Damék – Em português

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É uma experiência um pouco esquizofrênica traduzir seu próprio texto, mas aqui vai. Espero que o resultado seja bom.

P.S. Traduzi esse conto pra minha namorada, que, na época, era só amiga, não amiga-namorada. 

 

Damék corria desesperadamente pelos túneis subterrâneos nas profundezas da Academia. Ele corria por mais que sua vida; ele sabia que corria por sua alma.

Atrás dele, a criatura conjurada dos Abismos corria, suas quatro pernas golpeando as pedras do chão como marretas, o som alto ecoando das paredes de pedra amarela, o hálito putrefato do demônio congelando o ar a sua frente.

Damék não ousava olhar para trás, por medo de perder o equilíbrio. Após o primeiro vislumbre de congelados olhos azuis olhando-o fixamente de um canto escuro, ele simplesmente correu com vontade, passando por portas de madeira fechadas, com tiras de aço e espigões de latão. Ele sabia que as portas não se abririam, assim como sabia que não teria tempo de abrir uma, mesmo que tentasse.

Ele ouviu a criatura grunhindo, divertindo-se, gostando da perseguição, quando a porta a sua frente abriu-se de repente, e Ghassán passou por ela, fogo em seus olhos e um feitiço mortal tomando forma, um feitiço que extirparia a pele de Damék de sua carne, ferveria seu sangue e arrancaria os músculos de seus ossos, mas preservaria sua alma, intacta, para a abominação atrás dele devorar.

Damék gritou e tentou parar, e a criatura arremeteu contra suas costas, suas garras rasgando a carne de Damék, e ele acordou coberto de suor.

O jovem mago levantou-se em pânico, tentando organizar seus pensamentos em um feitiço, qualquer feitiço, quando percebeu que estava sozinho em seu quarto, e que havia sido apenas outro pesadelo.

Por Kamin, pensou, enquanto limpava o suor do rosto com a mão esquerda, mais outro.

Ele levantou-se e foi até sua pequena bacia e jarro, entornou um pouco de água na bacia e lavou o rosto, então lavou o tronco e Teceu um pequenino feitiço para secar-se.

Damék sentou-se na beirada da cama e tentou relaxar. Por várias noites ele havia tido um pesadelo, e todas as noites havia sido um sonho de ser perseguido em um lugar escuro, às vezes uma masmorra, às vezes uma floresta, às vezes uma caverna enorme, sempre por uma criatura horrenda, e todas elas diferentes. Este havia sido o único pesadelo em que Ghassán havia aparecido.

Pensar em Ghassán deixou-o tenso novamente. Ghassán era o mago mais poderoso de sua Casa, um dos Tronos e o homem que decidiria o destino de Damék quando o Teste chegasse – o teste final de suas habiliades, tanto mágicas quanto mundanas, e que, se completo, lhe daria o título de Acadêmico. Se não passasse, entretanto, nunca mais teria acesso à Academia, e nunca poderia trabalhar como Mago em Vlásti.

Damék havia ficado impressionado com Ghassán desde a primeira vez que o viu nos corredores, um homem alto, de pele escura, cujos olhos continuamente abrasavam com julgamento impiedoso, vestindo mantos vermelhos e laranja, e o símbolo de seu status como Trono: o Medalhão Rubi, o qual, de acordo com a lenda espalhada por toda a Academia, continha a essência do fogo, seja lá o que isso significasse.

No início, o jovem aprendiz havia ficado aterrorizado, mas então percebeu que Ghassán simplesmente ignorava sua existência, assim como a da maioria dos estudantes.

Talvez, ele pensou, eu ainda o tema. Um pouco. Afinal, ele estava conduzindo pesquisa não-autorizada, usando um livro que havia roubado da Biblioteca, sobre a única área de estudo expressamente proibida na Academia para o Desenvolvimento da Ciência e Arte Arcana, ou a Academia de Vlásti.

E apesar de perigosa, sua pesquisa era extremamente necessária. O conhecimento que ele estava acumulando seria apresentado à Academia, e ele sabia que seria aclamado como herói, como grande estudioso.

Entretanto, até que ele tivesse toda a informação que ele queria coletada e organizada, teria que enfrentar o risco de ser descoberto e expulso. O próprio roubo do livro da Biblioteca já era um crime sério.

Mas havia sido irresistível. Havia sido uma oportunidade de brilhar.

Damék veio de Logovishchyeh, uma enorme planície no sul distante, congelada e inóspita. As pessoas lá eram pouco mais que selvagens, preocupadas demais com a sobrevivência para dedicar-se a mais que música grosseira e uma tradição oral de histórias.

Entretanto, havia sido sua casa, um dia, e Damék estimava o que havia aprendido lá, ainda que não pretendesse mais voltar.

Se tivesse ficado, teria definitivamente tornado-se um Pevec, um poeta-cantor, memorizando as velhas histórias e canções para repeti-las incessantemente. Ele nunca poderia tornar-se um sacerdote, e sua força estava em seu cérebro, não seu braço, impedindo que ele se tornasse um guerreiro ou um bom trabalhador. Além disso, ele queria mais para si mesmo, mais para sua vida.

E então, contra todo o costume, ele havia fugido para o norte, com comida para dois dias, nada de valor exceto as poucas peles que havia guardado, e praticamente nenhum conhecimento concreto das terras a sua frente.

