Sob a luz de uma lua de vidro

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Esse texto tem uns dois anos. Achei que amadureceria se eu deixasse quieto num canto, mas ficou na mesma. Me parece incompleto, meio que a introdução de alguma coisa. Talvez eu expanda, ainda não sei.

Será uma vez, em uma terra não muito distante, uma menina que se chamará Felícia.

Felícia terá longos cabelos escuros como a sombra do corvo, e olhos como obsidiana polida, que brilharão e refletirão suas emoções.

Felícia ainda não existe, mas quando essa estória acontecer, ela terá dezenove anos, e uma irmã menor, chamada Beatriz, muito parecida com Felícia, mas de cabelos curtos e com apenas nove anos.

Ambas morarão em uma casa grande, com a frente de tijolos à vista e janelas enormes, deitada tranquila e confortavelmente no meio de um belo jardim.

Sua mãe passará muito tempo no jardim, plantando gerânios, roseiras e dentes-de-leão, cantarolando baixinho uma velha canção de quando tinha a idade de Felícia. E a canção, que ainda não foi escrita, será algo como:

“Lá e aqui, mais uma vez corremos

E por mais que chova

E por mais que corra

No fim nós sempre morremos.”

Beatriz aprenderá a canção com a mãe, que será uma mulher alegre e risonha – talvez por saber que a canção estará e sempre esteve certa, que não adianta correr – e cantará enquanto anda pelo jardim com Felícia, sentindo o cheiro de jasmim e decorando o cabelo com azaleias.

Um dia, à noite, sob a luz de uma lua de vidro, o céu salpicado aqui e ali de pequenas lamparinas piscando, algumas já mortas mesmo agora, as meninas andarão pelo jardim, sentindo o cheiro da dama-da-noite e ouvindo o chilrear dos insetos, falando de morcegos e corujas e fantasmas.

Fantasmas não as assustarão, pois estarão acostumadas a eles, tendo vivido todas as suas vidas numa casa que será considerada velha quando elas estiverem lá, e que, com certeza, terá alguns fantasmas.

“Fantasmas são bons ou maus?”, perguntará a pequena Beatriz, olhando embaixo das folhas de hortênsias, procurando duendes para brincar. Em toda a sua vida, ela nunca terá achado um só duende, mas haverá lido certa vez em um livro – e seu pai lhe dirá muitas vezes para confiar nos livros – que duendes se escondem sob folhas de hortênsias e acreditará nisso.

“Acho que depende”, responderá Felícia, olhando para o céu e sorrindo para as estrelas. “Alguns são bons e outros são maus.”

Beatriz se levantará da busca e dirá, “Os que vivem lá em casa são bons, não é?”, e seus olhos, refletindo a luz da lua de vidro, dirão silenciosamente à sua irmã que ela acreditará que sim, mesmo que Felícia diga o contrário.

E Felícia dirá, “São. Pelo menos os que eu conheço são bonzinhos”, mesmo nunca tendo conhecido nenhum fantasma.

Contente com a resposta da irmã, a pequena Beatriz sorrirá, mostrando a falha deixada por um dente que terá caído dois dias antes, e Felícia sorrirá de volta.

Juntas e de mãos dadas, elas caminharão de volta para a casa assombrada que chamarão de lar, seus cabelos refletindo a luz da lua de vidro, que lhes fitará indiferente, presa eternamente por fios de prata em seu leito de veludo negro.