do ônibus mais informações e ele explica com mais calma. Pena que em Toronto funciona diferente de Kitchener e isso me confundiu depois. Mas faz parte. Quinze minutos no busão QUENTE, desço no shopping que serve de interligação de várias linhas. Procuro a telinha que vai me dizer quando é o próximo ônibus pra Kitcher e tinha passado há quinze minutos, faltando quarenta e cinco pro próximo. Sentado, com malas, cansado e com fome (porque o aeroporto de Toronto não usa mais dinheiro em espécie, aparentemente), fico esperando. Pelo menos é coberto e tem onde sentar. Quando ele chega, coloco as malas no bagageiro e bora. Pretendia ver a paisagem, mas acabei dormindo. Pelo menos não perdi a descida.

Próximo problema: o Airbnb ficava a uns 2km do ponto. Normalmente, andaria isso de boa. Depois de dez horas de voo, com fome, sede e com malas, seria complicado me arrastar isso tudo. Resolvo andar um pouco pra sair da avenida e acabo parando na frente de uma igreja (aliás, igreja pra cacete pra todo lado) e pedir um Uber. Achei que a igreja seria um bom ponto de referência. Peço o Uber e fico esperando Elsheikh. Sim, o próprio Líder vinha me buscar de Uber. Nesse meio tempo, para uma pickup prateada, descem o vidro e um branco cara de direita pergunta se estou esperando alguém. Explico que estou esperando o Uber, que só parei ali, mas não conhecia ninguém da igreja. Ele pergunta se está tudo bem, que ele congrega ali e só ficou curioso. Eu agradeço, digo de novo que estou esperando o Uber e penso que era melhor ele não se meter na vida dos outros. Ele responde “de nada” (!), fecha o vidro da pickup e sai. Cinco minutos depois, Elsheikh chega. Ele não desce do carro, mas abre o porta-malas pra mim. Coloco as malas e entro no carro. Cumprimento, essas coisas, e ele mudo. Percebo que está um pouco tenso e resolvo puxar um papo. Pergunto como se pronuncia o nome dele. Ele diz, eu tento e falho. Peço pra repetir, depois de novo, e tento. Falho e dou risada de mim. Aí ele me diz que é um nome árabe (eu já sabia e até o significado) e eu comento que o nome dele é muito bonito. Ele ri, agradece, fica quieto. Uns minutos depois, pergunto se o trânsito era normal daquele jeito naquele horário (vazio). Ele diz que sim, que o trânsito é pequeno, mesmo. Aí digo que pra mim é estranho, que cheguei de São Paulo, no Brasil, e que o trânsito lá é assim às duas, três da manhã. Ele ri e confirma que venho do Brasil. Ele me conta que é sudanês e que veio pro Canadá quando era adolescente, com a família, e que no Sudão as pessoas seguem muito o futebol brasileiro. Ele me pergunta se eu sigo futebol, eu digo que não, que sou um dos poucos homens brasileiros que não gostam. Aí eu pergunto o que ele está achando da seleção, e ele dá um muxoxo, diz que não tá muito boa, e aí fala que gostava muito dos anos 80 e 90, que o futebol brasileiro perdeu muito de lá pra cá. Como isso até eu sei, concordo com ele, e começamos a falar da seleção de 70 e 80. Ele fala do “Sócurat” (Sócrates) e já estamos chegando no Airbnb. Ele faz questão de descer pra me ajudar a tirar as malas e se oferece pra esperar até eu ter certeza que é lá. Nisso eu comento que o mais legal do Sócrates é que ele era médico, de verdade, e cuidava de pessoas de graça. Ele diz que sabia, que isso era admirável, mesmo. Eu agradeço, digo que não precisa esperar, aperto a mão dele e agradeço de novo, sorrindo, e que era um prazer ter conhecido ele, e O Líder vai embora sorrindo. Nisso, começa a chover.

Corro pra entrar no Airbnb – mas não sei direito onde é! No fim, é atrás de uma porta de tela/vidro, nos fundos/lateral da casa, com uma maçaneta com código. Digito o código e a porta abre. Uhul! Entro carregando as coisas molhadas e PARA DE CHOVER. Ok, valeu. Largo malas, tiro sapatos e olho em volta. Lugar super bonitinho, grande pra caramba (só a cama cabem umas quatro, cinco pessoas de boa), cheiroso e limpo. Já tá ótimo. A anfitriã deixou um bilhete mega fofo e uma garrafinha de xarope de bordo de presente. Eu tomo banho, como alguma coisa, finalmente, e deito. Morro e só ressuscito horas depois, famélico. A família está dentro da casa, não quero incomodar ninguém, saio pra dar um rolê e comer. Encontro um Tim Hortons, que é uma cafeteira muito comum e famosa aqui, tipo o Starbucks. Mas já me juraram que o café não é essa droga que o Starbucks serve. Ainda não provei, veremos. Peço ajuda pro atendente – indiano – em relação ao tamanho dos sanduíches. Ele ri, me mostra um pão. Eu explico que não conheço, por isso a pergunta. Peço um sanduíche de peito de peru e queijo, um hash brown (um bolinho de batata) e um suco de maçã, e vou sentar pra comer. No caminho, uma mulher negra sentada num canto fica me olhando meio de rabo de olho. Beleza.

Hash brown (que sempre me faz lembrar da música Golden Brown, The Stranglers)

Estou comendo, de boa, sanduíche muito gostoso, suco de maçã delícia, a mulher do canto vem me pedir pra olhar as coisas dela enquanto ela vai ao banheiro (!). Digo que claro, que ela pode ir tranquila, e viro de lado pra efetivamente vigiar as coisas dela. Nisso, entram duas loiras, falando alto e exigindo um bolinho (acho) que uma delas comprou de manhã e não recebeu e, disse, comprou de um cara negro que disse pra ela voltar depois pra pegar. Sacando que era golpe, a gerente se recusou, disse que não fazia sentido, que não iam vender se não tinham na hora etc, e a loira começa a subir o tom, claramente tentando causar um escândalo. Dava pra sentir o cheiro de “eu mereço porque sim” de longe. Nisso a gerente, pra evitar, pega um bolinho, entrega pra ela e diz “Tá, tá, aqui, você conseguiu o que queria, querida. Pode ir”. Me contive pra não aplaudir. A mulher do canto volta, agradece muito e troca de lugar, porque o lugar favorito dela tinha vagado. Eu sorrio, comento “que bom” e termino meu hash brown (delícia). Volto pro quarto e durmo mais, depois de mandar mensagem pra anfitriã perguntando se poderíamos dizer oi no dia seguinte. Ela diz que sim e beleza.

Línguas diferentes ouvidas até agora: quatro.