Ele viajou por milhares de milhas, dormindo onde podia, comendo o que podia. Ele tentou conseguir um pouco de comida e abrigo trabalhando quando achava algo a ser feito, e fazia o que podia quando não encontrava trabalho. Ele não era um caçador, mas podia colher frutas e pegar ovos de ninhos, quando não havia outro lugar onde conseguir comida. Ele até mesmo roubou algumas vezes para evitar a inanição – e justificava-se para si mesmo pensando que era melhor que morrer.

Após meses de privações e viagem constante, sempre em direção a Vlásti, sempre em direção ao calor e humidade dos climas nortistas, Damék chegou à fabulosa cidade.

As altas muralhas e altivas torres da cidade gravaram-se na mente de Damék. No tremeluzir causado pelo intenso calor assando o platô empoeirado, Vlásti parecia uma visão, as torres pontiagudas dentro da cidade brilhando sob o implacável sol nu. Uma multidão caminhava para dentro da cidade, assim como outra caminhava para fora; mercadores, estudantes, trabalhadores, mascates, mendigos, soldados – todo tipo de pessoa, toda raça, podia ser vista em Vlásti.

Damék sentiu lágrimas vindo a seus olhos enquanto contemplava o objeto de seus sonhos, a realização de seu destino, brilhando a sua frente. Ele caminhou até ela em transe, boca aberta, olhos esbugalhados, e entrou por um dos portões enormes.

Entretanto, nem tudo era como ele havia imaginado, nem tudo era como ele havia sonhado.

Ele teve que passar três anos trabalhando pesado e estudando, tentando aprender a língua, e como ler e escrever. Ele não havia antecipado o calor, tampouco, e sofreu muito com ele. Damék teve que aprender a viver em Vlásti, pois os costumes diferentes de seu povo o assombravam.

Até mesmo o dinheiro era um problema: ele não o conhecia. Havia ouvido falar sobre dinheiro, mas não tinha idéia de sua importância no dia-a-dia

Após três anos de trabalho duro, Damék foi finalmente aceito na Academia. E, uma vez lá, não era considerado um estudante especial, nem era visto como particularmente brilhante em área alguma.

Damék aprendeu, do jeito mais difícil, que era simplesmente medíocre entre os estudantes da Academia. Na verdade, ele era tão sem destaques que nenhum professor o conhecia pelo nome. Ainda que fosse um modesto sucesso na cidade, especialmente com as mulheres, durante as exposições na Academia era só mais um estudante sem nome.

Era verdade, ele tinha um pequeno quarto para si mesmo, e permissão especial de pegar muitos livros emprestados da Biblioteca, e também muito mais tempo livre para estudar, assim como considerável liberdade de escolha dos assuntos a estudar, mas todos os alunos que chegavam ao terceiro ano tinham as mesmas regalias.

Mas ele seria famoso, e seu status seria definitivamente elevado ao topo das torres da cidade quando apresentasse sua própria pesquisa à Biblioteca, e devia tudo isso ao livro que havia encontrado e levado aquele dia. Ele havia finalmente, com as direções e conhecimento contidos no livro, descoberto sua verdadeira vocação: Demonologia.

Essa era a razão pela qual o roubo do livro e o estudo de seu conteúdo eram absolutamente irresistíveis: Damék sentia que era seu destino. Um garoto desconhecido de Logovishchyeh, contra todas as adversidades tornando-se um mago respeitado, e talvez até temido – ele seria uma inspiração para outros.

No dia em que encontrou seu livro (pois ele já pensava no livro como sendo dele), estava procurando por um tomo em um canto empoeirado e pouco usado da Biblioteca, contendo textos sobre a natureza da magia e seu comportamento intrínsico, quando viu o livro.

Coberto de poeira, ele estava caído de lado, atrás de outros livros, na prateleira mais baixa, quase invisível na escuridão relativa. Ele provavelmente havia sido escondido às pressas por um estudante culpado e então esquecido ou deixado lá de propósito. Ele parecia diferente dos outros livros, e totalmente fora de seu lugar.

Damék esticou a mão para dentro da alcova e retirou o volume empoeirado, dando uma olhadela discreta para ver se alguém o estava observando. Não havia ninguém, e então ele pegou o livro, escondendo-o entre os outros que estava carregando, e rapidamente caminhou até uma das escrivaninhas disponíveis na Biblioteca, tomando o cuidado de escolher uma em um lugar razoavelmente privado. Ele deixou a pilha de livros em um canto da escrivaninha, de forma a ocultar o que estivesse fazendo atrás de uma barreira respeitável, e examinou o estranho livro.

Não era um livro grosso, nem particularmente grande, mas era muito pesado. Talvez a capa fosse responsável por isso. Ele havia sido encadernado com algum tipo de couro azulado, e tinha um único fecho de prata mantendo-o fechado. Damék abriu o livro, e viu que era obviamente antigo, não um dos novos, escritos com o novo sistema de marcação, ou seja lá como o chamavam; mas o que o impressionou era que o livro era antigo, não simplesmente velho. Mesmo Damék, que não se interessava pelo jeito como os livros eram feitos, podia ver isso. A tinta estava esmaecida, mas ainda podia ser lida com clareza, e havia adquirido o marrom apagado de escrita muito, muito velha.

Ele não tinha autor, e nenhum nome. Parecia mais um diário que um livro escrito para outras pessoas.

Os desenhos e diagramas eram ainda mais eloquentes, pois retratavam sem reservas os demônios e visões dos Abismos. E ainda que o autor não fosse um artista, sua mão era talentosa o suficiente para transmitir os horrores que havia aprendido e visto.

De repente, um estrondo assustou Damék – ele olhou em volta freneticamente, aterrorizado. Havia sido uma escada, empurrada por uma estudante descuidada, mas o coração do mago continuava batendo erraticamente em seu peito. Por sorte, ele não  havia atraído atenção para si, já que todos olhavam fixamente para a garota que havia causado todo o barulho, mas foi o suficiente para ele percebesse que não podia ficar lá. Mas como tirar o livro da biblioteca?

Então ele o roubou. Escondeu o livro em seus mantos e carregou a pilha de livros que já havia pegado para distrair os bibliotecários. Damék apresentou-os todos na escrivaninha, onde o bibliotecário anotou os títulos dos livros e seus respectivos códigos, e então saiu em direção a seu quarto.

Pelos dois dias seguintes, Damék quase não saiu de seu quarto, exceto pelo tempo mínimo necessário para manter suas funções corporais. Ele estava lendo, e aprendendo, e absorvendo o conhecimento que entendia tão facilmente.

Na primeira noite, ele teve seu primeiro pesadelo. E ele sabia porque os estava tendo: culpa. Ele sabia que estava errado, mas não conseguia parar, talvez por curiosidade, talvez por um desejo de saber algo mais do que qualquer outro, mas ele persistia em ler o livro.

Ele continha, além de descrições e ilustrações, muitos feitiços diferentes – alguns dos quais retiravam Teann direto dos Abismos, alguns que permitiam que um demônio atravessasse algum tipo de portal, alguns encantamentos de controle… todos eles maléficos, Damék sabia em seu coração. Havia até mesmo um que escravizaria a alma de um homem, transformando-o em uma abominação sem mente.

O jovem mago não pretendia Tecer nenhum deles; ele sabia que estaria condenando-se se o fizesse, mas sua determinação de não fazê-lo evaporou-se instantaneamente quando encontrou um pequeno encantamento no livro.

Ele o leu de novo e de novo, tentando encontrar armadilhas escondidas, mas não havia nenhuma. Na verdade, o encantamento era tão simples que Damék achou que não funcionaria. Ele precisaria de um pequeno espelho de prata, fogo – até mesmo uma vela serviria – uma gota de sangue, uma faca de ferro, e uma pequenina quantidade de Teann. Com isso, de acordo com o autor, o encantamento permitiria abrir um minúsculo portal entre os Abismos e o conjurador, um portal grande o suficiente apenas para passar sons. Ele também obrigaria um demônio menor a responder verdadeiramente a quaisquer perguntas feitas pelo conjurador.

Abaixo do encantamento, havia uma lista de nomes de demônios, os quais, presumivelmente, o autor havia contatado. Um dos nomes tinha duas linhas grossas sublinhadas, e Damék achou que parecia promissor.

E então, pensando que não haveria nenhum perigo, e prometendo a si mesmo que pararia se parecesse haver qualquer chance remota de se tornar um problema, Damék reuniu o que precisava para Tecer o feitiço.

Naquela noite, Damék preparou-se com seu próprio diário – um maço de folhas, na verdade – e pena, e esperou pelo silêncio que significava que a maioria dos estudantes já estava na cama.

Ele acendeu a vela e posicionou-se em frente ao espelho. O espelho forneceria a ligação física para o portal e a luz da chama, um farol. Ele furou o dedo com a ponta da adaga de ferro e permitiu que uma gota de sangue caísse na superfície do espelho, enquanto Tecia os delicados filamentos de Teann como descrito no livro. A brilhante gota escarlate espalhou-se e cobriu toda a superfície do espelho, fazendo com que ele parecesse ser feito inteiramente de sangue. A adaga de ferro obrigaria o demônio a responder a todas as perguntas com a verdade, da melhor forma que soubesse. A palavra final do encantamento era o nome verdadeiro do demônio que ele pretendia prender, e ele a disse em um sussurro rouco: “Asatya-badi.”

Damék esperou, achando que não funcionaria, até que ouviu uma voz áspera falando através do espelho. Ela o lembrava de coisas mortas e pálidas revolvendo-se debaixo da terra, ela o lembrava de vermes cinzentos refestelando-se na carne de uma criança, ela o lembrava de sonhos calcinados. Ele estremeu.

“Chamado o mestre nós, apresentar nós.”

O feiticeiro, ainda um pouco temeroso, levantou sua pena, mergulhou-a na barata tinta cinzenta, e comandou, incerto: “Falai-me dos Abismos.”

Damék esperava que o feitiço realmente amarrasse o demônio, e ficou quase surpreso quando Asatya-badi respondeu à pergunta, e contou-lhe sobre as divisões dos Abismos, e Damék escrevia tudo, tão rápido quanto podia, até que sentiu o encantamento começar a enfraquecer. O espelho estava quase límpido. Ele achou que havia durado uma hora. Então, rezando a Kamin para que o encantamento pudesse ser mantido tão facilmente, furou o dedo mais uma vez, e pingou o sangue no espelho novamente. O sangue se espalhou como antes, e o encantamento renovou-se. Ele sentiu-se um pouco cansado, mas sabia que não conseguiria parar agora.

Asatya-badi falava em estruturas estranhas e difíceis de compreender. Ainda que a língua fosse perfeitamente compreensível para Damék, já que era sua própria língua nativa que o demônio falava, a ordem das palavras era estranha. Ainda assim, Damék conseguia discernir muito do que era dito.

Damék comandou, certo de que funcionaria, “Falai-me mais sobre as divisões.”

O demônio contou-lhe sobre os sete Abismos, e como eram organizados e comandados. Damék continuou abrindo sua pele e pingando sangue no espelho, até que percebeu que todos os dedos de sua mão esquerda estavam ardendo por causa dos cortes, e que sua mão direita doía como se houvesse sido pisoteada. Era quase manhã, e ele não podia escrever mais – além da hora e das cãibras, não tinha mais papel. Ele deixou o encantamento se desfazer, e sentiu a Tessitura se desmanchando.

Damék olhou a pilha de papéis em sua escrivaninha. Ele tinha muita informação, mas compreendia perfeitamente que havia tido apenas uma breve visão de tudo que podia aprender.

Ele pegou o livro que havia encontrado, e decidiu comparar suas próprias notas com as do autor, tentando entender mais e cruzando as informações.

 *          *          *

Damék acordou à tarde com um sobressalto. Ele estava caído sobre sua escrivaninha, com o livro aberto e suas notas espalhadas. Ele havia adormecido enquanto lia e relia, e havia tido outro pesadelo. Ele estava sendo perseguido através de uma escura e silenciosa floresta por uma fera de duas pernas com enormes patas dianteiras e afiadas garras escuras. Ela tinha presas enormes que brilhavam fracamente na escuridão. Apesar de ter presas poderosas, ela havia enterrado suas garras nas costas de Damék.

Ele lavou-se e saiu para comer, tomando cuidado de esconder o livro e suas notas dentro de seus mantos. Ele não podia arriscar tudo ao deixar qualquer um deles em seu quarto, que poderia ser revistado. Ainda que não fosse comum, não era impossível.

Os corredores da Academia, construída com pedras amareladas e madeira, nunca haviam sido tão inóspitos para Damék, que havia, após mais de dois anos, acostumado-se aos tetos altos e passagens decoradas. Durante o curto caminho por onde tinha que passar, achou que muitos alunos o olhavam de esguelha, ainda que estivesse certo que nenhum deles poderia saber o que ele estava fazendo. Ele decidiu que eram seus nervos e tentou passar o dia normalmente.

Ele não conseguia, entretanto, se concentrar em nada. Ele ficava pensando no livro, e ficava pensando sobre o livro que ele escreveria. O livro e as folhas de papel escondidas sob seus mantos pareciam ter um calor próprio, atraindo-o para seu quarto para Tecer o feitiço mais uma vez e fazer as perguntas que queimavam em sua mente. Pela primeira vez, Damék não conseguia ouvir uma única palavra que nenhum professor dizia em nenhuma palestra, nem assistir às demonstrações: ele só conseguia pensar nas perguntas.

Pois sabia o que perguntaria da próxima vez. O que Asatya-badi havia lhe falado permitia que ele elaborasse perguntas mais diretas. Damék pensou que já sabia muito mais sobre os Abismos que qualquer outra pessoa.

Para anotar o que Asatya-badi contaria a ele, Damék decidiu comprar um diário real para si mesmo, um livro encadernado em couro, relativamente simples.

E então ele foi a um dos numerosos encadernadores na Grande Cidade, a cidade que era o centro de todo conhecimento e cultura, e gastou suas parcas economias em um dos diários já encadernados.

Quando pronunciou o nome de Asatya-badi, mais claramente desta vez, o demônio respondeu tão rapidamente quanto antes. Damék não havia esquecido, mas o efeito da voz do demônio havia passado um pouco, e ele ficou surpreso e assustado mais uma vez com seu horrível som áspero.

“Chamado o mestre nós, apresentar nós.”

“Asatya-badi, quero que me faleis sobre o lorde da primeira divisão. Qual é seu nome?”

E então Asatya-badi contou a Damék sobre Lorde Yudhisthir e suas Legiões, e detalhou encantamentos desenvolvidos especificamente para lidar com a primeira divisão dos Abismos. Damék anotou tudo, tão rápido quanto podia, perguntando mais e mais, mantendo o encantamento, perfurando a pele de seus dedos primeiro, e então passando às costas de sua mão esquerda. E enquanto Asatya-badi falava, nunca parando, nunca se cansando, derramando seu conhecimento no diário de Damék, corrompendo o ar com sua voz impura, Damék aprendia.

Damék imaginava a aparência de Asatya-badi, e esperava que nunca o visse realmente.

Ainda que houvesse um encantamento detalhado no livro que permitia que o conjurador visse os Abismos através de uma bacia cheia de sangue (e que Damék suspeitava havia sido Tecido pelo autor muitas vezes, a julgar por seus desenhos), ele estava determinado a nunca usá-lo. Talvez mais tarde, quando soubesse mais, o faria, mas não até então, e certamente muitos anos se passariam até que estivesse confiante o suficiente para olhar para os Abismos.

Mais uma noite passou, e por mais uma noite Damék escreveu e escreveu, perfurando sua pele, drenando seu próprio sangue de lugares que ele imaginava que não atrapalhariam sua escrita ou manchariam seu diário. Ele escreveu até desmaiar de exaustão, e então teve outro pesadelo.

Damék sonhou com uma pequena criatura, quase tão alta como um cão de caça comum, mas coberta de cicatrizes, sua pele rosada pulsando levemente. Ela corria atrás dele, gargalhando maniacamente, através de um labirinto feito de pedras esverdeadas, e enterrou suas longas garras nas costas de Damék.

Ele acordou de repente, com um grito se formando em sua garganta, e percebeu que a luz penetrante em seus olhos era o sol. A alvorada havia chegado e partido, e já era tão tarde que a luz estava brilhando sobre seu chão através da pequena janela em seu quarto, cegando-o e acordando-o.

Ele se levantou rápido, e percebeu que estava deitado no frio chão de pedra. Ele estava faminto e sedento – não havia comido desde a tarde anterior. Se sentia confuso, tonto e enjoado. Ainda que estivesse faminto, sabia que não seria capaz de comer nada.

Ele reuniu seus papéis, o livro e seu diário, e tomou uma decisão: teria que limitar-se. Seu tempo pesquisando os Abismos e Tecendo o feitiço repetidas vezes todas as noites estava exaurindo-o. Ele tentaria se ater a seus estudos como normal e aplicar-se, perseguindo o que já pensava que eram seus estudos especiais, sempre que pudesse. As prioridades simplesmente tinham que ser estabelecidas.

E assim pensando, Damék lavou seu rosto e tronco como sempre, escondeu seus papéis sob seus mantos e saiu para comer.

Por sorte, a Academia oferecia comida a seus alunos, porque Damék não tinha mais dinheiro guardado; todas as suas economias haviam sido utilizadas para comprar seu diário.

Ele foi diretamente às cozinhas, o único lugar onde era possível conseguir comida do alvorecer ao crepúsculo, tentando evitar conhecidos – verificando disfarçadamente se não havia ninguém que poderia pará-lo no caminho.

Ele conseguiu evitar chamar atenção, apesar de seu comportamento um pouco estranho, e chegou às cozinhas sem encontrar ninguém. Há ao menos uma vantagem em não ser notável, pensou, amargurado.

Como sempre, os cozinheiros foram distantes mas educados, não recusando comida mas também não encorajando qualquer conversa. Era exatamente o que Damék queria. Ele pegou um pouco de pão, queijo e uma espécie de pasta de berinjela temperada e apimentada, muito comum em Vlasti, chamada opeprìt. Ele também pegou uma garrafa de vinho, e sentou-se a uma das mesas para comer.

Depois de comer, Damék saiu das cozinhas, agradecendo a um dos cozinheiros, que sorriu vagamente de volta. Ele levou o resto da comida consigo, sabendo que seria um longo dia. Damék foi às exposições do dia, e tentou manter o livro e suas anotações fora de seus pensamentos, ainda que não longe de seu corpo.

 *          *          *

Naquela noite, Damék pensou no que mais poderia perguntar a Asatya-badi, tomou algumas notas, e começou a folhear o livro. Logo, ele se surpreendeu completamente ao reunir os materiais e Tecer o feitiço de comunicação novamente. Ele furou seu dedo indicador, que já estava muito dolorido, e prometeu-se que o faria apenas uma vez, apenas para fazer uma ou duas perguntas.

Após a Tessitura, já familiar à Damék, ele ouviu a voz impura de Asatya-badi vindo do espelho.

“Chamado o mestre nós, apresentar nós.”

“Asatya-badi, por que os Abismos são divididos como me contastes? Não seria melhor se fossem unidos em apenas um?” Damék sentia-se muito mais confiante. Ele até mesmo zombava da idéia de temer Asatya-badi e este pequeno encantamento.

O demônio explicou que os sete Abismos existiam porque havia sete grandes lordes-demônios que não podiam lutar entre si, porque nenhum deles poderia vencer. Então, ao invés de destruírem-se e deixar o Abismo para um demônio mais fraco, haviam decidido criar níveis. Asatya-badi falou a Damék, quase como um lembrança insignificante, que uma vez havia existido apenas o Abismo, não muitos Abismos.

“O que quereis dizer com isto?” Damék perguntou, um pouco sem fôlego. Nunca havia ouvido falar de tal coisa, e pensou que talvez Asatya-badi estivesse mentindo.

“Muito tempo passado, Abismo apenas um, governado por um demônio lorde. Derrotado sete demônios ela, partido o Abismo. Sete Abismos agora.”

Damék tentou imaginar há quanto tempo isso teria acontecido, mas não tinha a menor idéia, e sentia que Asatya-badi não seria capaz de explicá-lo em termos humanos.

Ele não podia parar, já havia reunido tanta informação… Ele manteve o encantamento por tanto tempo quanto podia, tomando suas notas e interrogando Asatya-badi, até que a alvorada se aproximou, e Damék finalmente percebeu que havia passado mais uma noite conversando com o demônio. Ele deixou o feitiço se dissolver, e caiu na cama, exausto.

Não só era cansativo anotar tudo e Tecer o feitiço em si, mas as noites insones estavam cobrando seu preço de Damék. Ele não conseguia mais se concentrar apropriadamente, e sabia que era devido à fadiga.

Ele comeu o resto do pão e queijo que havia conseguido nas cozinhas e decidiu dormir ao menos um pouco antes de começar o dia. Damék estava com medo de dormir, porque estava certo de que outro pesadelo viria, mas não conseguiu evitar – ele tinhaque dormir.

Como predito, sonhou com uma criatura malévola observando-o do canto de uma caverna rochosa. Ele fugiu mas, como antes, a criatura o alcançou. Ela parecia uma enorme e inchada aranha, seu corpo formigando com aranhas menores, todas chilreando, famintas. Ainda que as presas fossem claramente sua arma principal, ela enterrou suas garras na parte superior das costas de Damék, rasgando sua carne e prendendo as garras em suas costelas.

Damék acordou, não surpreso por ter tido outro pesadelo, mas tremendo pela sensação das patas da criatura e o chilreio. Ele respirou fundo, levantou-se e lavou-se. Ainda era cedo, então ele teria tempo de continuar seu dia como de costume.

Ele deu uma olhada em seu diário e percebeu que em torno de metade das páginas haviam sido escritas. Ele não tinha certeza do que faria quando estivessem todas tomadas, mas decidiu que seria uma coisa a se preocupar depois. Talvez ele nem mesmo precisasse comprar outro diário – ele ganharia um de presente.

Entretanto, quando estava saindo, o mago sentiu uma curiosidade inexplicável tomar conta de si: qual seria a aparência de Asatya-badi? Ele seria pequeno, grande? Peludo, escamoso? Não tinha idéia. Ainda que tentasse imaginá-lo, não sabia. O livro não trazia desenhos de nenhum demônio chamado Asatya-badi. Damék decidiu que Teceria o encantamento de visualização dos Abismos apenas uma vez para conhecer a aparência de Asatya-badi.

Ele memorizou os materiais que precisaria e partiu para reuni-los.

  *          *          *

Damék conseguiu o sangue em um dos matadouros fora da cidade. Por sorte, poderia ser qualquer tipo de sangue, então ele conseguiu uma garrafa de sangue de bode. Ainda que o açougueiro tenha dado uma olhada estranha para ele, valia a pena.

Ele também precisava de um ramo de aveleira, que foi facilmente conseguido no bosque próximo, e um pequeno pedaço de pedra haima.

A pedra haima também não foi nenhum problema. Damék encontrou um pequeno pedaço, de tamanho suficiente para seu fim, nas ruas. Era um pedaço irregular, vermelho escuro, parecido com ferrugem. Ele já sabia que a pedra poderia ser esmagada e moída até tornar-se um pó avermelhado, que era da cor de sangue.

O Teann Tecido para o encantamento seria muito mais forte, mas Damék sentia-se confiante de que ninguém perceberia mais um feitiço em toda a Academia. Além disso, seria apenas uma vez, não mais.

Ele sentia-se quase flutuante enquanto caminhava de volta para seu quarto. De certa forma, Asatya-badi estava tornando-se uma espécie de amigo para ele. Ele seria a fonte do conhecimento de Damék, talvez até mesmo um aliado, algum dia.

Damék foi para seu quarto e caiu na cama. Ainda estava exausto; não havia dormido por várias noites, apenas tirado cochilos durante o dia, e teria que esperar a noite chegar, de forma que pudesse Tecer o feitiço e ver o rosto de Asatya-badi, assim como uma pequena parte dos Abismos.

  *          *          *

Naquela noite, Damék preparou-se para Tecer o encantamento, o novo encantamento, pensava. Todos os materiais estavam lá, e ele já havia memorizado os cânticos e gestos necessários, que eram muito mais complexos que aqueles que ele já conhecia. Ele tomou muito cuidado com eles, porque sabia que não podia errar. Ele poderia seria descoberto, ou até mesmo levado para os Abismos, se não fosse cuidadoso o suficiente.

Ele derramou o sangue de bode numa bacia rasa enquanto murmurava a primeira parte do encantamento. Enquanto terminava as últimas palavras, o sangue estabilizou-se e parecia solidificar-se. Depois ele puxou mais Teann para a Tessitura que já tinha e derramou o pó de haima sobre a superfície do sangue. Ele pareceu derreter, então fundir-se, cada pequena partícula tornando-se parte do todo, e vitrificou-se. Damék não conseguia ver o fundo da bacia – ele estava perdido no vermelho escuro do sangue solidificado. Para a parte final, queimou o ramo de avelã, quebrado em vários pedaços, em um pequeno braseiro. A fumaça perfumada espalhou-se pelo ar e Damék terminou os cânticos. Ele sussurrou, “Mostrai-me Asatya-badi.”

Como antes, ele não tinha certeza de que funcionaria como ele esperava que acontecesse, mas de alguma forma sabia que conseguiria.

Entretanto, tudo funcionou como ele predissera. Uma imagem esmaecida tomou forma lentamente, e então firmou-se em um pequeno humanóide, sua pele ocre baça na luz difusa do Abismo. Ele era além de esquelético; era emaciado, todos os ossos claramente aparentes através da pele seca. Tinha uma mandíbula e um nariz protuberantes, que pareciam quase tocar-se. Ele parecia não ter pelo algum. Suas patas curvavam-se rítmicamente, fechando e abrindo, fechando e abrindo. Parecia estar ouvindo algo, e respondendo. Seu corpo aparentemente frágil estava aninhado no que pareciam ser rochas calcinadas, da cor de areia, deformadas pelo calor.

Com um sobressalto, Asatya-badi olhou para cima, diretamente para os olhos de Damék, e ele sentiu-se tolo e assustado por ter tentando esse feitiço. Ele pensou em escapar, e o mero pensamento mudou o foco do feitiço de Asatya-badi para nada. O feiticeiro percebeu, então, que tudo que tinha de fazer era concentrar-se em algo.

Ele imaginou como seria dar uma olhadela em Lorde Yudhisthir, e percebeu com horror o encantamento começar a mudar, a concentrar-se no lorde da primeira divisão dos Abismos.

Damék entrou em pânico e dissolveu a Tessitura rapidamente, não se preocupando se alguém notaria ou não. Ele estava contente de ter evitado olhar para Yudhisthir, mas também envergonhado por ter visto Asatya-badi. Ele era uma criatura digna de pena, solitária e patética.

Mas o feitiço havia funcionado, apesar da descrição ser claramente insuficiente e pouco precisa.

Mas o escritor estava tomando notas para si mesmo, Damék pensou, e provavelmente sabia que o que ele poderia ver nos Abismos poderia vê-lo também. Mesmo assim, teria sido bom saber de antemão. Ele nunca teria Tecido o encantamento se soubesse.

Naquela noite, Damék não Teceu o feitiço, não tomou notas. Ele foi para a cama cedo, mas ainda assim não dormiu bem; ele continuava pensando em Asatya-badi e em como ele o havia tratado simplesmente como fonte de informação, e não como uma criatura pensante.

Ele tentava justificar para si mesmo dizendo outra e outra vez que Asatya-badi era apenas um demônio. Mas, se ele era apenas um demônio, por que Damék se referia à criatura como ele e não como a um animal? Isso não era prova suficiente de que ele tinha suas próprias idéias e sentimentos? Talvez o feitiço fosse doloroso, ou drenasse algo dele.

Mas não: ele era um demônio. A coisa era um demônio. Era um habitante dos Abismos, e não tinha sentimentos que não fossem o desejo de trapacear e mentir, aleijar e assassinar. A coisa havia respondido às perguntas de Damék apenas porque o encantamento o obrigava a isso, não por um interesse de ajudar ninguém.

Damék sentia que estava certo: usar o livro era certo, ele lhe daria informação necessária para a defesa de todos os povos contra os Abismos, e lhe traria sua merecida fama.

Damék finalmente dormiu, logo após o soar do Sino da Meia-Noite, profundamente e inquieto, e sonhou novamente.

  *          *          *

E assim Damék estava sentado na beira da cama, refletindo sobre os últimos dias e suas ações durante estes dias. Em seu último sonho, Ghassán havia aparecido. Talvez fosse um aviso para parar, talvez as pessoas estivessem notando suas atitudes.

Mas… não. Ainda que ele admitisse para si mesmo que havia cometido alguns erros, ele sabia que, no fim, havia feito o certo. E ele o faria novamente, até que tivesse tudo que precisasse para apresentar à Academia e impressionar seus colegas e tutores.

  *          *          *

Damék não comeu o dia inteiro, esperando a escuridão em seu quarto. Sentia-se como se estivesse em um delírio, febril. Ele esperava a noite, e perguntaria a Asatya-badi sobre os planos dos Abismos.

Finalmente, após o que lhe pareceu uma espera interminável, a noite caiu, e Damék preparou o feitiço mais uma vez. Durante os últimos dias, ele havia cortado e perfurado sua pele incontáveis vezes, havia ficado sem comida e água; ele havia se privado de sono e descanso, tudo pela glória e segurança de Vlasti e o resto do mundo.

Ele sentiu lágrimas por seu próprio heroísmo vindo a seus olhos enquanto Tecia o feitiço mais uma vez e viu o efeito familiar no espelho, o fogo e o sangue, e sussurrou o nome familiar.

“Chamado o mestre nós, apresentar nós.”

Com um tom de triunfo em sua voz, Damék ordenou:

“Asatya-badi, quais são os planos dos Abismos?”

“Saber não eu os planos dos níveis, feiticeiro.”

“Então contai-me quais os planos de vosso nível. Eu vos comando, Asatya-badi.” Ele havia acreditado que o demônio não saberia de tudo; afinal, ele era apenas um demônio menor, mas tinha esperanças de que ele soubesse ao menos alguma coisa.

“Invadir vai, conquistar vai, destruir raças fracas vai. Vossa perdição vai.”

“Estes planos são reais? Para quando?” Damék ouviu uma pequena nota de medo em sua voz, e rezou para Kamin para que Asatya-badi não percebesse.

O demônio grunhiu. Provavelmente estava tentando resistir ao feitiço. Mas o encantamento provou seu valor e obrigou o demônio a falar: “Planejar ataque mestres. Reunir forças mestres. Logo.” A voz de Asatya-badi havia assumido um tom de esforço.

“Vós tendes aliados aqui? Pessoas ajudando-vos? Outras pessoas em contato convosco? Dizei!”

“Feiticeiro estudioso. Contatos muitos nós, mas poucos aliados. Mas, aliados, sim.”

“Quem são vossos aliados? Quem são eles?

“Saber não nomes nós. Saber apenas mestres.”

“Vós tendes de saber ao menos um nome! Diabos!” Damék não se importava mais se Asatya-badi perceberia seu medo ou não. Ele tinha de saber mais sobre isso, ele tinha de contar a outras pessoas. Ele tinha de fazer algo. Mas precisava de informação com mais substância antes que pudesse dizer algo a eles.

“Ter encantamento poderoso feiticeiro, prender e fazer falar nós. Saber não nós.”

Em choque, Damék deixou o feitiço Destecer-se. A primeira divisão do Abismo, ao menos, estava planejando um ataque. Ele tinha que contar isso a alguém. Estas eram notícias terríveis! Talvez seria um ataque em grande escala. Quem sabe o que poderia acontecer se fosse uma surpresa completa? Ele tinha de avisar os Tronos, as Ordens, todos!

Damék levantou-se com um salto, determinado a fazer tanto barulho quanto possível, quando a realização completa de suas ações atingiu-o: ele não poderia contar nada a ninguém sem revelar-se como um homem que lidava com demônios. Não importa quais fossem as razões, a verdade dos fatos era: ele estava fazendo algo tão fora da lei que o julgamento seria tão breve quanto possível. Ele seria Rompido, então marcado com ferro quente, então expulso. Ele seria um pária aonde quer que fosse. Ninguém lidava com um homem que alegava ter visto um demônio e não tinha as cicatrizes para provar que havia lutado com ele. Ele precisava pensar.

  *          *          *

Algum tempo depois, durante as mais escuras horas da noite, Damék chegou a uma decisão: ele simplesmente não era bom o suficiente em mentiras para evitar seu destino; ele podia olhar para si e dizer honestamente quais eram seus defeitos. Por um lado, ele tinha que avisar os outros. Por outro, ele não podia ser pego. Seria uma bela dança, e decidiu pedir a um dançarino muito experiente que o ajudasse.

Ele pegou o espelho, sua mão tremendo com a dor de tantos cortes, e fez o pequeno ritual, tão fácil e rápido agora, cortando seu braço desta vez, e conjurou Asatya-badi.

“Chamado o mestre nós, apresentar nós.”

A voz familiar do demônio enviou-lhe calafrios pela espinha. Especialmente agora que sabia dos planos do Abismo.

“Como posso contar ao mundo sobre o ataque sem que outros saibam que sou eu contando?

“Precisar nada fazer feiticeiro. Avisado o mestre nós. Comunicar seu mundo vai.”

“O quê?! Que quereis dizer? Que mestre? Que aviso? Não ordenei que fizésseis nada!”

“Ah, descuidado feiticeiro estudioso. Obrigado responder nós, obrigado não obedecer. Quando perguntado feiticeiro ‘planos’, sabido nós querido mestre saber vai. Dizer ‘feiticeiro muito curioso’ mestre.”

“Quem é vosso mestre?!” Damék berrou. Ele estava furioso como nunca havia estado. Ele sentia-se traído. Ele havia até mesmo sentido pena da horrenda criatura, e ela o havia apunhalado pelas costas!

“Dizer não poder seu nome nós, feiticeiro. Saber não nós.”

Damék tentava pensar no que perguntar, quando a pequena porta do quarto abriu com violência, fazendo a chama da vela tremular e sombras dançarem loucamente pelas paredes. Aterrorizado, Damék virou-se para o recém-chegado, seu coração batendo forte em seu peito, e viu quem era. A pele escura de Ghassán fazia com que ele parecesse um pedaço da noite arrancado do céu e dado forma humana. Seus olhos negros absorviam a luz da vela, e ele olhou para Damék com ira abrasadora.

Damék levantou-se, derrotado, e voltou seus olhos para o chão. Ghassán estava Tecendo um feitiço para aprisioná-lo e impedi-lo de Tecer até mesmo uma pequena chama, e Damék não podia fazer nada. Não tinha a menor chance, não havia nada que pudesse fazer contra um mago tão poderoso – resistir seria a morte do estudante. Talvez se ele explicasse tudo, sua linha de raciocínio, o que havia descoberto, Ghassán intercederia por ele junto ao Conselho, talvez ele não seria Rompido e não se tornaria um pária.

Ele abriu a boca para dizer algo, qualquer desculpa, qualquer coisa para atrasar seu aprisionamento, quando ouviu a voz fria e áspera de Asatya-badi dizendo através do espelho, “Mestre”, com um tom de profunda reverência.

Antes que Damék pudesse gritar, correr, fazer qualquer coisa, estava inconsciente.

  *          *          *

Damék acordou lentamente, todos os seus sentidos arrastando-se de volta para ele com uma lentidão excruciante, um a um. Primeiro, toque. Ele sentia fria e dura pedra. Um chão de pedra. Então audição. Alguma coisa pingando à distância, respiração pesada, sua própria respiração, seu coração. E então acordou de uma vez, todos os seus sentidos derramando-se em sua cabeça, todas as memórias lutando para voltarem a seus lugares apropriados. Ele podia sentir cheiro de umidade, e o fedor da decomposição, e o gosto metálico em sua boca de um corte interno na bochecha. Ele havia provavelmente sido jogado no chão.

Damék abriu seus olhos e examinou o lugar. Paredes mal iluminadas cobertas com musgo e líquens mostraram-lhe que estava em uma ruína antiga, provavelmente uma das famosas criptas labirínticas dos velhos lordes da guerra de Vlasti. Elas eram corredores escavados profundamente na terra, com as paredes de pedra, cheias de nichos com os corpos dos servos, esposas e concubinas dos lordes da guerra. As criptas eram intermináveis, e alguns diziam – provavelmente com razão – que eram muito assombradas.

Damék ficou de pé e olhou para o céu coberto de nuvens e a pouquíssima luz da lua chegando lentamente ao corredor em que estava. Então ouviu um rosnado baixo atrás de si e lentamente virou-se para ele, rezando e esperando que fosse um lobo ou alguma outra criatura natural, sabendo que não seria. Ele ouviu o som molhado de mandíbulas abrindo e fechando, e viu as longas patas abrindo e fechando, abrindo e fechando. Damék olhou fixamente para os olhos esverdeados, afundados na pele amarelada, e não sentiu surpresa nenhuma quando ouviu a abominação falando com ele em uma voz ríspida, medonha, e viu seu sorriso sarcástico:

“Chamado o mestre nós, apresentar nós.”